CRÍTICA: BOHEMIAN RHAPSODY (2018)

Cinebiografias podem ser complicadas de se avaliar devido às personalidades nelas retratadas e, por consequência, à base de fãs que podem possuir essas personalidades. Esse tipo de filme, então, possui um caráter mais complexo para avaliação e apreciação por tratarem de pessoas que possuem status de ídolo para muitas outras. Então, dessa forma, surgem duas grandes perspectivas possíveis para se avaliar obras dessa natureza: a perspectiva do fã da pessoa, que vai ao cinema para ver seu ídolo; e a perspectiva fã de cinema, que espera apreciar o filme por conta de suas construções narrativas e temáticas.

“Bohemian Rhapsody”, dirigido por Bryan Singer, é um grande exemplo dessa lógica. A narrativa acompanha a juventude de Freddie Mercury (Malek) até sua vida adulta, mostrando como conheceu os demais integrantes do Queen, os bastidores, os shows, e alguns momentos importantes da banda. É difícil definir uma sinopse do filme pois não há um arco dramático concreto pelo qual as personagens seguem naturalmente para contar uma história coesa. O que há são sequências colocadas uma atrás da outra, como se fossem blocos de história, porém esses blocos não se conectam completamente.

bohemianNão há um foco narrativo, mas sim diversos momentos da banda dispostos cronologicamente por uma montagem sem inspiração que pouco esforço faz para contar uma história. Esse problema começa lá atrás, no roteiro, que erra em não fazer um recorte de um momento específico e construir uma história em cima disso. Essa, inclusive, era a proposta de Sacha Baron Cohen quando ainda era cotado para viver Mercury nos cinemas. Sua ideia era focar na vida sexual do vocalista fazendo um recorte de um período de tempo menor, o que me parece uma decisão mais acertada do que tentar contar toda a história da banda em 2h14min de projeção.

Como se não bastassem esses sérios problemas, a direção de Singer é extremamente inconsistente. Em alguns momentos ele é extremamente competente recriando os shows de uma forma impressionantemente parecida com os reais, mas em outros entrega momentos absurdamente constrangedores de uma pseudoprofundidade assustadora, como a cena em que Freddie chora sozinho depois de escrever uma música. Inclusive, a forma com que o filme retrata o processo criativo da banda é no mínimo risível, e não de uma forma intencional, com poucas exceções, como a cena de gravação de Bohemian Rhapsdy, que é genuinamente engraçada.

E esse é um ponto positivo do filme, o humor. Quase todas tentativas acertam em cheio no tom criando cenas divertidíssimas. Um bom exemplo é a da cafeteira, assim como toda e qualquer referência à música “I’m in love with my car”, de Roger Taylor. É importante ressaltar que as piadas só funcionariam se as atuações fossem corretas, e aqui todas são. O quarteto de atores que interpreta os integrantes da banda parece muito confortável em seus papeis e entregam boas performances, com destaque para Gwilym Lee e, obviamente, Remi Malek, que deve ganhar pelo menos uma indicação ao Oscar pelo trabalho. Malek, em alguns momentos, se torna Freddie Mercury, como na apresentação no Live Aid Concert. Os trejeitos, maneirismos, expressões, postura, tudo está lá.

E para completar, as músicas que são tocadas no decorrer do filme são as originais gravadas pela banda, o que foi uma decisão acertada, pois dificilmente algum ator ou cantor, por mais talentoso que seja, conseguiria fazer jus a voz e estilo vocal de Freddie Mercury. Sendo assim, todas as vezes que são tocadas as músicas o efeito é positivo o que nos faz acreditar que o que estamos vendo é algo de qualidade, entretanto, quando analisado pela perspectiva cinematográfica, fica claro que é apenas uma ilusão.

“Bohemian Rhapsody” é um filme medíocre escondido atrás da genialidade do Queen. A maior parte do que há de positivo no longa-metragem pode ser racionalmente trocado pelo o que já existe na realidade, sem necessidade de ir buscar na ficção. Por exemplo, as cenas dos shows e a caracterização de Remi Malek possuem uma similaridade incrível com a realidade, sendo assim, porque não simplesmente abrir o Youtube e assistir aos shows reais com os integrantes reais? Por outro lado, quem é fã da banda não verá problema algum nisso, e sim uma nova possibilidade de reencontrar seus ídolos, e para esses, será uma experiência empolgante. Já aqueles que procuram uma experiência cinematográfica, este não é o lugar certo.  

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