LE REDOUTABLE (2017)

“Porque assim segue a vida a bordo do Formidável”

Ao falar em nouvelle vague, é impossível não pensar automaticamente em Jean-Luc Godard. Um dos principais nomes do movimento que revolucionou o cinema – não só na França ou na Europa -, sobretudo na década de 1960, Godard sempre foi uma figura excêntrica e envolvida em debates e polêmicas no meio cinematográfico e político.

“O Formidável”, dirigido por Michel Hazanavicius (“O Artista”), trás um Godard (Louis Garrel) envolvido em um dos momentos de ápice revolucionário: durante os protestos de maio de 1968, em Paris, cujo espírito marcou a produção dele e de outros autores da nouvelle vague.

No filme, o relacionamento entre Godard e a jovem atriz Anne Wiazemsky (Stacy Martin), estrela do filme mais recente dele, “A Chinesa”. Marcados pela esperança de construção de uma nova sociedade, típica do pensamento jovem intelectual e estudantil na França da época, os dois veem um relacionamento até então tranquilo e apaixonado ser colocado à prova. Ela, encantada pela genialidade dele, se vê cerceada pelos ciúmes dele em relação às suas tentativas de realização pessoal e independência (em um comportamento machista e retrógrado demais para alguém que se dizia tão revolucionário); e ele, apaixonado pela admiração que ela sentia por ele, se vê num momento de questionar o verdadeiro valor de suas “obras primas” até ali e de reavaliar a possibilidade do cinema – um instrumento artístico e cultural de origens burguesas – de se mostrar como uma arma revolucionária.

A narrativa é construída de forma linear, e é narrada por Anne e por Jean-Luc. Na decupagem, a opção foi por uma maioria de planos fechados e médios, que reforçam a centralidade da narrativa na figura do casal, mesmo com todo o contexto muito maior que os dois servindo de plano de fundo. A história é contada de maneira leve, com um humor agradável e que inclusive remete a algumas obras de Godard. Aliás, ao longo do filme, os momentos de quebra da quarta parede, utilização de cenas em preto e branco ou em negativo, em que o filme se percebe como tal e os atores em cena brincam com o espectador, são uma clara alusão ao estilo de Godard e ao seu pioneirismo na aplicação desse tipo de artifício.

“O Formidável” teve o seu roteiro adaptado da biografia escrita pela própria Anne Wiazemsky (que, aliás, morreu há poucos dias, em Paris), e é um filme daqueles agradáveis de se ver, que deixam a gente com um sorrisinho no rosto ao sair do cinema. Garrel e Martin estão ótimos e muito bem caracterizados nos papéis principais, e toda a fotografia, a trilha sonora e a montagem se encaixam de um jeito muito bem acabado, que não deixa dúvidas sobre o merecimento da indicação à Palma de Ouro em Cannes.

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