THE GIRL ON THE TRAIN (2016)

Primeiramente, é importante esclarecer que este texto refere-se à opinião de alguém que não só esperou ansiosamente, como também comemorou a cada corte acertado do filme baseado no romance de Paula Hawkins. Por isso, trabalhamos com a possibilidade de informações terem se misturado e prejudicado a capacidade de julgamento quanto as particularidades de cada versão. Dito isso, partirei para a análise de “The Girl on the Train”, novo longa de Tate Taylor, que tinha a responsabilidade de fazer justiça à uma obra fantástica, que misturava elementos de drama e suspense para apresentar personagens complexos lidando com temas delicados, como alcoolismo e abuso emocional.

thetraingirlAcompanhamos a história de uma garota que gosta de observar e idealizar, pelo trem, a vida das pessoas que vivem nas belas casas pelas quais passa durante o percurso. Apegada a um casal em especial, no qual projeta suas frustrações e ambições amorosas, ela fica extremamente perturbada ao presenciar uma traição que contradiz a imagem de “felizes para sempre” que havia criado em sua cabeça. No dia seguinte, após um apagão alcoólico, nossa “heroína” acorda ensanguentada e com hematomas pelo corpo. Ao descobrir que a moradora daquela bela casa cuja vida acompanhava à distância havia desaparecido misteriosamente, a garota no trem passa a lidar com a inquietante possibilidade de ser a responsável pelo ocorrido.

A história é um mosaico de tramas que acompanha a vida de três mulheres cujas trajetórias se cruzam de maneira surpreendente. Rachel (Emily Blunt), alcoólatra e deprimida, luta para superar o fim de seu casamento; Anna (Rebecca Ferguson), esposa e mãe dedicada que, por ter sido amante do seu atual marido, vive com a paranoia de uma traição iminente; e Megan (Heley Bennett), jovem, bonita, intensa e psicologicamente desequilibrada, torturada pela culpa de um erro cometido no passado.  O diferencial aqui é o firme apoio nos defeitos das personagens, que encantam por suas imperfeições.

Por se tratar de uma história não linear que alterna perspectivas, manter a clareza da narrativa era um dos grandes desafios da roteirista Erin Cressida Wilson, que alcançou com êxito seu objetivo. A apresentação dos personagens e a revelação das informações – bem como a ocultação das mesmas – são pontuais, mantendo o público engajado ao longo de toda a projeção. A única ressalva seria com relação à valorização e aprofundamento da tensão na sequência final, após a grande revelação do terceiro ato. Afinal, por ser uma história tão misteriosa, somente naquele momento somos apresentados à sua verdadeira essência. O que deveria ser um momento de aflição prolongada se transformou em ação apressada.

A direção de Tate Taylor acerta na forma como trabalha, visualmente, a incerteza dos apagões, delírios e flashbacks das personagens. No entanto, peca na falta de confiança em seu potencial imagético ao abusar da verbalização de certos elementos. Exemplo disso é a utilização do recurso de narração em off, que pouco combina com a atmosfera ou contribui para a fluidez. Mais parecendo uma decisão de última hora, tomada nos estágios finais da pós-produção. Além disso, as constantes reafirmações reduzem, em determinados momentos, a naturalidade e elevam a autoconsciência. O hábito de se observar o casal pela janela do trem, por exemplo, se mostrado em vez de dito, tornaria a obra mais interpretativa e menos explícita.

O elenco, que conta ainda com Justin Theroux, Luke Evans, Edgar Ramirez, Laura Prepon e Allison Janney, é fundamental para o sucesso da adaptação. Todos atendem às expectativas quando maior carga dramática lhes é exigida. O grande destaque fica por conta de Emily Blunt, que interpreta Rachel com autenticidade, sem sucumbir às caricaturas, retratando o alcoolismo com respeito e sensibilidade. A performance de Blunt contribui para provocar agonia no espectador, ao relembrá-lo constantemente de que está diante de uma mulher doente e acomodada, vítima das mais diversas circunstâncias.

Por estar sendo vendido como o novo “Gone Girl”- um dos grandes suspenses do cinema recente – é importante ressaltar que “The Girl on the Train” é um filme que funciona melhor como drama. Aqui, a trama possui uma maior complexidade em relação ao thriller de David Fincher. Em virtude da quantidade de ângulos pelos quais a história é contada, o contingente de informações a serem passadas é maior e a contextualização exige mais tempo. Em cima disso, é feito o melhor trabalho possível.

Por fim, trata-se de uma adaptação não apenas fiel, mas funcional. Altera o que é necessário para prosperar no formato audiovisual sem desrespeitar o material de origem. Apesar de funcionar como um todo, deixa a desejar quando se trata de sutileza.


FICHA TÉCNICA:

Título original: The Girl on the Train
Título nacional: A Garota no Trem
Gênero: Drama, Suspense, Thriller
Duração: 1h 52min.
Ano de lançamento: 2016
Direção: Tate Taylor
Roteiro: Erin Cressida Wilson
Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

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