DESCONSTRUINDO C.K.

Em dias de total fragmentação no processo de criação de arte audiovisual, quem é polivalente e decide assumir a produção sozinho merece – no mínimo – ser visto mais de perto. Esse é o caso de Louis C.K., comediante de palco que fez sua transição para a TV da melhor forma possível.

É importante saber que CK é um artista no sentido original da palavra, ao contrário daqueles globais que carregam consigo o título injustamente adquirido em algum programa matinal. Depois de Lucky Louie, série de 2006, o comediante criou sua primeira grande obra: “Louie”.

A série, hoje em hiatus na quinta temporada, teve seu piloto lançado em 2010 pelo canal FX – no Brasil e nos EUA. E mesmo no primeiro episódio já pôde ser visto algo diferente das demais exibidas na época. Para começar, o protagonista é uma versão fictícia do próprio Louis C.K., sendo algumas das histórias ali contadas vividas ou baseadas em alguma vivência do comediante. Portanto, há um lençol de verossimilhança que é, a todo o tempo, rasgado e costurado por C.K.

Há também um forte contraste à ideia de realidade concebida por C.K. em seu show. Tratam-se de pitadas de humor nonsense em algumas cenas, tornando-as anticlimáticas por quebrar qualquer expectativa que o espectador possa ter. Há um exemplo dessa construção no piloto; na ocasião, a personagem de C.K.estava no final de um péssimo primeiro encontro, sentado em um banco com uma moça. Ela, farta da situação, levanta-se e corre em direção a um helicóptero (nunca mostrado em cena) que decola assim que ela sobe. Essa construção anticlimática funciona como uma hipérbole visual do poder de Louie em afastar potenciais relacionamentos por sua falta de jeito com as mulheres. A complexidade narrativa logo no piloto deixa evidente que, ao contrário de sua personagem com as mulheres, sobra jeito com a linguagem cinematográfica a C.K.

Outra singularidade de “Louie” fica evidente quando comparada a outras séries do mesmo formato de 30 minutos, que tem como maioria esmagadora sitcons ou comédias em geral. “Louie” é uma comédia, não me entenda mal, mas é muito mais que ‘apenas‘ uma comédia. Por isso é uma tarefa difícil classificá-la dentro de um gênero existente, devido a sua construção complexa composta por elementos pertencentes a diferentes gêneros e formatos. É interessante pensar que, mesmo quebrando diversas convenções de formato e gênero C.K. tem um contrato com uma grande emissora de TV. Isso mostra que o criador, além de possuir versatilidade em compor sua obra, possui vasto conhecimento da mídia para qual produz, pois somente alguém com tal conhecimento teria as ferramentas necessárias para quebrar – mas não totalmente [explico posteriormente] – com uma forma estabelecida e continuar relevante – além de contratado – por mais de seis anos com a mesma emissora.

E tem mais, a confiança da FX em C.K. é tamanha que o comediante tem total controle sob sua criação. E tendo isso concedido a ele, C.K.não brinca em serviço, puxando para si as funções de: diretor, roteirista, ator, produtor executivo e editor. EDITOR. É clara na minha cabeça a imagem de C.K., à noite, com um notebook a sua frente e uma bacia de sorvete ao lado, montando a série sozinho na penumbra de seu quarto.

A respeito das funções desempenhadas por “Louie”, há muito o que dizer. O talento do comediante para direção é inato. Há provas disso que voltam a 1998, ano em que ele dirigiu seu primeiro longa-metragem, intitulado “Tomorrow Night”. O longa, hoje, pode ser visto como um ensaio do profissional que C.K. viria a ser, mais maduro no que diz respeito a linguagem cinematográfica e ideias para roteiro.

É notável a qualidade com que C.K. usa a câmera para narrar suas histórias. Como diretor, ele é capaz de emular em imagem as emoções de sua personagem ou narrar situações complexas através de movimentos de câmera. Isso é claro na cena abaixo, retirada do terceiro episódio da quarta temporada – “So Did the Fat Lady“.

A opção por fazer tudo em um take acrescenta um sentido de unidade, além de não dar respiro a cena. Isso representa o desconforto de Louie à medida que o monólogo de Sarah Baker vai chegando ao clímax. Se houvesse aqui cortes paralelos enquadrando uma personagem por vez, a unidade deixaria de existir e todo o peso emocional se perderia. Outra boa escolha de C.K. foi ter feito a câmera navegar entre os dois, laçando-os e prendendo-os ali. Somente no final da cena que a câmera se fixa e observa as duas personagens caminharem para frente, sugerindo a ideia de alívio explicitada pelo desfecho. Além disso, C.K. insere em sua cena uma pontual quebra da quarta parede, quando sua personagem aponta para a tela e conversa diretamente com o público, o que o aproxima e o faz sentir ainda mais perto do que ali acontece.

Outro diferencial é como C.K.opta por contar suas histórias. Em grande parte da primeira temporada, o roteirista segue uma fórmula de duas pequenas histórias por episódio, na maioria das vezes sem haver qualquer relação entre elas. Entretanto, já na segunda temporada essa lógica narrativa é quebrada com episódios mais coesos, possuindo apenas uma narrativa. Um bom –na verdade ótimo –exemplo disso é o décimo primeiro episódio da segunda temporada – “Ducking” episódio em que Louis vai para o Iraque fazer apresentações para as tropas que ali residem. Para exibir a história em questão foi necessário um episódio duplo com 40 minutos de duração.

Poderia me alongar mais, pois não falta assunto para se discutir sobre a série, tamanha riqueza da criação. Aspectos como: o elenco dinâmico, as muitas aparições especiais, e as diversas vezes que a série flerta com a realidade são alguns dos outros pormenores que fazem de “Louie” uma das melhores séries da atualidade, porém, não é apenas essa obra que fez de C.K. um gênio. Sim, gênio.

Mas a carreira cinematográfica (linguagem) de C.K. não se resume meramente a uma obra. O comediante também possui outros trabalhos que justificam o seu cunho de gênio. No dia 27 de novembro será publicada a segunda parte, comentando “Horace and Pete” e pontuando alguns aspectos em sua carreira nos palcos.

Horace and Pete
O mais recente trabalho de CK é também o mais ousado do diretor/roteirista. E foi ousado até mesmo antes do lançamento: CK decidiu por fazer toda a pré-produção em segredo, apenas ele e os envolvidos nas gravações sabiam sobre a existência da série. Lançamento esse igualmente ousado – um dia como qualquer outro, usuários do site de CK receberam um e-mail como qualquer outro dizendo que uma nova série estava disponível para download pelo singelo valor de cinco dólares.

Não houve nenhuma divulgação prévia da série, assim como não havia nenhuma informação adicional na página para download. Quem se propusesse a baixá-la, o faria confiando na qualidade de outros trabalhos do criador. Entretanto, a série não teve grande alcance de público, mas para explicar o porquê disso, é antes necessário saber como funciona o mecanismo de venda criado por CK em seu site.

Antes de qualquer outra coisa, é de suma importância entender que Louis CK é um homem comum, divorciado e que divide com a ex-esposa a custódia de suas duas filhas. CK não é, por exemplo, um humorista do estilo de Dane Cook ou Chris Rock, cujos trabalhos possuem grande alcance devido ao apelo comercial que circunda esses nomes. Outro fator é o exaustivo trabalho de marketing que esses comediantes fazem para vender seus produtos, estratégia que CK não é tão adepto. Inclusive, a chamada de seu penúltimo especial faz chacota desse estilo de anunciar.

“It’s not a big deal” – “não é grande coisa”. Essa frase dita por CK ao final do comercial representa muito bem toda a personalidade simples do humorista. Em personalidade, entenda também a maneira com que ele “toca seu negócio”. Sabendo isso, é de se imaginar que, provavelmente, o humorista lidaria com seu produto e da relação com o consumidor da maneira menos complicada possível. O que é justamente o caso. Depois da reforma de seu website, CK passou ele mesmo a comercializar seu produto diretamente com o público, cortando por completo o intermediário, os contratados para fazer a divulgação e venda. Como consequência, o humorista diminuiu drasticamente o preço de seus programas, vendendo por cinco dólares todos os especiais até então lançados.

Além do baixo preço, quase simbólico, outro fator que chamou atenção da mídia foi a forma com que CK defendeu seu produto da pirataria. Ao invés de investir em softwares especializados e processos complexos, o comediante simplesmente escreveu um pequeno comentário pedindo gentilmente para que os usuários não roubassem seus produtos e os compartilhassem via torrent. A parte mais estranha é que deu certo.

E “Horace and Pete” é tão inovadora quanto a forma com que CK a vende. A série é filmada no estilo multi-câmeras, evocando um estilo comum das sitcoms americanas. Além disso, ela é também filmada em um teatro, entretanto, não há ninguém lá, todos os lugares estão vazios. Novamente CK quebra com uma convenção de estilo, uma vez que sua obra não é uma comédia enlatada em um formato de TV de 30 minutos (com comerciais). A duração dos episódios de “Horace and Pete” é de, em média, uma hora cada. E o clima predominante da série é o drama. Porém, assim como “Louie”, as linhas que separam um gênero do outro são borradas.

Não é surpresa que haja piadas na nova série de CK, porém o intuito ali não é fazer rir, mas sim contar uma história. Há momentos engraçados, diálogos que causam o riso, mas esse é apenas uma consequência do autor, não o objetivo final pensado por ele. Esse é o grande diferencial de “Horace and Pete” para os outros trabalhos de CK. Pela primeira vez, ele abdica um pouco da comédia para escrever um texto mais sério, discutindo, principalmente, relacionamentos familiares.

Louis CK é, talvez, o comediante mais versátil da atualidade. E em sua versatilidade, tudo é feito de maneira primorosa. Seu stand-up, claramente inspirado no estilo e tom ácido do lendário George Carlin, possui também o pessimismo e falta de jeito intencional da personagem de CK criado para os palcos, formando um estilo próprio e eficiente. Seus domínios da linguagem cinematográfica o permitem transitar facilmente de um gênero a outro em suas produções mais elaboradas, e seu talento em direção, roteiro e montagem o fazem um artista completo. Mas não é só isso, CK é também o gênio da comédia de nossa geração.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: