NÓS TAMBÉM, RIDLEY SCOTT

“Eu estou preocupado com o estado do cinema atualmente. Eu quero continuar fazendo filmes, e filmes inteligentes, e espero que Hollywood ainda tenha espaço para eles” – foram as palavras do diretor de “Êxodo – Deuses e Reis” quando perguntado sobre o porquê de não dirigir filmes de super-heróis. A citação parece deslocada quando precedida de tal exemplo, até porque de inteligente “Êxodo” não tem nada — e digo isso sem entrar nos méritos do “polêmico” casting, isso é bobagem para um outro momento.

Entretanto, há razão na fala de Scott. Não na fala do diretor de “Êxodo” ou “O Conselheiro do Crime”, mas na do diretor de “Alien”, “Blade Runner”, “Gladiador”, “Hannibal”, “O Gângster” e até mesmo “Prometheus” e “Perdido em Marte”. Mesma pessoa, mas nem tanto. É fácil tirar a razão de alguém contextualizando de forma maldosa, em virtude disso, acho por bem recomeçar.

“Eu estou preocupado com o estado do cinema atualmente. Eu quero continuar fazendo filmes, e filmes inteligentes, e espero que Hollywood ainda tenha espaço para eles” – foram as palavras do diretor de “Alien”, “Blade Runner”, “Gladiador”, “Hannibal”, “O Gângster” e até mesmo “Prometheus” e “Perdido em Marte” quando perguntado sobre o porquê de não dirigir filmes de super-heróis. Agora sim.

O homem está certo, o emburrecimento cinematográfico é progressivo e assustador em Hollywood. A criatividade, cada vez mais escassa, dá lugar a reproduções e reproduções de ideias que outrora foram novas e frescas. O problema tem nome, na verdade três: remake, reboot e reshoot. Cada um com suas características são responsáveis pela legítima preocupação do diretor de “Alien”, “Blade Runner”, “Gladiador” e por aí vai.

São justamente os filmes de super-heróis os mestres na utilização dos três R’s – e sustentabilidade não deveria ser o mote da produção criativa. O cabeça de teia é um exemplo gritante dessa fórmula: em pouco mais de um século foram produzidas três versões do Homem-Aranha para o cinema. Em cinco anos, de “O Espetacular Homem Aranha” de 2012 para “Homem Aranha de Volta ao Lar” desse ano, foram feitos dois reboots. Esses são números criminosos e desnecessários. O cinema não precisa dessa quantidade exacerbada de atores vestidos em collant vermelho e azul.

E nem o público, esse levado a acreditar que é relevante se fulano ou ciclano vai interpretar determinado papel de super-herói, quando na realidade tudo gira em torno de quem, no final das contas, vai entregar o maior cheque para o estúdio. A seleção de atores para esses filmes não precisa levar em consideração a qualidade de atuação, o que torna as discussões online sobre o tema mais estúpidas do que por natureza já são. Produtor nenhum em sã consciência contataria um ator do calibre de Daniel Day Lewis e diria – “Temos um papel que exige um ator metódico como você. Ele tem uma coisa por crianças com roupas justas chamadas Robin e se veste de morcego. Você vai adorar”.

Isso nunca aconteceu e nem acontecerá por um motivo e um motivo apenas: não há profundidade de personagem ou há pouca nesse tipo de adaptação. Os quadrinhos são outra história, aqui me refiro apenas aos filmes, filmes esses que possuem uma “fórmula do sucesso” seguida à risca pelos roteiristas, o que não deixa espaço de manobra para inovações. Com efeito, os “filmes inteligentes” de Scott perdem espaço no mar de produções medíocres derivadas de outras mídias.

Outro problema sério que vai contra a indústria almejada por Scott é a quantidade de remakes produzidos nos dias de hoje. A desculpa de que são feitos esses remakes para adaptar determinada obra à cultura americana beira o ofensivo. Mais ofensivo ainda quando são pensados em exemplos como “Oldboy”, um clássico coreano profanado por Hollywood. Mas como exemplos ajudam a construir o contexto, e contexto é tudo, é possível também argumentar de que não é de todo mal uma vez que “Os Infiltrados”, de Scorsese, é também um remake. Entretanto, há diferenças monumentais entre essas duas obras. Além disso, Scorsese não é qualquer um, por isso apenas já cai por terra o argumento. Mas o mais importante: Scorsese não simplesmente refilmou uma história a adaptando para outra cultura, ele a inovou e com isso a enriqueceu.

Outro grave problema que tem se tornado cada vez mais corriqueiro nas produções contemporâneas, são as refilmagens após o lançamento do trailer ou as sessões exclusivas. Essa prática é utilizada quando um filme em que o estúdio deposita grandes expectativas não agrada o público geral e acaba tendo que alterar pontos na narrativa para se adequar ao que é pedido pelos fãs. Um exemplo dessa terrível atrocidade é o péssimo “Esquadrão Suicida” que teve cenas acrescentadas porque os fãs acharam o trailer “sério demais”. Esse ato mata qualquer resquício de autenticidade que a obra poderia ter. É o ápice da mercantilização cinematográfica, pois a obra deixa de ser do diretor e passa a ser para os fãs. Pouco importa quem fez, o que importa é agradar à demografia-alvo.

Agradar aos “fãs” é uma coisa absurdamente fácil, basta colocar na tela um ator remotamente parecido com o personagem dos quadrinhos e ser fiel a uma história já contada antes. Isso não é arte, isso não é cinema e isso não tem valor algum. Agradar aos fãs é uma coisa tão estupidamente fácil que até mesmo Zack Snyder o faz, um exemplo disso é o problemático “Watchmen”, visto como exemplo de adaptação pelos fãs cegos. Como se já não fosse o suficiente, esse problema ainda gera falas que são no mínimo risíveis, como “nosso filme não é para críticos, e sim para fãs” ou alguma coisa do tipo, dita por Ben Affleck logo após o lançamento de “Batman v Superman”. É bem conveniente dizer isso logo após o filme fracassar perante a crítica, senhor Demolidor.

A situação não é favorável para Ridley Scott, mas a parte positiva é que ele tem as ferramentas necessárias para ajudar a mudar esse cenário. Basta ser mais parecido com o diretor de “Alien”, “Blade Runner”, “Gladiador”, “Hannibal”, “O Gângster” e até mesmo “Prometheus” e “Perdido em Marte”, e menos parecido com aquele sem talento que dirigiu “Êxodo – Deuses e Reis”.

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