THE HURT LOCKER (2008)

Vencedor do Oscar, Globo de Ouro, Bafta de melhor filme, além de dezenas de outros prêmios em 2010, The Hurt Locker (Guerra ao Terror, no Brasil), de Kathryn Bigelow, é um filme que divide opiniões.

Centrado no cotidiano de 3 militares de um esquadrão antibomba atuando no Iraque em 2004, logo após o início da invasão americana, o filme de guerra é muito diferente das películas geralmente produzidas sobre o assunto. Na trama, o sargento William James (Jeremy Renner), um ousado especialista em desarmar explosivos, é transferido do Afeganistão para o país vizinho, e colocado na mesma equipe que o cauteloso Sgt. Sanborn e o jovem Cabo Eldrigde, e o espectador segue o cotidiano difícil dos três na zona de conflito, por um período de pouco mais de um mês.

O grande diferencial do filme está na forma como ele foi filmado. À primeira vista, o estilo parece o de um documentário clássico do tipo “fly on the wall”, em que a ação é mostrada de perto e sempre de forma central, sem qualquer insight onisciente sobre as motivações, desejos ou vida dos personagens fora daquele cenário específico. A câmera na mão em quase todas as cenas amplia a sensação de realidade e contribui para a criação do suspense – que se constrói de maneira muito bem feita e guia toda a construção do próprio filme. A imersão do espectador é muito proeminente, sobretudo nas muitas cenas de ação, e também contribui para essa construção do suspense.

Outro ponto de muito destaque é o fato de que os personagens não são o principal componente da história, e sim a própria invasão militar. As poucas informações que apreendemos sobre os personagens vêm da forma como eles reagem ao conflito, e se resumem àquele ambiente específico. É esse fato, inclusive, que faz com que seja menos questionável a ausência completa de personagens femininas no cenário de guerra. Mesmo que essa falta seja um problema, não o é na mesma medida em que seria em outro filme qualquer, já que o protagonismo também não recai sobre nenhum dos homens.

Controverso principalmente pelo distanciamento com que o conflito é mostrado – sem qualquer reflexão profunda sobre as suas consequências ou motivações, sobretudo para os iraquianos -, The Hurt Locker é um filme forte e marcante capaz de provocar reações em todo tipo de espectador – sejam elas positivas ou negativas. Inegável é a sua importância e inovação dentro de um gênero e temática marcados por abordagens clássicas e geralmente patrióticas. Mesmo com todos os seus problemas, é inegável que o trabalho de Bigelow representou uma nova possibilidade e abordagem desse tipo de conteúdo, que até hoje, quase uma década depois, representa uma experiência única, não repetida em nenhuma outra película. Gostando ou não, a obra tem tudo para se tornar um clássico no futuro.

Este texto faz parte da seleção oficial do I Prêmio Movies Pub de Cinema.

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2 comentários em “THE HURT LOCKER (2008)

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  1. Bigelow é uma genia por ter trazido esse formato meio documental para um filme de guerra, funcionou bem demais. Adoro como ela filma os moradores locais de longe, só vendo a movimentação dos soldados pela janela. Todo mundo parece estar tramando alguma coisa. Não ajuda muito na desconstrução daquele estereótipo dos muçulmanos como terroristas, mas funciona muito bem no sentido de reproduzir a sensação de insegurança dos soldados naquele lugar. Também acho que fica muito clara a forma com que ela foi no lugar e se preocupou em transmitir a atmosfera de lá. Tem um take de um cachorro passeando pela rua, por exemplo, que duvido que tenha sido planejado.
    Só vou discordar um pouco porque acho que é um filme muito de personagem sim. O sentimento do William James com relação à adrenalina da guerra é a alma do filme. Acho primorosa a forma com que ela constrói esse personagem, nas atitudes e nos diálogos. A cena dele conversando com o filho no final é maravilhosa, e meio que explica tudo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Você trouxe pontos muito interessantes, e de fato a conversa do James com o filho tem um peso muito grande na história e confirma explicitamente o sentimento dele em relação à guerra e à adrenalina do conflito. Mas eu não acho que isso invalide o meu ponto. Por mais que a gente tenha um vislumbre da vida dele em casa, num ambiente diferente, nós continuamos sem saber qualquer outra coisa sobre ele enquanto pessoa, porque ele meio que não existe se não for como militar. O protagonismo do conflito se confirma não só no filme, mas também na vida dele. E é isso que eu quero dizer quando falo que não temos personagens: a guerra é a única coisa que importa, mesmo pras pessoas que estão ali, e ele mesmo acaba sem transparecer nenhum traço de individualidade, tamanha a sua relação de dependência com o conflito. O James está ali não como um personagem individualmente especial, mas como a figura do soldado que encontra ali na guerra toda a sua subjetividade e todo o seu sentido pra vida, então o efeito geral seria praticamente o mesmo se no lugar dele o personagem tivesse quaisquer outras características, ainda que o fato dele ser jovem e ter um filho em casa amplifique essa sensação de alguma maneira. Entende?

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