JULIETA (2016)

Bons diretores e roteiristas, às vezes, fazem maus filmes, isso é natural e Woody Allen está aí para não me deixar mentir. Pedro Almodóvar não é exceção à regra, o espanhol é excelente no que faz e possui obras primas em sua filmografia, como o recente “A Pele que Habito” (La Piel que Habito, 2011). Mas há também alguns deslizes, como foi seu último filme, “Amantes Passageiros” (Los Amantes Pasajeros, 2013), fracasso de público e crítica. E é em algum lugar entre essas duas categorias que se encontra “Julieta” (2016), o mais novo filme do diretor.

julietaO longa, homônimo à protagonista [interpretada por Adriana Ugarte e Emma Suárez na juventude e idade madura, respectivamente] narra grande parte de sua vida focalizando nas relações com sua filha.

A estrutura narrativa usada por Almodóvar em “Julieta” é curiosa. Boa parte do primeiro ato acompanha a protagonista, em sua meia-idade, preparando sua mudança de Madrid para Portugal ao lado de seu namorado Lorenzo (Darío Grandinetti). Porém, quando Julieta encontra Beatriz (Michelle Jenner), amiga de infância de sua filha Antía (Blanca Parés), tudo muda. A interação entre as duas é rápida, porém é o gatilho para o restante da história se desenrolar.  A partir daqui a narrativa passa a ser contada pelo ponto de vista de Julieta enquanto ela escreve uma carta contando toda a sua trajetória até aqui. Portanto, o restante do filme acontece em forma de flashbacks, cobrindo diversos momentos da vida de Julieta e sua família, bem como foi feito em “Boyhood”, dada as devidas proporções, é claro.

Há uma palavra capaz de contextualizar toda a história da carta escrita por Julieta: culpa. E é esse o tema central do novo longa-metragem de Pedro Almodóvar. No início cronológico da história, ela se encontra, sozinha, em uma cabine de um trem. Outro passageiro, então, se aproxima e se diz feliz por encontrar ali uma pessoa desacompanhada, porque assim ele teria alguém com quem conversar. Julieta, desinteressada, abandona-o sozinho, e, posteriormente na viagem, ele comete suicídio. Esse evento serve como mote para toda a dor e sofrimento que a protagonista carrega durante os anos a seguir. Ela guarda em si aquele acontecimento, e isso se junta com todas as outras frustrações de sua vida pessoal, moldando seu caráter melancólico.

É também nessa viagem que Julieta conhece o pai de sua filha, Xoan (Daniel Grao), também passageiro do trem. E esse é o local em que eles se tornam amantes, portanto, amantes passageiros (ha ha). Essa sequência do trem é também um claro exemplo de uma escolha da direção de arte usada durante toda a projeção, refiro-me ao incansável uso das cores azul e vermelho para sugerir determinados sentimentos dos personagens. Por exemplo, todo o cenário do trem é pensado na cor vermelha, que representa a paixão e toda a intensidade carnal do casal que ali se conhece. Porém, Julieta, nessa cena, usa uma blusa azul clara, representado sua frieza e apatia voltada ao passageiro que comete suicídio. Entretanto, nas cenas seguintes, a protagonista quase sempre se veste de vermelho, incorporando um novo significado a cor: culpa. Há tamanha ênfase nesse uso das cores que, na primeiríssima cena há um close em um vestido vermelho escarlate de Julieta. Lembrando que o filme começa com Julieta mais velha, depois de todos esses acontecimentos.

Há um ponto que, para alguns, é negativo. Falo do grande número de coincidências que fazem o enredo andar. Mas confesso que tais situações, em momento algum, me incomodaram. Não avalio esses eventos como inacreditáveis ou absurdos, e muito menos como frutos de um roteiro desleixado. Até mesmo porque o que serve de gatilho para a trama caminhar é um evento aleatório. “Julieta” é um filme que também aborda o acaso e como uma situação corriqueira e banal pode virar a vida de uma pessoa de ponta cabeça.

Para finalizar, “Julieta” não é o melhor filme de Almodóvar, mas, com toda certeza, é excelente e marca a volta do diretor à boa fase. A direção de arte rouba a cena e merece aplausos de pé pelo trabalho com as cores e a atribuição progressiva de seus significados. Além de tudo, é um filme que discute bem o que se propõe e possui uma conclusão extremamente satisfatória, deixando seus expectadores com um sorriso no canto da boca.

Este texto é compartilhado com a Revista Ligno.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Julieta
Título nacional: Julieta
Gênero: Drama
Duração: 1h 39min.
Ano de lançamento: 2016
Diretor: Pedro Almodóvar
Roteiristas: Pedro Almodóvar, Alice Munro
Elenco: Inma Cuesta, Adriana Ugarte, Emma Suárez

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

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