CRÍTICA: A FAVORITA (2018)

Além de ter a palavra final em todas as decisões políticas do reino, a rainha Anne da Inglaterra (Olivia Colman) é extremamente mimada e bajulada em sua intimidade. Basta tocar um sininho para que uma equipe de serviçais apareça imediatamente em seus aposentos para lhe fazer uma massagem. Anne tem tudo do bom e do melhor. Somente uma coisa lhe falta: felicidade.

Sua saúde física está deteriorada. Ferimentos na perna a impedem de andar normalmente; e seu estômago rejeita todas as guloseimas que outrora lhe traziam um pouco de alegria. A saúde mental também vai de mal a pior. Se a depressão lhe tira até a vontade de viver, imagina o que não faz com sua disposição para governar um país.

afDiante dessa situação, o sentimento que prevalece no espectador de “A Favorita”, novo filme de Yorgos Lanthimos, é de angústia. A atriz Olivia Colman realiza um trabalho fantástico na humanização da rainha, impedindo que ela se torne um alívio cômico caricato. Tudo que queremos é que ela tire uma licença para se tratar e retorne com força total.

Contexto histórico

O filme se passa em um momento delicado para a Inglaterra. Uma guerra contra a França força o governo a elevar os impostos e contrariar uma intensa oposição tanto no parlamento quanto na sociedade. O contexto exige uma figura com pulso firme na chefia de estado. Esse alguém é Lady Sarah (Rachel Weisz).

Rachel Weisz traz a frieza necessária para a personagem, que é simplesmente a verdadeira responsável por todas as decisões políticas importantes. O relacionamento de longa data entre Anne e Sarah – que também são amantes em segredo – é marcado por um companheirismo admirável e uma honestidade inegável, mas não necessariamente pelo romantismo.

O status quo é quebrado pelo aparecimento de Abigail (Emma Stone), prima de Sarah que vai até o palácio em busca de uma oportunidade de trabalho. Emma Stone interpreta Abigail com uma humildade inicialmente cativante, mas sempre deixando claro que a personagem esconde grandes ambições. Esperta demais para uma simples serviçal, Abigail vai se destacando e subindo cada vez mais degraus na bizarra hierarquia da realeza britânica até chegar em seu ponto mais alto: a rainha.

Carente de afeto, Anne vê em Abigail uma garota sensível e carinhosa, que lhe dá atenção e eleva sua autoestima. Ameaçando assim o reinado de Sarah como principal confidente da monarca. A rivalidade entre as primas começa sutil, mas toma proporções novelescas no decorrer dessa narrativa brilhantemente conduzida por Lanthimos.

Traço autoral

Para contar essa história, o diretor utiliza pontualmente a lente grande-angular, que aumenta o campo de visão da câmera e ajuda a evidenciar os belíssimos cenários e figurinos. A técnica se une aos travellings ágeis e os contra-plungees, que já são marca registrada do cineasta grego para compor a memorável identidade visual do filme.

Também destaco a forma com que ele utiliza a câmera lenta e a trilha sonora clássica para tirar sarro das extravagâncias da época. Aqui são recriados não somente o visual do século XVIII como também a mentalidade. Falamos de uma época em que as pessoas se divertiam fazendo corridas de patos, e que estupros e agressões físicas a serviçais eram práticas rotineiras.

Abigail e Sarah. Qual dessas mulheres é mais ambiciosa? Qual é capaz de ir mais longe para alcançar seus objetivos? Alguma delas realmente se importa com a rainha Anne? O roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara apresenta uma narrativa que se inicia respondendo tais perguntas de forma convencional, com uma subdivisão em capítulos que serve muito bem à história. Por outro lado, para o encerramento é utilizada uma abordagem mais subjetiva, que cumpre bem seu papel de fazer o espectador refletir não somente sobre quem é, mas sobre o que de fato significa ser “A Favorita”.

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