IT (2017)

PALHAÇADA NO SUBÚRBIO 

Quem não tinha medo de palhaços antes, com certeza passou a ter quando foi apresentado a Pennywise. O icônico personagem de Stephen King nunca falhou em lembrar o público do quão assustadores e perturbadores os palhaços podem ser. Aqueles que tiverem esse primeiro contato na mais recente adaptação de “It”, do diretor Andy Muschietti, conhecerão o verdadeiro significado de coulrofobia, graças à interpretação sádica e entusiasmada de Bill Skarsgård.

A primeira aparição do horripilante palhaço é no subúrbio de Derry, em um dia em que as ruas estão desertas devido ao tempo chuvoso. A criatura surge dentro de um bueiro, tentando atrair Georgie (Jackson Robert Scott), seu próximo alvo, utilizando o barquinho de papel que o menino havia perdido na enxurrada. A violência animalesca com que Pennywise ataca sua nova vítima – envolve até um desmembramento – deixa claro que não estamos diante de um simples engraçadinho tentando assustar crianças. O buraco é mais embaixo.

Um ano se passa, e descobrimos que não se trata de um evento isolado. Devido à ausência de testemunhas, Georgie se tornara mais um dos inúmeros casos não solucionados de desaparecimento em Derry. Nesse cenário de medo e insegurança, conhecemos os Losers, um grupo de amigos formado por nada menos que 7 crianças – que dividem o protagonismo de forma surpreendentemente equilibrada.

A ausência quase total dos adultos chama atenção no filme. A cena em que Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor) é violentamente atacado por um grupo de valentões ao sair da escola ilustra esse aspecto. O garoto não esconde o sentimento de decepção quando uma família passa de carro e presencia a cena, mas se recusa a prestar qualquer tipo de socorro. Este momento, aliás, é significativo por ressaltar a presença marcante e intensa do bullying nessa história, que vai muito além dos apelidos maldosos e atinge níveis elevadíssimos, a ponto de fazer uma cena que mostra crianças trocando pedradas parecer banal.

A capacidade de trabalhar uma quantidade considerável de personagens em um espaço de tempo limitado é um diferencial no roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman. A relação de amizade entre os garotos é convincente, bem como suas características individuais. Tomemos como exemplo Eddie Kaspbrak, o hipocondríaco, interpretado de forma encantadora por Jack Dylan Grazer. O garoto, que começa o filme envolto em um conflito entre o gosto por brincadeiras insalubres e o medo constante de contrair alguma doença, é conduzido por um processo orgânico e bem construído de amadurecimento, culminando em um importante progresso na superação de suas limitações.

Conhecemos bem os traços de personalidade das crianças, mas é nos medos de cada uma delas que se encontra a essência do filme. Além de Pennywise, parece haver uma entidade maligna onipresente, capaz de se adaptar para oferecer tormentos sob medida para cada personagem. Antes de apreciar o filme, é importante estar ciente de que o mistério se sustenta até certo ponto apenas. Com o tempo, o que começa com insinuações, sussurros, supostas alucinações e portas se fechando sozinhas, se transforma num verdadeiro show de horrores, demandando uma construção imagética eficiente.

O visual é justamente um dos grandes méritos dessa versão. As perturbações sobrenaturais e os cenários assombrados são apresentados através de planos holandeses e contra-plungees, que marcam o estilo do diretor. Há também um cuidado especial com a iluminação, que contribui fortemente para a ambientação. Na casa de Beverly Marsh (Sophia Lillis), por exemplo, a luminosidade é precária, sugerindo um ambiente opressor extremamente adequado à realidade da personagem, que sofre abusos graves do pai.

O clima nostálgico, a temática sobrenatural e a predominância de crianças no elenco tem gerado uma onda de comparações entre o filme e a série Stranger Things. As semelhanças existem, obviamente, mas no sucesso da netflix parece haver uma preocupação maior em preservar a inocência da infância. “It”, por sua vez, apresenta um grupo de crianças que, além de fazerem piadas, comentários e insinuações com forte conotação sexual, demonstram uma preferência por opções perigosas de lazer, como saltar de penhascos.

Nostálgico, denso e horripilante. A primeira parte da nova adaptação cinematográfica de “It” cumpre seu papel de conquistar o público e deixá-lo sedento pelo próximo capítulo. Além de cativar e divertir o espectador, convida-o para uma reflexão sobre seus medos e a necessidade de superá-los. Graças à performance do competentíssimo Bill Skarsgård, o palhaço Pennywise deve marcar presença novamente nos pesadelos de toda uma geração.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s