FENCES (2016)

Adaptações para o cinema de peças com poucos cenários são sempre chamativas. É interessante observar como é usada a linguagem da sétima arte para sustentar a escassez de ambientações. Em 2011, Polanski realizou um exímio trabalho no claustrofóbico “Deus da Carnificina” (Carnage) regendo toda a narrativa em um único cenário sem perder o ritmo em momento algum. Denzel Washington, em “Um Limite Entre Nós” (Fences, 2016), adaptado da obra de August Wilson de mesmo nome, seguiu um caminho diferente, porém igualmente bem-sucedido.

fencesA história acompanha o casamento de Troy Maxson (Denzel Washington) e Rose Maxson (Viola Davis) e sua convivência com o vizinho Jim (Stephen Henderson), seus três filhos e Gabriel Maxson (Mykelti Williamson), irmão de Troy. A narrativa se desenvolve em torno do anseio do patriarca em construir em cerca em volta de sua casa, por isso o título “Fences”. A tradução brasileira, como de costume, optou por não tomar o caminho mais curto e correto e chamou o filme de “Um Limite Entre Nós”, o que não é a pior tradução de todas, mas também não havia necessidade em criar um novo título sendo que “Cercas” daria conta do recado.

Dada a premissa, é de se imaginar que todo desenvolvimento da história aconteça nas limitações da casa da família, mais especificamente na área externa, onde a cerca é construída, como é na peça. Entretanto Denzel Washington decidiu por alterar a estrutura dos palcos e acrescentar acertadamente algumas cenas em outros cenários. Essa escolha deu “corpo” ao longa além de funcionar perfeitamente bem como um escape para os tantos diálogos sobrecarregados emocionalmente que ali tomam vez.

Por falar nisso, é notável a riqueza do texto de August Wilson tanto nos já mencionados diálogos, que são — de fato — o pilar do longa, quanto nas significações atribuídas as ações e objetos. Um exemplo é a própria cerca, que, na trama, não apenas representa uma limitação espacial da casa, mas também como um instrumento simbólico da união almejada por Troy para sua família, além de ser um mecanismo de defesa contra os potenciais males que vem de fora. Essa metáfora é fortalecida por um acontecimento no segundo ato que coloca Troy como o responsável pela maior adversidade enfrentada por sua família. Ele é tomado por um intenso sentimento de culpa o que torna possível o momento mais memorável do longa: o vigoroso monólogo de defrontação a morte.

O impacto causado por esse monólogo só é possível devido a desconcertante atuação de Washington, que perdura durante toda a projeção. O que é natural, sendo que o elenco do filme é o mesmo da última versão da peça em cartaz. Logo, as falas são conhecidas dos atores. Entretanto, esse fato pode ser responsável por acionar o piloto automático em algumas performances, como acontece com Viola Davis, que navega entre momentos intensos e convincentes e outros desinteressados e distantes.

A estrutura do filme é construída em cima de longos diálogos e sequências duradouras. A apresentação das personagens no primeiro ato dura cerca de 40 minutos, recheada de monólogos intermináveis e falas que vão criar certa antipatia do espectador em relação a Troy. Esse sentimento é justificado pelas revelações futuras da trama, o que faz o primeiro ato tão bem-sucedido em estabelecer a posição de cada personagem na trama.

Quase todas as relações interpessoais do longa são bem construídas e possuem um desenvolvimento satisfatório, com destaque a de Troy e Cory (Javan Adepo), seu filho mais novo. Contudo, há uma que não acha seu tom e soa desafinada. O desenvolvimento entre Troy e Gabriel, seu irmão que possui problemas mentais, soa piegas do início ao fim, por vezes remetendo a embaraçosa atuação de Cuba Gooding Jr. no vergonhoso  “Meu Nome é Rádio” (Radio, 2003).

“Fences” é um filme bem estruturado, adaptado e dirigido. Muito de seu sucesso cai sobre os ombros do sempre competente Denzel Washington que rege com maestria os sentimentos do espectador através de um sólido estudo de personagens. Os poucos erros cometidos não comprometem a experiência, colocando a obra entre as melhores do ano.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Fences
Título nacional: Um Limite Entre Nós
Gênero: Drama
Duração: 2h 19min
Ano de lançamento: 2016
Direção: Denzel Washington
Roteiro: August Wilson
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson

IMDb | Rotten Tomatoes | Filmow

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