BABY DRIVER (2017)

O gênero narrativo é um conceito tão antigo quanto os gregos, usado para categorizar obras apontando-as para determinado público. Essa forma de categorização nada mais é do que uma convenção construída ao longo dos anos, sofrendo modificações por obras marcantes e/ou autores de relevância. Baby Driver (Em Ritmo de Fuga, 2017) é um perfeito exemplo de obra marcante cujo autor, Edgar Wright, subverte o gênero narrativo criando algo que, mesmo seguindo conceitos já bem estabelecidos, soa inovador e único.

É contada a história de Baby (Elgort) um garoto que, depois de se envolver criminalmente com Doc (Spacey), é obrigado a trabalhar como piloto de fuga para pagar sua dívida com esse perigoso homem. Em seus trabalhos ilícitos, Baby conhece diferentes personalidades com quem precisará interagir, em destaque as personagens Buddy (Hamm), Bats (Foxx) e Darling (González). Em paralelo, Baby conhecerá Debora (James), uma garçonete que despertará nele sentimentos que o farão querer abandonar a vida do crime e recomeçar.

bbydriverContudo, existe ainda um detalhe importantíssimo tanto para a trama quanto para o estilo do filme. Quando criança, Baby sofreu um acidente automobilístico que danificou sua audição. A personagem, desde então, vive com um zumbido no ouvido. Para amenizar isso, ele constantemente escuta a música, com ou sem fones de ouvido. Esse detalhe dita todas as regras criadas por Wright em seu universo de Baby Driver.

A montagem – do primeiro ao último frame – acompanha o ritmo das músicas da trilha, presente durante quase toda a projeção. Há aqui um exercício interessante por parte de Wright que tira as músicas da diegése as colocando do lado de fora, fazendo-as funcionar também como trilha. Portanto, de certa forma, há nesse aspecto a quebra da quarta parede. A função narrativa dessas quebras é a produção de humor. Baby Driver é um filme muito bem-humorado, mas não tanto em seu texto quanto em sua composição de estilo. Uma cena que deixa claro essa ideia da linguagem cinematográfica sendo usada como dispositivo humorístico é a da segunda fuga, precisamente no momento em que os assaltantes precisam improvisar e trocar de carro. Essa troca acontece quando a curva dramática da cena está quase chegando em seu desfecho, assim como a da música. No entanto, quando os assaltantes vão em busca do novo carro o desfecho é prorrogado, mas a música continua até quase chegar ao fim. A piada está no ponto em que Baby retrocede a música para resincronizar com a curva dramática da cena para que ambas atinjam o desfecho ao mesmo tempo. A música aqui funciona tanto na dimensão diegética como na não-diegética (trilha) sendo uma espécie de punchline da cena. Nada é dito, mas o humor está ali.

Esse estilo de filmagem é muito comum na filmografia de Wright. O diretor já havia feito cenas as quais a sincronia entre a trilha e a ação em cena eram dispositivos para produção de humor, como em Shaun of the Dead (Todo Mundo Quase Morto, 2004) na cena em que Ed, Liz e Shaun batem em um zumbi com tacos de bilhar ao ritmo de Don’t Stop Me Now do Queen. Há também exemplos em Hot Fuzz (Chumbo Grosso, 2007) e em The World’s End (Heróis de Ressaca, 2013) em que os protagonistas, alinhados em frente ao balcão do bar, compõe a trilha com sons dos copos batendo na madeira, dos goles da cerveja e outros sons relacionados àquele momento. Nesses trabalhos anteriores esses momentos eram pontuais e não perduravam durante toda a projeção como em Baby Driver. Em seu último trabalho, portanto, Wright potencializa esse recurso criando um gênero híbrido de ação e comédia ritmadas por um terceiro gênero: o musical. É aqui que mora a genialidade do longa.

No entanto, a construção de cena não é a única responsável por momentos de humor, o texto também possui seus méritos. Os diálogos remetem – em vários momentos – ao estilo de escrita de Quentin Tarantino, a quem Wright toma como inspiração abertamente. Mas é importante ressaltar que o texto de Baby Driver não soa como reprodução pois, mesmo inspirado em outro autor, Wright consegue imprimir sua própria voz no roteiro através do conteúdo das piadas escritas e principalmente da forma como ele conduz os atores em cena. As personagens falam como personagens de Edgar Wright e não como se fossem escritas por algum outro roteirista.

Outro mérito do roteiro de Wright é ser aberto para diferentes leituras. Por exemplo, é possível assistir a Baby Driver sob a ótica psicanalítica. A relação de Baby com seus pais se estende à Debora, seu par romântico, sugerindo um complexo de édipo. Essa leitura é reforçada pela relação abusiva do pai com a mãe de Baby. Ambos estão sempre discutindo, inclusive no momento do acidente de carro que os tira a vida deixando marcas – metafóricas e reais em forma de cicatrizes – em seu filho. É possível afirmar que Baby culpa o pai pela morte da mãe e não sente falta dele, mas sim dela. Debora surge como a figura perdida da mãe de Baby, trabalhando no mesmo lugar e até mesmo possuindo algumas semelhanças físicas. Outro ponto que corrobora essa leitura é o fato do objeto sentimental que Baby guarda da mãe é uma fita cassete que representa a voz da falecida cantora. O som da voz de Debora é o que faz Baby se apaixonar por ela no momento em que a ouve cantar no restaurante que sua mãe cantava. Há, então, diversas formas de traçar paralelos entre Debora e a mãe de Baby. Isso, aliado a frieza em relação à morte do pai, reforça a teoria.

Entretanto, há furos nesse mesmo roteiro. Um deles é a motivação de Debora no terceiro ato. Não há uma construção da personagem que justifique as ações dela naquele momento. A impressão que fica é que faltou uma cena que evidenciasse o porquê daquela atitude tão impulsiva. Mesmo com a necessária suspensão da descrença fica difícil aceitar imediatamente esse acontecimento. Porém, não é nada que estrague a experiência grandiosa de Baby Driver.

Existe ainda outro recurso muito bem explorado por Wright no filme: as metáforas visuais. Em alguns momentos da projeção, situações não oralizadas dizem muito mais do que os diálogos. Um exemplo é quando Doc chama o elevador do prédio de Baby dizendo que essa é a hora de subir na vida. Doc sai de cena e Baby, então, ignorando o elevador, sobe pelas escadas. Essa cena diz muito sobre o protagonista. Fica implícito que ele não vai seguir aquele caminho, mas sim o seu próprio. Outra possibilidade que essa cena – traz aliada a personagem de Spacey – é novamente a figura do pai.

Baby só trabalha para Doc com o objetivo de pagar a sua dívida. Entretanto, Doc – em todos os trabalhos – dá a Baby uma pequena parcela do montante de dinheiro mostrando certa preocupação com ele. A cena final de Doc também deixa muito claro tudo isso, fazendo dele uma espécie de figura paterna para Baby.

Outra personagem que merece destaque devido à sua profundidade é Buddy, interpretado por Jon Hamm. A primeira aparição da personagem é como um dos capangas da primeira equipe de Doc. Entretanto, o caminho percorrido por ele até o final da trama é impressionante. Logo no primeiro assalto, há um plano subjetivo de Baby, de dentro do carro, observando Buddy enquanto ele assalta o banco. Esse plano é muito importante pois ele estreita um pouco a relação entre essas duas personagens, que será ainda mais estreitada posteriormente. Esse plano também é importante pois há um reflexo dele no segundo ato: um também plano subjetivo de Baby só que dessa vez observando a Bats assaltar uma loja de conveniências. Essa ideia é reflexiva pois as atitudes de Buddy e Bats são opostas. Buddy assalta o banco atirando para cima, sem ferir os inocentes, mostrando ali seu código de conduta. Já Bats não tem essa preocupação com inocentes, como evidenciado pela cena. Essa oposição cria um afastamento de Baby para com a personagem de Foxx e uma aproximação com a de Hamm.

Essa aproximação com a personagem de Hamm é importantíssima para o terceiro ato da trama. Há no roteiro uma reviravolta da personagem que vira a história para um caminho inesperado, que consegue, inclusive, agregar aspectos do subgênero slasher para o filme, mostrando mais da versatilidade do diretor.

Baby Driver é um heist movie com esteroides. É autêntico ao mesmo tempo que homenageia autores, obras e gêneros reinventando convenções estabelecidas. Edgar Wright se mostra – mais uma vez – ser um diretor de AudioVisual com A maiúsculo. E o V também.

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