Carnage (2011)

Título original: Carnage
Título nacional: Deus da Carnificina
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 80 min
Ano de lançamento: 2011
Diretor: Roman Polanski
Roteiristas: Yasmina Reza e Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Chrstoph Waltz, Kate Winslet e John C. Reilly
Sinopse oficial: O casal Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz) vai até a casa de Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly) para discutir uma briga entre os filhos. Eles tentam resolver o assunto dentro das normas da educação e civilidade, mas, aos poucos, cada um perde o controle diante da situação.

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Roman Polanski é um dos melhores diretores em atividade e isso é inegável. Entretanto, dada às particularidades de cada caso, o diretor sofre constantemente dos mesmos problemas de Woody Allen, cuja vida social sobrepõe – de maneira equivocada – o corpo do trabalho. Digo de maneira equivocada porque o artista deve ser visto separadamente da pessoa. Dito isso, é incoerente criticar os filmes produzidos por esses artistas levando em consideração polêmicas pessoais. Mesmo porque, se assim fosse, nomes como os de: Marlon Brando, Charlie Chaplin, Marilyn Monroe, Walt Disney e dezenas de outros, deveriam ser esquecidos da história do cinema por conta de sua má conduta no âmbito pessoal. Mas não é o caso, todos esses são lembrados por sua grande e relevante contribuição para a sétima arte, e assim deve ser também com Woody Allen e Roman Polanski.

Esse pequeno desabafo serve apenas para introduzir, de maneira justa, o excelente “Carnage” filme de 2011 dirigido por Roman Polanski, com os vencedores do Oscar: Christoph Waltz, Kate Winslet e Jodie Foster; e o indicado: John C. Reilly no elenco. O roteiro adaptado pelo próprio Polanski é baseado na peça escrita originalmente por Yasmina Reza, intitulada “Le Dieu du Carnage”. O enredo é simples: dois casais se reúnem para discutir uma briga envolvendo seus filhos em um parque. Esse encontro serve apenas como ponto de partida para a divertida e tensa interação entre essas quatro pessoas.

Todo o desenrolar da história se passa no apartamento do casal composto por Penelope (Jodie Foster), uma escritora engajada autora de livros que expõe os problemas sociais vividos no continente africano e Michael (John C. Reilly), um vendedor porta a porta de equipamentos domésticos. O filme tem início com Penelope e Michael recebendo Nancy (Kate Winslet), uma corretora de investimentos e seu marido Alan (Christoph Waltz), um advogado, para discutir os motivos da briga de seus filhos. Porém, a briga das crianças passa a ser segundo plano quando os quatro adultos começam a se desentender e partem para ofensas pessoais criando um caos em cena.

Por ser uma adaptação para o Cinema de uma peça teatral, Roman Polanski acerta ao optar por uma abordagem mais próxima a sua forma de origem. As atuações aqui são muitas vezes mais dramáticas do que o necessário, com excessivos movimentos corporais, e expressões faciais e entonações intensas. Em outro caso, essa opção do diretor poderia parecer cafona e ultrapassada, mas aqui funciona perfeitamente. Essa escolha da um tom quase cômico a obra e ao mesmo tempo cria um clima pesado de desordem e caos o qual os personagens não conseguem sair. O apartamento passa a ser uma espécie de purgatório dantesco, onde os pecadores devem se arrepender e permanecer em sofrimento até serem “liberados”. Esse sentimento claustrofóbico só aumenta no desenvolver do longa-metragem, os personagens desejam sair do apartamento e acabar com aquilo, mas – por diferentes motivos – não o deixam e vão intensificando as discussões. Os debates vão ascendendo até o clímax, que acontece logo no final do terceiro ato, encerrando o longa com todos ainda dentro apartamento, dando uma ideia de perpetuação daquele sofrimento, porém com uma “gota” de esperança, caracterizada pelo último plano do filme antes dos créditos.

Há alguns detalhes na trama que ajudam a construir as características dos protagonistas, como por exemplo, os empregos de cada um deles. Penelope é uma escritora “especializada” (palavra usada por Alan para descrevê-la) em África. Isso demonstra que o personagem se importa com o outro, não é individualista e luta por uma sociedade mais igualitária. Essa imagem do personagem fica mais clara quando ela questiona seu marido, Michael, sobre o porquê de ele apresenta-la como uma escritora. Essa atitude prova que ela não se importa com a sua própria imagem perante as outras pessoas, e que o importante é a causa. Michael é um vendedor porta a porta de utensílios domésticos e “interessantes mecanismos de descarga” (outra descrição de Alan). Segundo o próprio Michael, ele possui um emprego normal, e é realmente isso. Ele lida com pessoas diariamente além de fornecer utensílios fundamentais para uma vida doméstica contemporânea de qualidade. Em outras palavras, ele fornece, através de seu trabalho, conforto as outras pessoas.

No outro casal Alan é um advogado bem sucedido que trabalha em um caso em defesa de uma grande rede farmacêutica, que – segundo ele – possui uma enorme pilha de processos. Ao contrário de Penelope, Alan coloca sua carreira acima de qualquer tipo de relação social saudável. Essa frieza do personagem para com os outros fica claro no momento em que sua esposa, Nancy, se sente enjoada. Ele a pergunta uma vez se está tudo bem, e depois de ouvir um sim a esquece completamente e volta sua atenção para o que estava falando anteriormente. Já Nancy trabalha no ramo financeiro, possivelmente na Bolsa de Valores, trabalho que carrega um estereótipo de pessoas gananciosas que colocam o dinheiro acima de qualquer valor. “The Wolf of Wall Street”, diga-se de passagem.

Como conclusão, é possível perceber dois casais opostos, com diferentes valores e costumes. Michael e Penelope são mais “humanos” e receptivos (não é à toa que o encontro acontece em sua casa). E Alan e Nancy são mais distantes e fechados para relações interpessoais. Porém, não é tão simples assim. Não é branco no preto, há cinza, no caso o roxo. Explico: Para reforçar essa ideia dos opostos, há o excelente trabalho de Milena Canonero no figurino usado. O casal encenado por Waltz e Winslet usa predominantemente cores frias, como o cachecol azul de Nancy e a camisa de Alan. Já o casal vivido por Reilly e Foster usa cores quentes, como suéter vermelho de Michael e saia de Penelope. Entretanto, há um detalhe que transforma o trabalho da figurinista em algo absolutamente relevante para a narrativa. Ambos os casais usam uma peça roxa, a gravata de Alan e camisa de Penelope. Obtêm-se o roxo através da mistura entre vermelho e azul, isso evidencia a ambiguidade dos personagens no decorrer da história. Não é sempre vermelho contra azul, muitas vezes um azul se alia a um vermelho para antagonizar alguma das outras partes. Outro aspecto técnico que mostra a ambiguidade dos personagens está na direção, que em diversos planos mostra simultaneamente dois ângulos do mesmo personagem o enquadrando próximo a um espelho.

Outro ponto interessante da direção está na relação dos personagens com a bebida. No início do filme a direção é firme e sóbria, assim como os personagens. Mas à medida que eles começam a beber, a câmera “se solta” e o enquadramento deixa a firmeza do início de lado e fica balançando levemente de um lado para o outro, reafirmando o estado alcoólico dos personagens.

Para finalizar, “Carnage” é um filme que agradará tanto aos fãs de dramas quanto aos fãs de comédia, pois consegue balancear perfeitamente momentos tensos com toques de humor. As atuações, cenário, figurino, roteiro e direção trabalham exclusivamente em função da narrativa criada por Reza e Polanski. O resultado não poderia ser diferente, “Carnage” é mais uma obra-prima do renomado diretor.

IMAGENS:
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