Crimson Peak (2015)

MV5BNTY2OTI5MjAyOV5BMl5BanBnXkFtZTgwNTkzMjQ0NDE@._V1_SX640_SY720_Título original: Crimson Peak
Título nacional: A Colina Escarlate
Gênero: Drama, Fantasia, Terror
Duração: 119 min
Ano de lançamento: 2015
Diretor: Guillermo Del Toro
Roteiristas: Guillermo del Toro, Matthew Robbins
Elenco: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston
Sinopse oficial: Apaixonada pelo misterioso Sir Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), a escritora Edith Cushing (Mia Wasikowska) muda-se para sua sombria mansão no alto de uma colina. Habitada também por sua fria cunhada Lucille Sharpe (Jessica Chastain), a casa tem uma história macabra e a forte presença de seres de outro mundo não demora a abalar a sanidade de Edith.

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

O novo filme de Guillermo Del Toro chega aos cinemas catalogado no gênero terror, entretanto, não deveria. O cineasta constrói uma atmosfera gótica e usa temas pertencentes ao gênero, porém cria seu próprio estilo, nunca deixando de flertar com assustador. Mas quem avisa amigo é: não vá ver “A Colina Escarlate” esperando um clássico filme de terror.

De início é apresentada Edith Cushing (Mia Wasikowska), uma escritora de ficção fantástica numa época que esse nicho era dominado por homens. O drama da personagem começa com a batalha para vender seu livro para uma editora, porém não obtém sucesso e é sugerida a escrever romances como os de Jane Austin e não histórias de terror. Cushing então diz algo interessante, ela diz que – parafraseando – sua história não é uma história de fantasmas, e sim com fantasmas. Isso é claramente uma metalinguagem, ou seja, o filme falando de si mesmo. Quando Cushing diz isso a respeito de seu livro, pode ser ouvida a voz de Del Toro dando uma pista ao espectador sobre o papel dessas entidades em seu filme, e que esse não será um terror comum centrado no fantástico, e sim um drama, às vezes beirando o suspense, com um pé no sobrenatural. E esse é o maior problema do filme. Por não se definir, ele tenta fazer de tudo, mas acabando sendo raso no que propõe. A tentativa de construir uma atmosfera obscura e criar medo é falha porque o roteiro pula de uma cena com potencial de assustar para outra com objetivo de fazer o espectador criar empatia com a protagonista por meio de dramas pessoais. Depois há outro salto de gênero com um personagem misterioso, Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), chegando à cidade em busca de financiamento para seu projeto. E logo na sequência há a introdução do “romance impossível” entre o forasteiro que não é bom o suficiente para a filha de um homem que ostenta de algum poder.

Mas é importante salientar que, no segundo e terceiro ato, o gênero terror cresce e com ele o ritmo do longa-metragem. Sou aqui obrigado a repetir a referência feita no texto de “Sicario: Terra de Ninguém”, quando uma cena me remeteu ao conto “Gato Preto” de Edgar Allan Poe. Em “A Colina Escarlate” é evidente a influência que o estilo Gótico e o de Poe exerceram em Del Toro. Aqui há todos os elementos necessários para compor o estilo do consagrado autor norte-americano, que – a título de curiosidade – não se considerava gótico, como: O terror psicológico dos personagens sendo trabalhado como um estudo da mente humana levada ao limite da sanidade, o fantástico (aqui representado pelos fantasmas), a predominância do clima de tensão e aflição, além – é claro – da representação de época. Muitos dos contos de Poe se passam em castelos ou  casarões com ar medieval.

A representação de época, diga-se de passagem, é outro ponto positivo na obra de Del Toro. Não é preciso dizer que o cineasta, junto a sua equipe de produção, compõe a mise-en-scène como poucos. O cuidado com as cores e iluminação é fantástico. Por exemplo, as personagens de Hiddleston e Chastain a todo o momento usam cores frias, e seus ambientes são pouco saturados, dando um tom melancólico, quase sem vida a cena. Já quando as personagens de Hunnam e Wasikowska são retratadas, as cores são mais saturadas e o figurino de ambos – principalmente de Wasikowska – é cheio de cores quentes e vivas. O vestido amarelo usado pela atriz em várias cenas no castelo exemplifica muito bem isso. É interessante notar um detalhe no uso dessa peça: A primeira vez que ele aparece em cena, a personagem acabara de chegar ao castelo e não desconfiava das pessoas que davam-lhe abrigo. Neste momento, o vestido é usado sem nenhuma outra peça, contrastando fortemente com a frieza do castelo e de seus donos, dando um ar de pureza, bondade e riqueza a personagem. Na segunda vez, Edith já desconfiava de que algo estranho se passava naquele lugar, então o vestido amarelo é usado por debaixo de um sobre tudo preto, representando a interferência negativa que aquele meio exercia sobre a personagem.

Ainda sobre a construção artística de cena, é interessante notar que, mesmo antes de Edith conhecer Thomas e Lucille Sharpe (Jessica Chastain), há uma tensão na fotografia para retratar a personagem. Há sempre o quente e o frio, como na cena que abre o longa: um quarto esverdeado e escuro, sendo iluminado por uma forte luz alaranjada da vela segurada pela protagonista. Isso se repete durante a projeção, sugerindo a mesma ideia do sobre tudo preto por cima do vestido amarelo, ou seja, o mal tentando prevalecer sobre o bem.

A maquiagem é outro fator importantíssimo para a construção de cena em “A Colina Escarlate”. A personagem de Chastain está sempre pálida, reforçando a ideia das cores dando um tom mórbido a determinadas personagens. Além da aparência dos fantasmas que não são feitos por computação gráfica, que é extremamente impactante devido às técnicas usadas e o contexto presente. A maquiagem também se faz presente e indispensável nas incontáveis cenas de violência gráfica que permeiam o filme. Essas cenas foram realizadas com tamanha qualidade que fará os mais sensíveis virarem o rosto em determinados momentos. Escrevo isso pensando em uma cena em particular envolvendo uma caneta. A violência nela é mostrada com tanta naturalidade que o ato parece banal para as personagens envolvidas, causando certo desconforto a quem assiste.

É também bom ressaltar que a computação gráfica é aqui usada de maneira pontual e exemplar, retratando de forma criativa e eficiente os fantasmas que assombram Edith Cushing. Isso além de permitir ao diretor construir todo o cenário e ambientação necessários para o terceiro ato – principalmente no clímax.

Entretanto, tudo isso seria desperdiçado se não houvesse atuações dignas de todo esse esforço realizado pelo diretor e sua equipe. E é aí que entra Lucille Sharpe, irmã de Thomas Sharpe (Hiddleston), encenada de maneira primorosa pela excelente Jessica Chastain. Antes de entrar de fato na atuação de Chastain, é preciso dizer que a construção da personagem começa na cena em que ela aparece trajando um vestido vermelho. Essa é a única ocasião em que ela veste uma cor quente, neste caso, ao contrário do que acontece com Wasikowska, com o objetivo de demonstrar perigo. Perigo este que Chastain leva a níveis altíssimos, construindo uma personagem de tal forma que a tensão é constante só de estar presente em cena. Desde que é apresentada, fica claro que a qualquer momento essa personagem vai explodir em fúria, e quando esse momento finalmente chega, Chastain nos presenteia com uma atuação que, beirando o teatral, entra para a lista das melhores vilãs mentalmente perturbadas que abdicam da sanidade e do bom senso para ir atrás de seus desejos mais profundos ou profanos ­– no caso de Lucille ambos.

Para finalizar, Del Toro não decepciona. “A Colina Escarlate” é um excelente filme se assistido sem a expectativa de tomar sustos ou sentir medo. A construção artística de cena é primorosa e as atuações, principalmente de Chastain, são a cereja no bolo desta fantástica obra.

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