CRÍTICA: COMO TREINAR O SEU DRAGÃO (2019)

Este texto contém spoilers

É bastante comum atrelar o gênero “animação” como algo voltado para o público infantil. Embora Hayao Miyazaki, Isao Takahata, Toshio Suzuki, Yasuyoshi Tokuma, entre outros, já tenham colocado esse emparelhamento em questão com seus filmes e mangás com teor para além do infantil, a animação continua, majoritariamente, sendo considerada pelos espectadores um gênero para crianças. Após assistir a filmes como Toy Story (1995 – ), Up (2009), Coraline (2009), nos parece imprudente corroborar com essa ideia. Como Treinar o seu Dragão 3 (How to Train Your Dragon: The Hidden World) não é um filme apenas para o público infantil. A forma em que o conteúdo temático é apresentado por Dean DeBlois exige de nós uma leitura profunda e admirada sobre as temáticas retratadas para diversos públicos.

O enredo desse novo filme volta a acompanhar a trajetória de Soluço, agora chefe de Berk, e Banguela, o dragão Fúria da Noite, que também tem seu arco narrativo desenvolvido durante o longa. Logo de início, somos transportados para uma memória de Soluço, em que ele, ainda pequeno, está no colo de Stoico, seu pai. Stoico menciona a existência de um local para além do sol, além da curva do oceano (alô, terraplanistas, a indireta foi para vocês), um mundo escondido. Essa memória introduz muito mais do que um lugar físico a ser buscado pelos vikings. Para Stoico, naquele momento, o lugar representava a salvação do povo viking, já que seu plano era selar o local com todos os dragões dentro, impedindo outras lutas entre dragões e humanos. Para Soluço, no momento presente da narrativa, o mundo escondido representa a busca de um lugar em que vikings e dragões poderão viver em harmonia e igualdade, sendo esta uma das principais temáticas do filme.

ctosdA busca de Soluço começa a ser motivada pela descoberta de novos caçadores que almejam um exército de dragões controlados e, conforme aprendemos com os filmes anteriores, somente um Fúria da Noite consegue exercer controle sobre outros dragões. A partir desse arco, somos apresentados ao vilão da história: Grimmel, que tem o objetivo de matar Banguela para manter seu status de maior caçador de Fúrias da Noite. Utilizando a Fúria da Luz para atrair Banguela, Grimmel consegue ameaçar e manipular até mesmo os novos caçadores de dragões. Aqui, DeBlois consegue intercalar os momentos cômicos e dramáticos sem que o espectador se sinta perdido entre gêneros. As cenas de comédias têm seu próprio espaço e não são construídas como forma de alívio cômico em alguma cena dramática. Um exemplo disso é a cena em que Banguela passa a seguir Fúria da Luz e, com seu jeito desengonçado, tenta seduzi-la. O dragão falha de forma miserável e sua eminente companheira alça voo. Ao tentar acompanha-la, percebemos a mudança do tom da cena quando Banguela não consegue, devido sua atual condição de apenas conseguir voar com o auxílio de Soluço.

Diante dessas introduções, os arcos vão se delimitando e apontando para um único sentido: a necessidade de encontrar o mundo escondido para que todos fiquem a salvo. Quando Banguela conquista sua independência e aprende a voar sozinho, somos levados a refletir sobre uma das temáticas mais importantes da, até então, trilogia, que é o auto conhecimento como individuo seguido do conhecimento identitário de quem a personagem é dentro de um grupo. É possível identificar essa temática a partir de uma comparação entre o desenvolvimento de Banguela e Soluço. Enquanto Banguela passa a se constituir como o grande líder dos dragões, Soluço passa a sentir cada vez mais frustrado com seu desempenho como líder dos Berk. Neste ponto, a presença da personagem Astrid ganha força ao ajudar Soluço a perceber que ele tem, sim, potencial por si só, algo que a viking demonstrou segurança em ter desde o primeiro dos filmes.

A alternância entre os pontos de vista de Stoico e Soluço no início da história, o mote sobre a (in)dependência entre personagens e suas questões identitárias são temáticas que caminham juntas para uma determinada direção. Essa direção é a separação de Banguela e Soluço. Sim, os dois construíram trajetórias parecidas, ambos se tornaram líderes de seus grupos, mas, é evidente que todas as batalhas e conflitos nos prepararam para este momento.

DeBlois, nos fazendo ler as entrelinhas, explora metáforas para alfinetar àqueles que acreditam que a Terra é plana (por exemplo, o personagem que praticamente diz “A Terra é redonda, seu idiota”), àqueles que acreditam que a caça é um esporte – e deve ser liberada (a própria motivação de Grimmel é uma representação dessa metáfora). Após a exploração dessas metáforas, que também ajudam a ditar o tom do filme, a obra é concluída com uma lição sobre como os homens ainda não estão prontos para viver em harmonia com dragões e, também, sobre como é fundamental não considerar um adeus como perda e sim como um resguardo para quando os homens, de fato, estiverem prontos para abrir mão de sua ganância e conviver em harmonia com dragões. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s