ARRIVAL (2016)

Em tempos pobres em criatividade de “Marvel” e “DC”, são raras as obras de grande alcance que consigam conciliar entretenimento e arte. Porém, quando esse balanço é atingido, o resultado é imensamente gratificante para qualquer apreciador de cinema. “A Chegada” (Arrival, 2016) é precisamente isso: uma obra de arte que cumpre, também, o papel de entretenimento que o estúdio demanda de obras de grande orçamento.

arrivalA trama, à primeira vista, parece banal. A história de naves alienígenas que pousam na terra e geram problemas entre nações não é original e pode, até mesmo, parecer demasiada simples, mas o que é aqui proposto não é inovação no campo temático, e sim a forma pouco convencional com que a narrativa é regida. E o maestro não poderia ser melhor. Denis Villeneuve, o homem por trás da obra, talvez seja o mais competente diretor a fazer a transição da cena independente para obras de grande orçamento da atualidade. É admirável sua capacidade em compreender o novo nicho para onde produz sem perder a essência que o colocou onde está.

De início, Villeneuve estabelece que “A Chegada” não é o Sci-Fi costumeiro. E, mesmo usando de arquétipos do gênero posteriormente na narrativa, a originalidade da obra não se perde devido a forma com que foram usados. Para estabelecer o caráter inusual do filme, Villeneuve apresenta o conflito através da mídia, porém sem nunca – nessa fase a narrativa – mostrar de fato o local das aparições. E mais, grande parte da exposição midiática feita no primeiro ato é apenas apresentada ao espectador em forma de áudio, enquanto a câmera narra as reações faciais de Louise Banks (Adams). Essa escolha da direção já dá indícios da proposta dos realizadores para com a obra em questão: o destaque aqui não são os aspectos fantásticos da história, mas sim o humano. O foco narrativo é Louise e sua história de luto, esperança e amor. Prova disso é a cena que abre o longa em que é mostrado, em poucos minutos, o desenvolvimento da relação de Louise e sua filha, da idade infantil a prematura morte na adolescência.

E não é apenas o foco narrativo que é voltado para as personagens. O foco de lente também contribui para essa proposta do diretor. Em diversas cenas em que Louise está em cena, o fundo da é completamente desfocado, deixando nítida apenas as feições da personagem em um primeiríssimo plano, enfatizando suas emoções e o aspecto humano da obra.

Outro detalhe técnico que não pode ser negligenciado em “A Chegada” são as ótimas e pontuais elipses[1] utilizadas pelo diretor. Um ótimo exemplo disso está nessa mesma primeira cena, no corte que separa, no espaço temporal, a filha de Louise dizendo que a ama, na infância, e a odeia, na adolescência. Assim como foi feito por Kubrick no fantástico corte que separa a imagem da subida do osso e da descida da nave espacial em “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, não é preciso explanar com anotações em tela ou narração in off que há passagem de tempo. Isso fica subentendido para o espectador, uma vez que é de conhecimento geral características básicas das fases do desenvolvimento humano. A infância é a etapa em que os pais são ídolos para os filhos, enquanto na adolescência esses ídolos tomam contornos de opressores que forçam os filhos a se rebelarem contra eles. Tudo isso é dito, por Villeneuve, em uma fração de segundos, com um único corte. Essa concepção parece simples, parece tão simples quanto a imagem de um osso subindo rumo aos céus. Mas não é.

A montagem é, também, outro artifício de linguagem usado de forma a contribuir com a temática do filme. As cenas são montadas, em muitas ocasiões, em paralelo, entretanto, a diferença é que são mostradas as mesmas personagens em ambas, dando a ideia flashback. Por exemplo, um problema é apresentado para Louise seguido de um corte seco para uma cena dela com sua filha ainda viva, discorre um diálogo, outro corte seco, e então Louise tem uma epifania relacionado ao problema, como se aquela segunda cena fosse um déjà-vu. Portanto não há, assim como nas elipses, nenhuma marcação temporal na tela. Há apenas uma leve mudança na paleta das cores para as cenas em que é mostrado o relacionamento mãe e filha, cores mais quentes ou frios para refletir o estado de espírito da protagonista.

Nota-se também um cuidado especial em criar, diante das câmeras, as funções e métodos utilizados pela profissão de linguista. Louise Banks trabalha na área como professora de universidade e tradutora, até que um dia – depois da invasão –, ela é visitada por um general do exército que a convida a traduzir a “fala” ou o “dialeto”[2] dos seres de fora. É aqui outro momento chave responsável por dar contornos não convencionais ao filme em seu gênero. Daqui em diante é estabelecido que “A Chegada” não é e nem será um filme sobre guerra com cenas de ação, e sim, um drama pessoal – como antes discutido – e, mais que isso, um filme sobre o poder da linguagem.

Todo o segundo ato segue a incursão de Louise e Ian (Renner), um cientista, na nave extraterrestre com o objetivo de estudar a linguagem dos seres. No primeiro momento o estudo é a respeito da oralidade, para em seguida, se focar na escrita. É claro, nessa etapa, depois de feito o primeiro contato, o interesse mútuo em ser entendido. Diante disso, é criada uma relação de proximidade entre as raças com a finalidade de estabelecer algum tipo de diálogo. Com efeito, se tem uma construção narrativa que para muitos pode parecer lenta, porém é de fundamental importância para a concepção do clima misterioso acerca da chegada. Além disso, o desenvolvimento compassado funciona justamente a favor das relações das personagens, o que, de fato, é o foco narrativo do longa.

“A Chegada” usa de um argumento de ficção científica para discutir um assunto extremamente humano. A direção de Villeneuve transforma o que poderia ser mais um filme de invasão alienígena em um excelente drama em que o uso da linguagem trabalha a todo momento em função da trama.

Daqui em diante haverá SPOILERS da trama.

Toda estrutura narrativa de “A Chegada” trabalha a favor do argumento da história. A ideia da revelação de que os alienígenas não percebem o tempo de forma cronológica, como nós, mas sim como acontecimentos em uma linha, podendo ser acessados a qualquer momento, está também na forma do filme, na montagem, e em elementos outros que contribuem para o entendimento do filme.

A montagem, de início, sugere que a narrativa parte da relação de Louise com sua filha, do nascimento a morte, e todas as cenas das duas colocadas no decorrer do longa são flashbacks daquela fase inicial. Entretanto, tais cenas não são flashbacks, mas sim flashfowards. A parte mais interessante é que esses flashfowards atuam dentro da diegese, funcionando como visões de Louise. Esse conceito vai de encontro a não linearidade de tempo percebida pelos seres de fora. A montagem do filme é muito bem-sucedida em causar estranhamento na cronologia para exprimir uma ideia de roteiro sem dizer uma palavra sequer.

Outro fator que contribui é o nome da filha de Louise – Hannah. Como a própria personagem diz na projeção, o nome é um palíndromo, ou seja, o mesmo de trás para frente. Portanto – esticando o conceito – nos remete a forma não linear com que os viajantes veem o tempo, uma linha que vai e vem. O vemos aqui é também é um excelente trabalho em juntar duas linguagens diferentes em uma só, no caso a literária e a cinematográfica com a finalidade de construir um mesmo sentido, um mesmo conceito, em diferentes segmentos do filme o tornando coeso e grandioso.

Além de tudo isso, essa é uma obra que trata de escolhas e do lidar com as consequências. Louise, portanto, durante a chegada, ainda não perdeu a filha – ela sequer a teve ou conheceu seu marido. Logo, suas visões são de um futuro que pode ou não se concretizar, cabendo apenas a ela essa decisão. Em determinado momento no final do segundo ato, ela toma consciência disso e de que Ian, seu colega cientista, é também seu futuro marido e pai de sua também futura filha. Aquele é o momento em que tudo começa, tudo o que – de fato –  importa para ela. A frase dita por Louise na primeira cena retorna com força, aquele não era o fim, mas o início. Assim, a personagem estabelece suas prioridades. Essa ideia de início concebida após morte da filha não diz a respeito à chegada dos seres, mas sim de uma nova vida para a personagem, da dor da perda e de como viver com isso sozinha, uma vez que Ian a deixa –  supostamente –  após descobrir que Louise sabia de tudo e o deixou de fora das decisões. Louise era capaz de transitar no tempo devido a seu contato com os seres, Ian não.

Louise toma sua decisão. Para ela, toda a dor e sofrimento que virão futuramente são menores – ou toleráveis – uma vez que pudesse estar com a filha por um tempo, mesmo que limitadíssimo. Disso surge a emblemática imagem da varanda da casa de Louise – recorrente no longa –  vista de dentro, completamente vazia e contemplativa, sugerindo o vazio da personagem em sua vida sem a filha, mesmo antes dela nascer. É naquela varanda, do lado de fora, onde acontecem as cenas de relação mãe e filha, as cenas significativas que preenchem o vazio de Louise e a enchem de felicidade, também retratada pela fotografia saturada.

Em “Álbum de Família” (August: Osage County, 2013) a personagem de Julia Roberts diz que se soubéssemos de nosso futuro, jamais levantaríamos da cama, se referindo a um acontecimento de morte em sua família. O que vemos em “A Chegada” é um forte contra-argumento a essa ideia.

“A Chegada” é um Sci-Fi grandioso, mas antes disso, um magnífico drama, e não deve ser visto apenas em seu sentido literal. O filme inteiro, do argumento narrativo a questões específicas de linguagem, funciona como uma grande alegoria para relacionamentos familiares extremamente humanos e tocantes. É, até a presente data, o melhor do ano.


[1] Elipse é um salto temporal na narrativa cinematográfica que sugere um acontecimento ao invés de o expor.

[2] Entre aspas porque em momento algum é dito se os sons emitidos por eles são, de fato, uma forma de expressão de sentido.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Arrival
Título nacional: A Chegada
Gênero: Drama, Ficção-Científica
Duração: 1h 56min
Ano de lançamento: 2016
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

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