CRÍTICA: A FREIRA (2018)

Não é difícil se decepcionar quando a expectativa é alta para um determinado filme. Tampouco é difícil se surpreender positivamente quando não há expectativa alguma. A questão, nesse caso, é de perspectiva: o filme vai ser melhor ou pior dependendo do quanto esperamos dele. É claro que, depois da expectativa, seja ela positiva ou negativa, o que deve prevalecer na avaliação final é a qualidade ­– ou não – da obra. Contudo, não desconsideremos o valor da expectativa, porque quando um filme consegue decepcionar profundamente mesmo quando nada se esperava dele, é preciso parar, respirar e entender o que diabos aconteceu.

O conceito por trás do roteiro de “A Freira” (The Nun, 2018) não diz absolutamente nada além do que é exposto no princípio da exibição: um padre precisa de uma freira para ir a um castelo investigar um assassinato. Chegando lá, coisas estranhas começam a acontecer devido a presença de um espírito maligno que habita os confins desse castelo. Até aí tudo bem, nada de inovador, mas todos os elementos condizem com o gênero terror e, se bem trabalhados por uma equipe competente, poderiam resultar em um filme no mínimo sólido. Os problemas começam justamente no momento em que é apresentada a personagem de Jonas Bloquet, discutivelmente o alívio cômico pior inserido em uma narrativa do ano, pois todas as suas intervenções acontecem em momentos pouco oportunos, trabalhando contra a construção de suspense e tensão da cena. A personagem insistentemente quebra a estrutura da curva dramática convencional, substituindo o clímax, junto de sua construção, por uma punchline barata e deslocada. Isso impede que aconteça a imersão o que, por consequência, torna ineficaz qualquer tentativa de causar tensão no espectador.

a freiraÉ importante ressaltar que diversos filmes mesclam muito bem ambos os gêneros (terror e comédia) de forma orgânica sem ferir as características de nenhum deles. Um ótimo exemplo é “Todo Mundo Quase Morto” (Shaun of the Dead, 2006), escrito e dirigido por Edgar Wright. Wright consegue, brilhantemente, extrair o que há de melhor de cada gênero para criar um produto coeso. Note que, em “Todo Mundo Quase Morto”, em momento algum o humor é histérico ou desenhado para causar súbitas gargalhadas, isso porque os momentos de humor permeiam por toda a obra de maneira homogênea e moderada, permitindo que o gênero terror seja também trabalhado de maneira eficaz. Um exemplo prático é a cena em que Shaun, personagem de Pegg, precisa atirar em sua própria mãe que se tornou um zumbi. Não há nenhuma piada explicita que tire daquele momento toda a angústia e dor pela qual a personagem protagonista, e por consequência também o espectador, passa. Entretanto, há uma mudança drástica no discurso de outra personagem que defendia momentos antes que Shaun deveria atirar em sua mãe, mas quando ele a vê se levantando da morte, entrega a arma para a protagonista dizendo “faça você”, trazendo um tom de ironia em um momento extremamente delicado sem interferir no desenho dramático da cena.

Outros dois casos, que vão por um caminho diferente, são os bons “Terror nos Bastidores” (The Final Girls, 2015) e “O Segredo da Cabana” (The Cabin in the Woods, 2012). Ambos os filmes mesclam os dois gêneros usando da metalinguagem, ou seja, quando uma narrativa fala dela própria. Nesses casos, com o objetivo de trazer um tom de deboche direcionado à estrutura engessada que alguns filmes de terror insistentemente usam. Todavia, os momentos de tensão, assim como dita a estrutura criticada, são mantidos.

Enfim, o ponto é que existem diversas maneiras de se inserir momentos engraçados em um filme de terror sem abdicar completamente de estabelecer o tom correto que as cenas pedem. Poderia inclusive, com uma clara função narrativa, haver a subversão da curva dramática da cena, substituindo sim o clímax por uma punchline, mas essa característica configuraria muito mais uma comédia do que um terror, o que claramente não é a proposta aqui. “A Freira” é, em todos os aspectos, um filme de terror, um filme ruim, mas ainda sim de terror. A exceção é justamente a desconstrução da tensão nas cenas, que não se justificam em momento algum da projeção. Esses momentos de “humor”, entre aspas pois não são engraçados, dadas as circunstâncias, só servem para martelar a quarta parede, tão necessária nesse contexto, e lembrar ao espectador de que ele está assistindo a um filme e repito, um filme ruim.

Por incrível que pareça, não é apenas no tom que “A Freira” erra feio. Há um erro grotesco de conceito logo na concepção do longa: a imagem da freira é de conhecimento de todo o público antes mesmo dele descer o braço da poltrona do cinema. Isso, por si só, tira grande parte do suspense, pois, como mostrou Spielberg em “Tubarão”, J.J. Abrams em “Cloverfield” e “Lost” e diversos outros criadores, boa parte da graça está em deixar o espectador preencher as lacunas com seus próprios medos e anseios para aí sim, apresentar a ameaça em sua plenitude.

Há tantos outros defeitos que podem ser apontados nessa catástrofe, mas sinto que seria uma perda de tempo aprofundar mais nesse abismo cinematográfico. Poderia falar sobre a maneira tosca que o filme usa para se ligar ao universo de “Inovação do Mal” (The Conjuring, 2013), inserindo cenas completas desse último no meio da história em um fortíssimo exercício de insulto aos espectadores. Os criadores, aqui, pegam na mão de quem assiste como se fossem crianças e, da forma mais estupidamente didática possível, dizem, “veja bem, esse filme faz parte desse universo, veja essa cena de outro filme que você entenderá direitinho, ok?” É, além de insultante, preguiçoso e, de certa forma, até mesmo presunçoso, pois me faz pensar que, em algum momento na sala de roteiro, alguém pensou que essa seria uma ideia genial. Enfim, “A Freira” é uma completa porcaria que representa tudo o que há de errado com o gênero terror. Não funciona nem como mero escapismo, é a insignificância cuspida na tela.

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