ASSASSIN’S CREED (2016)

Adaptar uma obra de uma mídia para outra é sempre uma tarefa difícil por diversos motivos. Quando famosa, é de fundamental importância considerar que boa parte do público é fã do conteúdo original, portanto, em algum nível, é necessário manter-se fiel para que essa parcela não se desinteresse. Além disso, é preciso criar novos aspectos e reapresentar o conteúdo para capitalizar os potenciais novos espectadores. Logo, o ideal é encontrar um meio termo capaz de agradar aqueles que já conhecem o conteúdo original, assim como os que estão tendo o primeiro contato com a adaptação — tarefa difícil, e “Assassin’s Creed” não chega nem perto de cumpri-la.

assassins-creedFassbender interpreta, no longa, dois personagens: Callum Lynch, no presente da narrativa e Aguilar no passado. Callum é ancestral de Aguilar que possui descendência de um grupo de assassinos com habilidades e responsabilidades especiais. Callum é incumbido por uma organização encabeçada pelos templários Alan (Irons) e Sophia Rikkin (Cotillard) a reviver as aventuras de Aguilar para localizar a Maçã de Adão, capaz de acabar com o livre arbítrio a fim de controlar a população ideologicamente. Em outras palavras: mais um filme de vilões caricatos querendo dominar o mundo sem motivo claro aparente.

“Assassin’s Creed” é um filme que trabalha com diversos conceitos que dependem fortemente da capacidade e vontade do espectador de aceitar aquele universo. Entretanto, não há esforço por parte dos roteiristas em “vender” esses conceitos. Tudo é jogado na tela de qualquer maneira tornando impossível, para o espectador, fechar o pacto ficcional com a obra. Um exemplo disso é o funcionamento da máquina conectada a Lynch para que ele possa reviver experiências de Aguilar. Nas cenas em que ele está conectado à tal máquina, a montagem é paralela, mostrando o passado e o presente. As lutas, bem coreografadas, acontecem no passado, porém vemos a personagem de Fassbender realizar os movimentos de batalha em um salão vazio contra flashes de holograma desses inimigos. Até aí tudo bem, o problema é que há diversas cenas em que Aguilar corre grandes distancias saltando prédios e fazendo acrobacias de circo aqui e ali. Essas sequências não são mostradas em montagem paralela com o presente, pois não há como mostrar Lynch correndo aquelas distancias naquele confinado espaço. Isso pode parecer implicância, mas não é. Esse tipo de detalhe quebra a experiência cinematográfica e mata qualquer tipo de imersão que possa haver do espectador na obra. Eu, por exemplo, por grande parte da projeção, não consegui parar de imaginar a personagem de Fassbender correndo parado, sem sair do lugar, o que tornou o filme extremamente engraçado para mim. Mas não foi apenas isso que me fez rir.

Comédias não intencionais tendem a ser as mais engraçadas. “The Wicker Man”, também conhecido como “not the bees” não me deixa mentir. E “Assassin’s Creed” tem algumas características desse tipo de humor. Um exemplo risível é a forma e a quantidade de vezes que os personagens ajeitam o capuz. Eu não tenho nenhuma experiência com o jogo, mas sei que essa ideia do capuz faz parte da mitologia da série, entretanto, na telona o movimento ficou caricato em demasia. São em momentos como esse que o filme perde a identidade de adaptação se assemelhando muito à paródia, e isso nunca é um bom sinal.

Esteticamente, como a maioria dos blockbusters, é um filme vazio. As cenas são bem saturadas dando um aspecto sujo e corado a elas, porém sem nenhuma função narrativa, uma vez que o estilo permanece durante toda a projeção, não apenas nas cenas no passado – o que faria algum sentido. Há também uma quantidade desnecessária do uso de CG que só serve para inchar o longa e contribuir para a Michaelbayriarização™ do cinema. A direção de Justin Kurzel não é nada além de meramente funcional, ela não conta a história, mas a entrega de mão beijada ao espectador. Não há nada estilístico ou autoral, é a mesma direção sem vida que Hollywood vende em seus blockbusters. Dito isso, que Deus abençoe Denis Villeneuve e seu “Arrival” – créditos a quem merece.

“Assassin’s Creed” é só mais um produto fílmico hollywoodiano feito unicamente para lucrar com a base já estabelecida pelos fãs do videogame. Vazio de estilo e estéril de criatividade, possui ainda um grandioso elenco que permeia toda a projeção sem brilho algum devido a uma direção sem pulso. Maior valor artístico pode ser encontrado em uma luta de MMA ou partida de futebol.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Assassin’s Creed
Título nacional: Assassin’s Creed
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Duração: 1h 55min
Ano de lançamento: 2016
Direção: Justin Kurzel
Roteiro: Michael Lesslie, Adam Cooper
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

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