THE MEG (2018)

O cinema puramente de entretenimento não é cinema. Pode haver, sim, entretenimento em um filme, mas é necessário haver também conteúdo de linguagem que faça com que esse filme se torne, de fato, cinema. Alguns diretores, como Edgar Wright, entendem perfeitamente a realidade da indústria cinematográfica atual, que exige que o filme siga uma determinada estrutura, porém não renuncia de fazer cinema e imprimir sua marca pessoal em cada uma de suas obras. Infelizmente, Wright é exceção em meio ao vasto mar de mediocridade que é o gênero de ação hoje em dia. “Megatubarão” (The Meg, 2018), apesar de possuir alguns elementos que poderiam o diferenciar de muitas convenções do gênero, segue pelo caminho mais fácil, cujo destino é a limitação criativa.

O enredo do filme cumpre todas as expectativas criadas pelo título, mas não vai além disso, o que não seria um problema se houvesse um pingo de criatividade nas concepções do roteiro e, posteriormente, das cenas. Um exemplo da falta de inspiração dos roteiristas são as personagens, que seguem, à risca, arquétipos estabelecidos: há uma garotinha inteligente e madura demais para sua idade, que teoricamente funciona como alívio cômico. Teoricamente porque não funciona, todas as piadas que a envolvem morrem na praia, ou no mar.

Assim como a garotinha, as outras personagens também possuem problemas em sua construção. O protagonista, vivido por Jason Statham, possui um arco dramático que impossibilita o espectador de sentir empatia com os acontecimentos da trama. A grande revelação de Statham é relacionada ao fato do megalodon realmente existir, ao contrário do que pensavam as outras personagens. Entretanto, essa revelação acontece ainda no primeiro ato, não havendo construção para causar o impacto necessário na diegése. Um exemplo clássico de construção bem-feita, dadas as proporções, evidentemente, é de “O Sexto Sentido”, em que o segredo é guardado, porém alimentado, até o final do segundo ato. Entendo que os gêneros são diferentes e que segurar a revelação da existência tubarão pré-histórico até o clímax seria também um erro, mas o problema de “Megatubarão” é que não há antecipação nenhuma para a revelação, mostrando que todo o foco do longa está na ação descartável.

Outro problema relativo ao roteiro é a aparição precoce do tubarão. A lição mais valiosa deixada por Spielberg em “Tubarão” talvez seja de que é possível criar suspense e causar medo em “não mostrar”. É uma característica de bons roteiros deixar lacunas para que o espectador preencha os espaços por conta própria, no caso de “Tubarão”, essa lacuna brincava com o imaginário, cabia ao espectador preencher a imagem daquela criatura com suas próprias hipóteses e seus medos.

“Megatubarão” é apenas um filme de ação descartável que afundará nas fendas obscuras da memória dos espectadores em pouco tempo. Não há nada de memorável ou inovador aqui, sendo o ponto mais interessante da coisa toda a ironia de um filme tão raso se passar nas Fossas Marianas.

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