THE WITCH (2016)

witchTítulo original: The Witch
Título nacional: A Bruxa
Gênero: Terror
Duração: 1h 32min.
Ano de lançamento: 2016
Diretor: Robert Eggers
Roteiristas: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie
Sinopse: Nova Inglaterra, ano de 1630. William e Katherine levam uma vida cristã com suas cinco crianças, morando á beira de um deserto intransitável. Quando o filho recém nascido deles desaparece e a colheita falha, a família se transforma em outra. Por trás de seus piores medos, um mal sobrenatural se esconde no bosque ao lado.

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

O cinema de horror contemporâneo vive de suspiros criativos. A quantidade de produções de qualidade duvidável, recheado de clichês e jumpscares previsíveis é consideravelmente superior à de produções genuinamente boas. “A Invocação do Mal” (THE CONJURING, 2013) e “A Corrente do Mal” (IT FOLLOWS, 2014), fogem à regra, pois, mesmo fazendo uso de alguns clichês do gênero, subvertem outros de maneira positiva e criativa. Com efeito, essas produções são aclamadas pelo público (menos) e crítica (mais) por sua ousadia bem-sucedida, ganhando um espaço de desataque dentro de um gênero em decadência. “A Bruxa” (THE WITCH, 2016) do diretor Robert Eggers é um filme corajoso que abre mão dos estereótipos do terror e, ainda assim, cria uma narrativa com uma atmosfera obscura e muitas vezes profana, provando que não existe fórmula pronta para se fazer filmes do gênero.

O enredo se passa no ano de 1630 na Nova Inglaterra. A narrativa segue a história de uma família que, depois de julgada, é expulsa da vila onde vive. Essa família, então, se isola da sociedade e vai buscar um novo começo às margens de uma grande floresta fechada. É interessante observar a maneira com que o diretor Robert Eggers representa a floresta por meio dos longos planos gerais aliados as composições marcantes de Mark Korven. Com isso, a floresta passa a ser quase que uma entidade divina a ser temida. Essa ideia é ainda reforçada na cena em que toda a família faz uma oração frente a ela, sugerindo veneração, transformando-a em divino. É notável o trabalho de Eggers na feitura das metáforas visuais presentes durante toda a projeção. O diretor, sempre de maneira sútil, faz uso desse artifício para dar ainda mais grandeza a sua obra.

Eggers tomou um caminho diferente na produção de “A Bruxa”. Sua obra não dá sustos, mas causa medo. Levando em consideração que um filme de terror exige um ambiente favorável para ser assistido, uma sala de cinema cheia e barulhenta definitivamente não é o ideal para aproveitar a plenitude do clima de horror construído. Portando, “A Bruxa” – assim como qualquer outro bom filme do gênero, deve ser visto em um ambiente silencioso que propicie o máximo de imersão. Sendo assim, as sessões mais movimentadas em cinemas de shopping devem ser evitadas.

Seguindo, causar medo não é uma tarefa tão fácil quanto assustar o espectador na sétima arte. Para assustar, basta aliar um som alto (muitas vezes não diegético, o que é ainda pior) a uma imagem qualquer que quebre a expectativa de determinada cena. Essa é uma tática barata, mas atinge seu objetivo se bem produzida (o que não é difícil). Causar medo é mais difícil. São necessárias que algumas competências sejam executadas de maneira exemplar e que haja coragem e criatividade aos criadores. E é aqui que “A Bruxa” se destaca das demais produções do gênero que ficam no lugar comum.

O design de produção, mesmo que simplista, acrescenta muito para a carga de horror que a obra possui. A reconstituição de época é pontual e a paleta de cores com pouca saturação somada ao constante clima nublado ou chuvoso, acrescenta um tom melancólico que pesa ainda mais o clima do longa.

Outra competência que merece destaque (e palmas) é a trilha composta pelo já aqui citado Korven. Em uma cena em particular (a também já citada cena da oração), a música é orquestrada de tal forma com a direção que, à medida que a câmera se movimenta levemente para cima e para frente, a música vai atingindo notas mais agudas, até o momento do ápice sonoro quando a câmera está estática novamente apontando para a floresta, sugerindo e fortalecendo a metáfora da veneração.

O roteiro é outro ponto alto de “A Bruxa”. O texto foi escrito em inglês do século XVII, possuindo muitas falas retiradas de diários de pessoas que viveram naquele período. Essa escolha atribui veracidade a obra. Porém, iria tudo por água a baixo se as interpretações decepcionassem, o que não é o caso. Todo o elenco é fantástico, suas atuações são essências para acreditarmos nas motivações dos personagens. Destaco Anya Taylor-Joy que interpreta Thomasin, a irmã mais velha que é, de fato, o centro da trama – a protagonista (em todos os sentidos da palavra) e Ralph Ineson que faz o pai da família, William. A forma com que o ator interpreta suas falas é magistral. Sua voz, grave, troveja todo o fervor religioso de seu personagem de forma extremamente convincente e assustadora. Isso, somado ao inglês do século XVII, faz criar uma aura de melancolia e peso dramático em torno do personagem.

Ainda sobre os personagens, é de suma importância – para a trama fluir – que não acreditemos totalmente em nenhum deles até o derradeiro momento. E para criar esse clima de incerteza, é necessário que a apresentação e construção do clima tome mais tempo na projeção. Isso torna o primeiro ato mais arrastado, o que foi alvo de críticas em “A Bruxa”. Entretanto, não compartilho dessa ideia. O primeiro ato lento de Eggers propicia uma construção complexa e multidimensional de seus personagens, o que é fundamental para que o espectador se prenda ao desenvolvimento da história no segundo ato. A constante incerteza que circunda a os membros da família e suas reais intenções é fruto dessa construção lenta e bem trabalhada na fase de apresentação dos mesmos.

Dado isso, o filme ganha sustentação para trabalhar os temas pesados de forma corajosa, porém sempre sútil. É bom frisar que “A Bruxa” trabalha com sutileza todos os temas abordados. Sutileza talvez seja a palavra que melhor descreva o trabalho realizado aqui por Robert Eggers. Entre os assuntos abordados está o incesto, retratado pelo desejo de Caleb (Harvey Scrimshaw) pelo corpo de sua irmã mais velha, Thomasin (Taylor-Joy). Não há nada de explícito aqui, apenas a sugestão que se dá na montagem e em alguns enquadramentos que focalizam partes do corpo da menina. Porém, é importante constatar que nada aqui é sexualizado ou apelativo, tudo possui uma função clara na narrativa – nada é gratuito. Essa trama culmina em uma cena aterrorizante de possessão que faz alusão ao pecado original de Adão e Eva. Novamente, sútil.

O espectador, em momento algum, no primeiro e segundo ato, sabe ao certo o que está acontecendo. O terror sobrenatural se entrelaça ao psicológico de tal forma que reina a dúvida. Todos os personagens dão motivos para acreditar e duvidar deles, tudo passa a ser nebuloso. Seriam os acontecimentos frutos de uma histeria coletiva decorrida da isolação dos personagens (vimos isso em “O Iluminado”)? Ou de fato há algo sobrenatural acontecendo? E se há algo de tal natureza, quem é o responsável por isso e por que agora? Todas essas perguntas se acumulam na cabeça do espectador durante boa parte da projeção, o forçando a pensar em possíveis respostas de desenlace. Entretanto, isso é jogado fora na cena final. Ao contrário de todo o filme, os últimos 5 minutos abrem mão da subjetividade para abraçar o pragmático. Isso não estraga o conjunto da obra criada por Eggers, mas é definitivamente um ponto negativo que precisa ser mencionado.

Para concluir, “A Bruxa” é um terror que foge dos clichês do gênero: É bem produzido, possui boas atuações e desafia o espectador durante quase toda a projeção. Possui um desenlace que foge um pouco do esperado, porém, definitivamente, não estraga a experiência. “A Bruxa” é necessário para qualquer fã de terror ou apreciador do cinema bem feito.

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