COLUNA: “O LIVRO É MELHOR…”

Cinema e literatura dialogam entre si com muita intimidade. Muito disso se dá pelas proximidades teóricas de narrativa que acabam por estreitar as relações de ambas as artes.

Uma forma comum de intensificar essa relação é a adaptação. Forma essa explorada há anos no cinema, tendo como destaque obras dos meados do século XX, como “O Processo” escrito por Franz Kafka e adaptado por Orson Welles (1962), e “1984” dirigido por Michael Anderson (1956), homônimo da obra-prima escrita por George Orwell em 1949. Assim como esses exemplos, muitas outras obras literárias foram traduzidas para o cinema no período, “traduzidas” porque o que se presava naquela época era o nível de fidelidade que a adaptação tinha com o texto de origem. Em outras palavras, quanto menor o deslocamento, melhor o filme.

Em seu artigo “Do Texto ao Filme: A Trama, a Cena e a Construção do Olhar no Cinema” Ismail Xavier, um dos maiores críticos brasileiros de cinema de todos os tempos, vai além afirmando que o espectador ia ao cinema para assistir a uma adaptação esperando ouvir a voz do autor do livro adaptado, não a do diretor. Sendo assim, o cinema era escondido atrás de uma outra arte, o que o tornava secundário no olhar do público e também crítico.

Era, então, o papel do crítico avaliar o grau de lealdade do filme ao texto de origem, e esse seria o “mote” determinador de qualidade para a obra cinematográfica. Situação que, hoje, é – ou deveria ser – impensável. O quadro geral é outro, a ideia de deslocamento ganha força nas adaptações e, por consequência, diretores e roteiristas tem mais autonomia e voz artística em seus filmes, cabendo a eles seguir ou não o que está no livro. Dessa forma, os limites impostos pela linguagem literária passam a ser os impostos pela linguagem cinematográfica, dando aos autores ferramentas diferentes para construírem suas narrativas.

Esse panorama é excelente tendo em vista a independência do cinema e de seus realizadores. Isso porque, ainda levando o texto de Xavier como referência, é respeitada a sensibilidade dos envolvidos na produção cinematográfica, além de dar um caráter atualizador a obra literária. Com efeito, é valorizada primeiramente a perspectiva de quem produz, e, junto a isso, o caráter atualizador do filme, que passa a desempenhar a função de recontextualizar a obra adaptada em seu tempo e espaço. Como fez Stanley Kubrick ao rodar “O Iluminado” de Stephen King, autor que, ainda hoje, torce o nariz para as modificações feitas em seu texto.

Porém, as constatações de King, nesse caso, são pouco apropriadas para se discutir adaptação, uma vez que são feitas com base na paixão do autor para com sua criação. Os leitores que compram a ideia do “Mestre do Terror” e ignoram a existência da criação de Kubrick são duplamente negligentes. Primeiramente porque desconsideram um dos melhores filmes de terror produzidos em todos os tempos e, ainda, perdem a oportunidade de revisitar e redescobrir novos cantos de um universo que é de seu interesse.

Mesmo assim, persistem em existir críticos que avaliam filmes como bons ou maus tendo como pilar avaliativo a fidelidade de enredo. O mesmo comportamento é mais facilmente encontrado no público, entretanto, justificado pelo fator paixão que desempenha um grande papel na avaliação dos fãs de livros que viram filmes. O crítico não pode se deixar cair nessa máxima e deve fazer sua leitura levando em consideração o filme como uma entidade a parte do livro – o que de fato é. Xavier diz brilhantemente que o texto de origem deve ser o ponto de partida e não de chegada para quem adapta, cabendo a ele decidir o caminho a ser percorrido.

A tão corriqueira quanto problemática frase “o livro é melhor do que o filme” deveria ser esquecida devido à sua natureza incabível, uma vez que são meios distintos – cada um com sua linguagem específica. Hierarquizar diferentes formas de expressões artísticas é um erro grotesco de julgamento. Cinema e literatura possuem pontos convergentes, isso é evidente, mas, antes de qualquer outra coisa, é necessário reconhecer o exercício de linguagem da obra antes de colocar em cheque comparações de enredo. Caso contrário, a avaliação será equivocada e reducionista.

É necessário abdicar da ideia de que, em uma adaptação, o conteúdo deve se manter imaculado. Não! Não é necessário e muito menos obrigatório haver igualdade de enredo nesses casos. O espectador precisa entender o filme como uma nova experiência independente do livro e aproveitar as novas possibilidades, de linguagem e de enredo, a serem exploradas, lembrando-se sempre de que, caso a experiência cinematográfica não seja boa, paciência. Até porque o enredo amado estará lá, para sempre intocado em seu estado de origem, imutável no livro.

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