BLADE RUNNER 2049 (2017)

“O que nos torna humanos?” Este parece ser o questionamento principal da história criada por Philip K. Dick em seu romance “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de 1968, que foi maravilhosamente adaptado para o cinema em “Blade Runner” (1982), dirigido por Ridley Scott. Nas primeiras cenas da recente continuação “Blade Runner 2049” fica evidente qual é a intenção do novo diretor Denis Villenueve: manter a essência da obra original sem deixar de imprimir sua própria marca. O novo filme nos tras um novo enredo sem deixar a essência do primeiro de lado mantendo a filosofia presente desde o livro de Dick.

Não há muito que dizer sobre a premissa do longa. Tudo que você precisa saber é que no ano de 2049 um policial conhecido como “K” (Ryan Gosling) vai à caçada de um replicante (Dave Bautista), um humano criado artificialmente pela corporação de Niander Wallace (Jared Leto). Após esse acontecimento, K começa a desvendar segredos e mistérios existentes há trinta anos. O mais interessante na obra é descobrir esse universo, entender como funciona essa sociedade à medida que seu protagonista se aprofunda nela. O roteiro, escrito por Hampton Fancher, que também escreveu o primeiro filme, juntamente com Michael Green, um dos roteiristas responsáveis por “Logan” (2017), é um convite para desbravar a trama. Exceto por um diálogo mais expositivo no primeiro ato, as informações nos são dadas de pouco a pouco incentivando o espectador a montar a lógica deste futuro distópico tal qual um quebra-cabeça. Além disso, nos deparamos com questionamentos sobre a humanidade e a sociedade capitalista, e esbarramos na dualidade entre o natural e o artificial. É perceptível que o filme não é só uma sequência preocupada em fazer dinheiro com um título famoso, mas sim uma forma muito competente de explorar um universo ficcional muito rico.

A cinematografia é de encher os olhos. As cores escuras e alaranjadas, bem como o aspecto “sujo” dos cenários, marcas registradas de Scott, contrastam com os tons mais claros e o estilo mais “limpo” de Villenueve. O resultado disso é que podemos apreciar um ótimo trabalho da edição de Joe Walker e da fotografia de Roger Deakins (ambos também responsáveis por “Sicario” do mesmo diretor). Não só há uma homenagem ao primeiro filme como também o estilo do novo cineasta não fica ofuscado. Além do mais, essa oposição entre luz e escuridão tem sua função narrativa e os detalhes da composição das cenas são cuidadosamente bem trabalhados. Arquitetura, maquinário, figurino, tudo consegue remeter à obra de 1982, sem deixar de parecer novo e original. Não obstante, o diretor ainda se aproveita dos avanços tecnológicos para criar belíssimos planos abertos. Aliás, o uso de efeitos especiais aqui é muito consciente, além de não haver um exagero no uso de CGI, a tecnologia só traz benefícios para estética cyberpunk misturada com o clima noir da obra.

Vale destacar também a trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que claramente faz referência às composições de Vangelis, presentes na obra de Scott. É possível perceber certa semelhança com o trabalho feito em “Stanger Things”, série da NetFlix, composta por Kyle Dixon e Michael Stein (que claramente homenageiam as obras de Zimmer). A atmosfera de ficção científica dos anos 80 está presente nas melodias no novo filme, mas os novos compositores são competentes em não deixar que as músicas fiquem datadas ou, por assim dizer, “bregas”. Essa atualização do estilo marcante do primeiro filme é extremamente competente, e em mais um aspecto tem sucesso em manter a essência da obra de 1982, e ainda manter-se criativo e inovador.

O elenco, além de bem selecionado, também é muito bem dirigido. Em todos os personagens é possível observar uma naturalidade misturada com certa excentricidade, independente de o personagem ser um humano ou não. Um dos pontos chave do filme é aproximação intencional entre o natural e o artificial, é possível enxergar humanidade nos replicantes, por exemplo, da mesma forma que os humanos também agem de forma “mecânica” por vezes. Jared Leto consegue trazer muito bem um misto de erudição e megalomania em seu personagem, ao mesmo tempo em que Ryan Gosling nos entrega uma figura mais simples e obediente, com igual competência. Harrison Ford pode não ser um dos melhores atores de Hollywood, mas com certeza sabe reprisar bem seus papeis de outrora. Assim como aconteceu com Han Solo em “Star Wars: Despertar da Força” (2015), Ford consegue manter as características marcantes de Deckard e ainda acrescentar o peso que a idade lhe trouxe. As mulheres tem um bom destaque na trama. Ana de Armas e Mackenzie Davis nos mostram uma sensualidade “estranha” que combina perfeitamente com a suas respectivas personagens. Enquanto isso Sylvia Hoeks e Robin Wright conseguem imprimir uma presença muito forte e marcante.

A única ressalva que pode ser feita ao longa é o seu comprimento. Há aqui conteúdo o suficiente para preencher as duas horas e 43 minutos, o que faz com que a obra não seja entediante. No entanto, assim como ocorre no filme de 1982, algumas cenas são muito bonitas esteticamente, mas se estendem mais do que o necessário para o desenvolvimento da narrativa, o que deixa o ritmo bastante lento. Nada disso chega a atrapalhar a imersão ou o impacto do enredo, contudo uma audiência que prefere ou é mais acostumada com um ritmo mais rápido pode se incomodar com este fato. A grande quantidade de informação presente na obra a torna, de certa forma, exaustiva ainda que muito interessante.

Competente, cuidadoso e inteligente são as melhores palavras para definir “Blade Runner 2049”. Uma obra excelente, que beira a perfeição em seus aspectos técnicos e não deixa nada a desejar em relação ao seu antecessor. Denis Villanueve mais uma vez mostra sua competência como cineasta, despontando como um dos melhores de sua geração. O diretor não só mantêm sua estética cuidadosamente impecável, como também coloca a ficção científica para exercer o sua função principal: usar a narrativa para nos fazer questionar e refletir sobre os rumos que a humanidade está tomando.

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