BLAIR WITCH (2016)

Boas sequências cinematográficas são como os filmes de Nicolas Cage; alguns bons, mas a grande maioria é dispensável. E dispensável é uma ótima palavra para descrever “Bruxa de Blair” (Blair Witch, 2016) do diretor Adam Wingard, que não traz nada de novo ao gênero, como fez o filme de 1999.

blair-witchA premissa do filme é simples, porém isso não impediu os roteiristas de deixá-la rasa e mal construída. O protagonista da vez é James (James Allen McCune), irmão caçula de Heather, que ainda está desaparecida nos dias de hoje. Ele, depois de ver um vídeo lançado no Youtube que apresenta novas pistas do caso, se convence que sua irmã ainda está viva e monta uma equipe de busca com seus amigos Lisa (Callie Hernandez), Ashley (Corbin Reid) e Peter (Brandon Scott) para voltar a floresta onde Heather desapareceu. A diferença é que a nova equipe possui um leque de equipamento tecnológico maior, o que poderia refletir em estratégias de direção mais criativas, mas acaba indo para o lugar comum (ou lugar nenhum).

São apresentados ainda mais duas personagens para completar o elenco, Lane (Wes Robinson) e Talia (Valorie Curry), casal que mora na beira da floresta e que, supostamente, teria ali entrado e filmado o vídeo que circula no Youtube. E é já nessa primeira etapa da narrativa que se encontra um sério problema do longa de Wingard. O primeiro ato, que é inteiramente voltado a construção de todas essas personagens, falha miseravelmente na tarefa. Não há claras motivação para as ações dos mesmos. Por exemplo, uma noite antes de irem para a floresta, eles vão a uma boate. James que, aparentemente, deveria estar abalado depois de descobrir que sua irmã poderia ainda estar viva. Mas não, todas as ações dessa – e das outras – personagens são completamente opostas ao que dizem sentir. James se diz preocupado com a irmã, mas em momento algum age como tal.

Além dessa falta de coerência com as ações das personagens, o roteiro ainda, durante toda a extensão do mesmo, apresenta conflitos, mas os esquece na sequência. Um exemplo disso é a bandeira dos Confederados exposta na casa Lane. Peter se sente incomodado ao vê-la e isso inicia o embate entre as duas personagens, que é rapidamente esquecido depois de algumas cenas. Outro exemplo é tudo acerca da “infecção” – ou seja lá o que era aquilo – de Ashley. A personagem, depois de sofrer um ferimento no pé, começa a agir estranhamente enquanto uma espécie de verme se move dentro da ferida. O acontecimento parece deslocado, não acrescenta absolutamente nada a mística da Bruxa e é abandonado sem explicação alguma, evidenciando o quão desleixado é o roteiro de Simon Barrett.

Mas não é só de problemas de roteiro que vive “Bruxa de Blair”. O filme se sai muito bem também com problemas de direção. Wingard, que outrora entregou bons trabalhos, não acertou a mão aqui. Talvez o diretor não tenha entendido a ideia de found footage, uma vez que enquadra perfeitamente os atores em cenas de diálogos, perdendo toda a essência do estilo. E o pior, nos raros momentos de sobriedade em que o diretor entende o estilo, ele o usa da maneira mais baixa possível, colocando personagens para assustar uns aos outros, aumentando o som da ação para assustador também o espectador. Pelo menos nesses momentos é respeitada a diegese, o que deveria ser regra em todos os found footages. O que não acontece aqui, pois há também a inserção de uma trilha, que trabalha contra o estilo quebrando o universo fantástico concebido no primeiro filme. Isso coloca uma barreira entre a ação em cena e o espectador, barreira essa inexistente na obra de 1999, o que tinha como efeito a construção daquele horror realidade tão característico do filme.

Outro fator que quebra com o universo fantástico criado em 99 é o fato de não existir ambiguidade aqui. Um dos maiores méritos do primeiro é nunca mostrar a Bruxa. Deixa-la apenas na imaginação e no subconsciente do espectador, acrescenta muito para a atmosfera misteriosa daquela história. Em 2016 tudo isso é abandonado e a Bruxa é mostrada. Então a ambiguidade e o mistério, tão bem explorados em 99, aqui é jogado na cara do espectador cuja inteligência é desconsiderada por parte dos realizadores.

De positivo fica a sequência final na casa. O clima de horror é bem construído e o estilo finalmente funciona. Há, também uma homenagem ao terceiro ato do filme de 99 que consegue atualizá-lo. Também é positivo a alternância das câmeras modernas da equipe de James e da filmadora analógica de Lane, que funciona como um paralelo entre os filmes de 1999 e 2016, evidenciando as diferenças tecnológicas e traçando um efeito comparativo dos dois filmes. Belo toque.

Para concluir, o novo filme é dispensável e quase nada nele funciona. O roteiro fracassa em tudo o que se propõe e a direção só acerta aos 45 do segundo tempo, tornando o filme ora irritante com os sustos gritados na câmera e ora desnecessário, por não possuir nada de novo – como possuía o original.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Blair Witch
Título nacional: Bruxa de Blair
Gênero: Terror
Duração: 1h 29min.
Ano de lançamento: 2016
Direção: Adam Wingard
Roteiro: Simon Barrett
Elenco: James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

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