LOGAN (2017)

Em um gênero predominantemente normatizado por uma convenção que celebra o mesmo, inovação merece destaque. “Logan” (Logan, 2017), de James Mangold, apresenta uma nova perspectiva dos filmes de super-heróis dando vigor ao expandir as possibilidades do estilo.

loganA história se passa no ano de 2029 e acompanha Logan, anteriormente conhecido sob a alcunha de Wolverine. Há uma elipse na linha do tempo levando em consideração o último filme deixando obscuros vários anos da vida da personagem. Portanto, é necessário reapresenta-la contextualizando esses anos. Essa é a primeira ousada e difícil tarefa do roteiro do também diretor Mangold ao lado de Scott Frank. O texto em momento algum apela para exposições óbvias a fim de situar o local psicológico das personagens. Ao contrário. Ele faz como todo bom roteiro deve fazer: ilustra os sentimentos interiores da personagem, no caso Logan, em imagem, sem precisar verbalmente contextualizar o que acontece.

No entanto, não seria possível o fazer sem o auxílio de quem atua. Hugh Jackman entende isso e entrega sua melhor performance na pele do super-herói. Sua forma de andar e constante expressão de dor dão vida a morte tão almejada por ele. O atual Logan é composto pelos resquícios do homem que fora nos tempos áureos dos X-Men. Ele trabalha como motorista particular, profissão simbólica para o roteiro. Simbólica porque é a função do motorista levar seus passageiros aos seus destinos finais. Entretanto, é irônico pois o próprio Logan não é capaz de chegar onde almeja. Ele vive estagnado em dor e sofrimento carregando consigo uma única bala de adamantium, capaz de tirar a sua própria vida e o levar ao seu destino. Porém, carrega consigo também o sentimento de culpa vestido de responsabilidade ligada a Charles Xavier (Patrick Stewart), o que o impede de seguir em frente.

Charles é outra personagem muito bem construída na obra de Mangold. O ex mentor dos X-Men funciona na narrativa como um espelho emocional de Logan. Ambos estão envelhecendo, entretanto lidam com esse fato de formas opostas. Charles possui uma visão mais otimista de seu entorno. Este vive, a princípio, confinado em uma grande estrutura metálica sem contato com o mundo externo. Essa “prisão” em que vive é uma metáfora clara ao fato d’este viver quase que integralmente dopado, privado de seus pensamentos, em outras palavras, preso dentro de sua própria mente. Isso devido a uma doença degenerativa em seu cérebro, capaz de afetar seus poderes causando injúria às pessoas ao seu redor. Entretanto, em seus poucos momentos de lucidez no primeiro ato, este não demonstra a amargura de Logan, ao contrário, possui certa positividade direcionada a um novo mutante que, segundo ele, surgirá.

Nesse contexto é apresentada Laura (Dafne Keen), uma nova mutante com poderes semelhantes aos de Wolverine. Com esta personagem, a ideia do espelho permanece, porém, intensificada. Ela é outro reflexo de Logan, fazendo oposição a personagem de Jackman. Laura é uma jovem garota fruto de experimentos médicos que a deram adamantium no lugar dos ossos. Ela, assim como Wolverine, possui também poder de regeneração. O roteiro é responsável aqui por um muito bem executado jogo de reversibilidade, contrastando e assemelhando a garota a Logan a todo momento, como um movimento de vai e vem.

Ainda sobre a garota, é de fundamental importância a interpretação de Keen para o funcionamento da personagem na trama. Laura, quando apresentada, não se expressa pela oralidade, mas apenas pelos olhos animalescos da competente atriz. Ela também se comporta como animal, comendo com as mãos e agindo de forma descivilizada, o que é também um ponto de possível comparação a Wolverine.

Outro grande mérito de “Logan” é o trabalho realizado com os gêneros da obra. Há uma completa desconstrução da visão estabelecida dos filmes de super-heróis, visão essa – inclusive – ironizada por Logan quando deparado com uma revista de quadrinhos resultando em um inteligentíssimo movimento de metalinguagem trabalhando totalmente em função da narrativa. Engana-se quem pensa que “Logan” é, de fato, um filme de super-heróis. Assim como foi a trilogia de Nolan, a obra de Mangold é primeiramente de caráter humano, flertando – em alguns momentos – com o estudo de personagem. Um fator que colabora fortemente para isso é o fato de não haver um vilão maquiavélico, muito pelo contrário, os vilões em “Logan” possuem certa razão em suas ações, podendo, em algumas leituras, serem considerados os verdadeiros benfeitores do longa.

Mas não acaba aí o trabalho de gênero. Há ainda elementos de road movie muito bem trabalhados durante o segundo ato, usando a viagem física como uma figura de linguagem para falar se referir ao descobrimento das personagens, uma viagem interior de descobrimento. É nessa etapa que, naturalmente, é feita a grande revelação acerca de Laura. Ainda, há elementos do western americano, drama, e, claro, doses de ação, porém poucas, bem dosadas durante o longa. Decisão acertadíssima, uma vez que cenas de tal natureza tirariam o foco emocional do longa. Mas nada disso tira o mérito da magistral – e necessária – cena de ação em câmera lenta no quarto do hotel, mostrando de maneira eficientemente gráfica a violência e brutalidade de Wolverine, nunca antes mostradas na grande tela.

Memorável, “Logan” é um filme sutil, inovador e repleto de símbolos. É perceptível o cuidado com roteiro e a sincronia do diretor no momento de realizar as cenas. Ao contrário da maioria dos filmes de super-heróis, Mangold entrega uma obra sensível, humana, honesta e extremamente brutal, fechando com chave de ouro a já lendária participação de Hugh Jackman como um dos heróis mais queridos dos quadrinhos de ação.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: