MICHAEL MOORE IN TRUMPLAND (2016)

Lançado esse ano, sem aviso ou marketing algum, a “surpresa de outubro” de Michael Moore é revelada em forma de um novo documentário do criador de “Fahrenheit 9/11” e “Sicko”. Intitulado “Michael Moore in TrumpLand”, o novo filme de Moore é diferente de tudo o que ele já fez, quando visto pelo campo da linguagem, porém, com a mesma contundência temática vista outrora.

trumplandO formato do filme, de início, causa certo estranhamento ao espectador. Por não ter havido nenhuma forma de divulgação, alguns espectadores podem ter sido pegos de surpresa pelo formato show-de-um-homem-só, o que se assemelha muito aos especiais de comédia de palco, vulgo stand-up comedy. Aqui não há entrevistas [com exceção de algumas na abertura e outra realizada nos anos 90 em que Trump elogia Hilary], porém o show é baseado no monologo de Moore.

Para quem conhece um pouco do trabalho do documentarista, não é novidade que o mesmo possui um ótimo tempo (ou timming) para comédia. Porém, até aqui em sua carreira produzindo longas documentais, esse tempo era demonstrado não só pelo afiado texto do documentarista, mas também pela montagem, trilha e outros aspectos da linguagem cinematográfica aliados à sua sagaz e cínica narração. O caso em “TrumpLand” é outro. O produto aqui é cru, Moore, um microfone e sua oratória são os protagonistas, frente a uma plateia dividida entre republicanos e democratas, com o objetivo de construir uma imagem diferente de uma pessoa menosprezada durante toda a sua trajetória na vida pública.

O título engará alguns. “Michael Moore in TrumpLand” não é sobre Donald Trump, mas sim sobre Hilary Clinton. Moore faz uma linha do tempo que vai desde o discurso de formatura de Clinton, passando por sua tentativa de implementar, nos EUA, um sistema de saúde universal (semelhante ao criado por Obama) até sua campanha presidencial atual. Porém, todas essas informações não são distribuídas no decorrer do filme de forma cronológica, elas estão colocadas aqui e ali, porém amarradas pelo excelente e coeso roteiro de fala de Michael Moore.

É interessante aqui notar como Moore constrói seu argumento a favor de Hilary sem nunca, ao menos, ter votado na ex-senadora. Inclusive usando isso ao seu favor para justificar sua recente posição. Há de ser reconhecido o domínio de oratória por parte de Moore. Um momento em particular chama a atenção, quando Moore usa de bons 5 ou 6 minutos para justificar a escolha de determinada camada da sociedade por Trump. Porém, tamanha a sutileza de sua fala, o discurso, posteriormente descontruído, é mal interpretado. Moore isenta de culpa os potenciais eleitores de Trump e não, de fato, apoia o candidato. Em momento algum o documentarista justifica as posições ou ações do republicano, ele apenas entende o apelo da fala de Trump para determinadas pessoas.

O mais recente trabalho de Moore é vendido como um documentário. E de fato é. Há uma desconstrução clara no gênero, entretanto, não faltam argumentos para sustentar a tese de que “TrumpLand” se enquadra sim no gênero em que é vinculado. O uso da linguagem documental aqui é abdicado, porém o conteúdo permanece fiel ao gênero. Pode-se também argumentar que a forma vem antes do conteúdo ­— inclusive concordo com tal afirmação em outros casos, mas nesse recorte discordo. O foco aqui é o conteúdo e a necessidade momentânea de atingir o maior número de pessoas possível, por isso o uso de uma linguagem mais simples e direta, aproximando o espectador do que é ali falado.

“Michael Moore in TrumpLand” não é um filme que será lembrado por anos a fio, mas sim um de seu tempo, sendo extremamente necessário, principalmente para o cidadão norte-americano contemporâneo. Talvez por isso, o uso da linguagem cinematográfica aqui soaria como firulas desnecessárias.

Portanto, mais que um filme, o último trabalho de Moore é uma importante ferramenta de cunho social que não almeja ser lembrado na história dos grandes documentários, mas sim, desempenhar sua função em um momento que por isso pede.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Michael Moore in TrumpLand
Gênero: Documentário
Duração: 1h 13min
Ano de lançamento: 2016
Direção: Michael Moore
Roteiro: Michael Moore
Elenco: Michael Moore

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

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