CRÍTICA: HOMEM ARANHA: NO ARANHAVERSO (2018)

“Homem Aranha: No Aranhaverso” narra a história de Miles Morales (Shameik Moore), um garoto latino-americano filho de um policial chamado Jafferson Davis (Brian Tyree Henry). A relação entre pai e filho não é perfeita, apesar de dos dois claramente se amarem, há um conflito entre eles devido à cobrança do pai para que o filho estude em uma boa escola e siga um modelo de bom aluno. Morales, ainda que muito inteligente, não almeja seguir esse modelo, seu desejo é voltar para a antiga escola e fazer grafite. O interesse pelo grafite o aproxima de seu tio, Aaron Davis (Mahershala Ali), que possui uma briga antiga com o irmão, Davis.

Após ler essa breve sinopse, é possível perceber que há um grande foco nas relações familiares. Essa percepção é correta, uma vez que o filme não tem medo de explorar o drama familiar com cenas que, por vezes, trazem um tom extremamente triste e melancólico ao filme. Esse tom, por outro lado, não prevalece por toda a obra, ao invés disso, é pontualmente colocado em momentos chave de uma narrativa que, predominantemente, é construída no e pelo humor. Dessa forma, as cenas tristes são responsáveis por balancear o filme, trazendo o tom de sobriedade que permite discutir problemas reais da vida real, essa a característica principal das histórias do Homem Aranha. A personagem, dentro todas as outras da Marvel, é a que mais tem como objetivo passar a mensagem de perseverança e otimismo através de suas histórias, e isso o filme acerta com maestria. Mesmo que o protagonista não seja Peter Parker, o Homem Aranha original, toda a mensagem por trás da personagem encontra-se também no arco narrativo pessoal de Miles Morales, há um paralelo claro entre o novo e o velho aqui.

spiderman into the spiderverseAntes de discutir o paralelo que há entre as duas personagens, é interessante enfatizar a relação entre o Peter Parker de meia idade que vem de outra dimensão com Miles Morales. Há aqui, a clássica relação de mentor e aprendiz: Parker é responsável por treinar Morales para que ele assuma as funções de “Amigo da Vizinhança”, entretanto, somos apresentados a um Peter Parker ainda ativo na luta contra o crime há mais de vinte anos, mas deprimido, cansado, desmotivado e fora de forma. A personagem de Parker enfrenta diversos problemas de ordem pessoal em seu universo. O principal deles, do qual se desenrolam todos os outros, é o término com Mary Jane, que queria ter filhos enquanto ele não tinha certeza. Portanto, temos um Homem Aranha de meia idade que demonstra não se importar mais com nada estabelecendo uma relação de mentor e aprendiz com alguém que o via, antes de o conhecer, como o modelo a ser seguido. Essa relação disfuncional é responsável por muitos momentos de humor do filme além de elevar paralelamente ambas as personagens a posições heroicas no decorrer de seus arcos narrativos. Tem-se, aqui, a ideia de opostos que se completam: Miles é jovem e inexperiente, porém com vontade de fazer o bem, enquanto Parker é velho e desmotivado, mas com a mesma vontade de Morales. Essa vontade de ambos torna suas respectivas fraquezas em força para resolver os problemas, e o roteiro do filme realiza tudo isso da maneira mais fluida e orgânica possível.

Inclusive, tudo no roteiro flui de maneira orgânica e sem falhas. Todas as piadas – e elas são muitas – funcionam em função da narrativa sem parecer, em momento algum, forçadas. Os arcos individuais das personagens principais são bem desenvolvidos e das coadjuvantes são suficientemente estabelecidos a fim de não soarem como arquétipos inacabados. Um exemplo marcante disso é Davis, pai de Morales que, apesar de sua boa intenção para com o filho, o afasta de si devido às diferentes ideologias, fazendo necessário uma redenção da personagem aos olhos do filho, o que é feito perfeitamente e de maneira tocante e comovente. Mas isso não é só mérito do roteiro…

É também mérito das atuações. Brian Tyree Henry, por exemplo, entrega uma performance vocal com um excelente timing para comédia, quando necessário, mas também extremamente enternecedora. Um exemplo do quão tocante é sua atuação é a cena em que ele dialoga com o filho do outro lado da porta. A porta funciona como o óbvio símbolo metafórico que representa o afastamento dos dois, e é importante para justificar as palavras que saem vacilantes da boca da personagem de tal forma que transforma uma cena com altíssimo potencial para se tornar clichê, devido à quantidade de vezes que fora filmada em outras obras, em uma das mais emocionantes de toda a projeção.

Outro aspecto de grandíssimo destaque na obra é, sem sobra de dúvidas, o inovador estilo de animação utilizado. À primeira vista, pode parecer uma mera tentativa de reproduzir no áudio visual o estilo dos quadrinhos, com as onomatopeias que acompanham os momentos sonoros mais intensos, os traços rabiscados que eventualmente aparecem e os pontilhados das impressões antigas que trazem um ar retro à obra. Entretanto, o estilo é muito mais elaborado que isso. Para retratar a instabilidade do universo devido a interferências dos outros universos paralelos, em algumas cenas, os traços são duplicados e desfocados, causando uma estranheza no espectador, esse efeito também remete ao background das páginas dos quadrinhos mais antigos. Há também toda a influência da Pop Art e do grafite que são incorporados na animação da obra. Toda essa mistura de referências visuais unidas em uma obra só, criam algo nunca antes visto e, o mais surpreendente, funcionam em uma harmonia impressionante. A animação do filme é algo que até mesmo a mais precisa e eloquente das descrições escritas seria incapaz de fazer jus, é preciso que seja vista e revista para ser completamente apreciada.

“Homem Aranha: No Aranhaverso” é muito mais do que apenas um excelente filme de super-heróis, é um excelente filme e ponto. É Cinema feito na mais pura maestria visual e narrativa; é criativo, empolgante, diferente e inovador, é tudo o que falta no “gênero” dos super-heróis e também no cinema comercial de modo geral. É, acima de tudo, revigorante.

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