LADY BIRD (2017)

Umas das críticas mais recorrentes em relação a representação de adolescentes no cinema, é a falta de fidelidade com a vida real. Esse definitivamente não é o caso de “Lady Bird”. Aqui, Greta Gerwig, pela primeira vez dirigindo e roteirizando de forma independente, consegue captar todas as nuances da adolescência fazendo com que seja impossível não se identificar em vários aspectos da trama de seus personagens.

A história se passa em Sacramento, Califórnia, no ano de 2002. Lá conhecemos Christine McPherson (Saoirse Ronan), uma estudante do último ano do Ensino Médio que deseja cursar a faculdade em Nova York. No entanto esse desejo entra em discordância com o de sua mãe, Marion (Laurie Metcalf), que acredita que sua filha deva estudar em uma universidade local. Em meio a esse conflito familiar, Lady Bird, apelido escolhido por Christine para se mesma, ainda tem que lidar com as mudanças e descobertas da adolescência e os problemas financeiros de seus pais.

A história transita entre momentos leves e divertidos, e outros intensos e emocionantes. Nesse aspecto o trabalho da diretora é impecável. O filme é emocionante e engraçado ao mesmo tempo sem precisar de fazer piadas ou ser extremamente dramático. A naturalidade com Gerwig alterna entre esses momentos mexe com o sentimento do espectador tornando impossível não se conectar com os personagens e se interessar por essa história. Uma verdadeira aula de como prender a atenção do público.

Os aspectos técnicos também não deixam a desejar. Os enquadramentos mais fechados ,usados para as cenas de maior intimidade, e mais abertos, para os momentos de conflito, junto com as metáforas visuais, muito presentes nas cores e nas luzes, funcionam com um meio para deixar a narrativa ainda mais completa.

Além disso o filme também presta homenagem à cidade de Sacramento com belíssimas imagens da cidade que ajudam a levantar uma das principais reflexões da trama: o pertencimento e o que chamamos de lar. Outro ponto de destaque é o ritmo da história, tanto na direção quanto na edição. Os cortes são poucos e precisos; o enredo não se alonga demais e nem se apressa demais. Tudo acontece no tempo certo impedindo que o longa caia em qualquer tipo de tédio ou marasmo.

É importante também destacar o elenco, muito bem escolhido, bem dirigido e competente. Saoirse Ronan, indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz principal, interpreta uma garota impetuosa, sonhadora e de personalidade forte conseguindo entregar cada nuance dos pensamentos confusos e ainda em processo de amadurecimento de uma jovem de dezessete anos.

Metcalf, conhecida do público por interpretar a mãe de Sheldon Cooper na série de TV “The Big Bang Theory” e indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, nos trás uma mãe que é, ao mesmo tempo, uma contraparte e um espelho da filha. A química das duas atrizes em tela é o fio condutor da trama. Abas são determinadas e fortes, porém Lady Bird temum perfil mais sonhador, enquanto sua mãe é mais realista.

Ainda temos Beanie Feldstein, interpretando a melhor amiga de Bird, Julie, que traz um misto de positividade e inocência que se complementa bem com as características da personagem principal. Tracy Letts interpreta de forma cativante um pai carinhoso e compreensivo, e a família se fecha com Jordan Rodrigues, que faz o irmão Miguel e sua namorada Shelly, interpretada por Marielle Scott, ambos com pouco tempo de tela, porém competentes quando aparecem.

John Karna é o primeiro namorado de Christine, Greg, e traduz bem a personalidade de um jovem mais sensível e inteligente, mas também sabe passar a sensação de insegurança quando preciso. Por outro lado, Timothée Chalamet, uma das maiores revelações desta temporada, faz Kyle, um adolescente metido e arrogante que também se relaciona com a personagem principal. O elenco de apoio é vasto, e bastante eficiente.

A trama se encerra com uma ótima reflexão sobre mudança, amadurecimento e nossa relação com nossos pais e com o lugar onde crescemos. Greta Gerwig, indicada ao Oscar de melhor direção e de roteiro original, consegue desenvolver bem os personagens, nos fazendo rir, chorar e pensar sem precisar se valer de discursos prontos e diálogos clichês. “Lady Bird” é um filme sensível, divertido e inteligente. Sem dúvidas, merece todos os prêmios que recebeu, assim como também merece sua indicação ao Oscar de melhor filme.

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