THE DO-OVER (2016)

Netflix: Casa de grandes produções originais, clássicos e bons filmes de modo geral. Também casa de algumas, digamos, obras de baixo valor e qualidade. E logo em seguida, no submundo do cinema, nono círculo do inferno, estão os filmes de Adam Sandler, ator cuja a piada mais engraçada é a própria carreira. Com o Netflix, o “piadista” possui um pacto para quatro produções, e das entranhas desse acordo, o anticristo veio à superfície mais uma vez com seu segundo filme: “The Do-Over” ou, aqui no Brasil, “Zerando a Vida”.

the do overA primeira cena foi o suficiente para questionar o porquê de eu me submeter àquilo. É apresentado o protagonista, Charlie, interpretado pelo sempre irrelevante e membro do infame grupo de “amigos” de Sandler, David Spader. Entre aspas porque tem de haver uma palavra que signifique melhor a relação de nepotismo-sem-parentesco entre Sandler e seus “companheiros” de “cinema”. Enfim, Charlie é apresentado como um ser de raça desconhecida que não age, de forma alguma, como um ser humano normal. Extremamente apático, sem carisma ou personalidade, ele apenas existe – ou quase – na tela enquanto sua esposa dança com um outro sujeito em uma festa de reencontro do ensino médio. Maus personagens em filme de Adam Sandler é o normal.

O que me surpreendeu aqui foi a música de fundo que “animava” a festa, “Good Vibrations” de Marky Mark, versão beta-rapper de Mark Walhberg. Mas pensando bem, essa escolha foi acertada, pois representa perfeitamente o que é “The Do-Over”: ultrapassado, tosco, ruim de todas as formas, e, além disso, é motivo de vergonha alheia para muitas pessoas que, no passado, gostavam, mas evoluíram e reconhecem, hoje, o quão ruim é.

Há um grande problema no roteiro chamado Charlie. A todo momento, o roteirista se esforça para construir o personagem como alguém sofrido com a finalidade de criar um laço com o espectador. Essa tentativa é feita através da empatia, da capacidade do espectador de se colocar no lugar do personagem para sofrer e sorrir junto a ele. O problema é que Charlie é um completo fracasso. Como mencionado anteriormente, ele não parece humano, parece apenas a visão de alguém que viveu sozinho a vida toda em uma bolha tentando retratar uma pessoa do mundo exterior.

Já Rick, personagem interpretado por Sandler, é apenas outra caricatura malfeita. Ele é apresentado como um cara extremamente bem-sucedido profissionalmente, além de ter aquele ar de cool guy, mas, posteriormente, é reapresentado como um sociopata assassino, fato completamente ignorado pelo péssimo texto – ele continua sendo o herói que se dá bem no final.

O roteiro é mesmo um show à parte. Fora os protagonistas unidimensionais e sem carisma algum, há um vilão ginasta, uma ex-namorada obcecada pelo personagem de Sandler e Heather, personagem de Paula Patton, que, mesmo possuindo algum desenvolvimento, suas motivações são mal construídas e suas ações soam forçadas.

Assim como os personagens, as piadas também não funcionam. Como mencionado anteriormente, tudo no roteiro é ultrapassado, e o texto humorístico não foge a essa regra. Além de “Good Vibrations”, música que ecoa extremamente datada no longa, há uma piada às custas de Yao Ming, ex-jogador da NBA aposentado em 2011. Isso evidencia a limitação criativa do roteirista, incapaz de buscar referências contemporâneas e, a partir delas, criar piadas com situações mais próximas de seu tempo. Além dessas piadas “fora de época”, há também tudo o que se espera de “humor” em um filme de Sandler. Piadas sobre sexo apelativas apenas para meninos de quinta série, humor físico envolvendo nudez gratuita, violência não justificada com o objetivo (não atingido) de ser ousado, além de outras situações que soam desrespeitosas a determinados grupos de pessoas. Acredito fortemente que nenhum tema está “fora da mesa” para o humor, entretanto, tem de haver certa sensibilidade para fazer piadas com determinados assuntos. E sensibilidade não é, nem de longe, uma qualidade presente em “The Do-Over”. Faço um paralelo entre esse filme e séries como “Community” e “The Office”, por exemplo. Ambas séries fizeram piadas com os mesmos assuntos presentes no filme de Sandler, mas as fizeram engraçadas, seja pelo tom crítico no fundo ou pelo exagero que transforma a ideia em chacota. Em “The Do-Over” tudo parece ideológico, nada humorístico. É estranho, é preocupante, é Adam Sandler.

Não há nada a dizer a respeito da direção de Steven Brill, e isso diz muito sobre o filme. O trabalho de Brill é funcional e só. O que deveria ser inaceitável em uma produção de alto orçamento como é aqui.

“The Do-Over” é o pior filme do ano até o momento. Adam Sandler é um mal para o cinema e deveria ser proibido de chegar perto de uma câmera. Mas ele ainda gera lucro e continuará poluindo o cinema com seus péssimos filmes e personalidade irritante.


FICHA TÉCNICA:

Título original: The Do-Over
Título nacional: Zerando a Vida
Gênero: Comédia
Duração: 1h 48min.
Ano de lançamento: 2016
Direção: Steven Brill
Roteiro: Kevin Barnett, Chris Pappas
Produção: Happy Madison Productions, EUA
Elenco: Adam Sandler, David Spade, Paula Patton

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s