CRÍTICA: “NANETTE” (2018) – A COMÉDIA INVERTIDA DE GADSBY

Se você procurar por definições e conceitos sobre comédia e piadas vai, eventualmente, esbarrar no termo “quebra de expectativa”. Subverter a expectativa do público geralmente é tido como o principal motivo responsável por fazer uma piada ser efetiva. O especial da Netflix de Hannah Gadsby, leva isso ao extremo, quebrando nossa expectativa de comédia e fazendo algo que vai muito além de um show de humor.

“It’s bold” (é ousado), diz Gadsby em certo ponto de seu show. Não há frase melhor para definir o texto da comediante de 40 anos, nascida numa pequena cidade da Tasmânia, que até então era pouco conhecida fora do cenário local e do meio LGBT. A forma que ela conduz o show lembra muito a forma de George Carlin (1937-2008), por conseguir trabalhar seu texto de forma tão genial que o faz ultrapassa a barreira da comédia transformando-o em uma reflexão sociológica e, o mais impressionante de tudo, sem perder seu tom de humor característico. A diferença é que Carlin trabalhava com os traumas e inquietações da sociedade e da política como um todo, Hannah trabalha com seus próprios. O que era para ser um show de humor, se torna um exercício empático onde a comediante compartilha conosco o peso de sua história de vida.

Não se enganem achando que especial não é engraçado. Hannah é uma ótima comediante, tem um timing perfeito e saber conduzir o público de forma magistral à risada. O que torna “Nanette” ousado é o uso perfeito da metalinguagem da própria comédia em si. Gadsby mostra não só como ela boa no que faz, mas que também entende e compreende as minúcias de sua profissão e explora isso de forma genial. Em certo ponto de seu show, ela começa a destrinchar e subverter o próprio texto, transformando suas piadas em histórias reais. O peso de ser uma mulher em uma sociedade machista, a dificuldade de crescer sendo lésbica em um lugar onde a homossexualidade era crime, a homofobia enraizada na cultura, os problemas da auto aceitação, a violência e o abuso sexual. Tudo isso escondido por trás de um setup e uma punchline. Enxergar a comédia da forma como Hannah enxerga não é ser contra piadas, como alguns podem interpretar, mas sim perceber o valor artístico do texto humorístico.

Vários estudiosos da literatura e da dramaturgia se referem a comédia, principalmente no seu sentindo original, como “a tragédia estendida por tempo demais”. Ou seja, desenvolver o desfecho dramático de uma história trágica, de certa forma, transformaria uma peça dramática em uma comédia. “Nanette” faz exatamente o contrário, ela consegue explorar minúcias do próprio texto, estendendo seus contextos para encaixar o desfecho trágico. Sendo assim Gadsby faz o caminho inverso da criação do texto cômico, e o efeito disso é refletido na grandiosidade do impacto que o público recebe quando finalmente ela chega no ponto alto de seu show. Hannah sai de sua vida na Tasmânia e a relação entre ela e sua mãe, passando pela homofobia, a história da arte e machismo, até chegar na frase icônica, gritada a plenos pulmões: “I’m in my prime!” (Eu estou no meu auge!), uma verdade que ninguém pode contestar. O que se segue daí é um impacto que nos faz sentir por alguns minutos, o que ela sentiu a vida inteira. Uma experiência empática sem precedentes.

Ainda que você não concorde com a visão que Hannah tem sobre a comédia, é impossível não aplaudir a coragem e ousadia da comediante ou ignorar sua genialidade na condução de seu texto. Há apenas um erro cometido em “Nanette”, quando sua autora afirma que ninguém sairá daquele teatro sendo um ser humano melhor. Na verdade, uma pessoa, ao menos, saiu de lá engrandecida. Hannah Gadsby, sem dúvida, entra para história da comédia.

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