CRÍTICA: TERRA EM TRANSE (1967)

Texto escrito em coautoria com Julia Magalhães.

Terra em Transe é um filme brasileiro lançado em 1967, com roteiro e direção pelo cineasta, ator e escritor brasileiro, Glauber Rocha. Autor também de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), Rocha alinha narrativas marcadas por críticas sociais e um estilo de filmagem de técnicas cinematográficas inovadoras, buscando romper com o molde de como se fazia cinema época. Terra em Transe é um dos seus filmes de maior destaque, conquistando lugar na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e, importante dizer, o filme é considerado por Glauber Rocha como um filme sobre política e não um filme político.

A narrativa se estabelece a partir do que é familiar e representativo para uma realidade latino-americana universal: a crise sociopolítica, a miséria da população pobre infantilizada, a disputa pelo poder entre forças opostas, a manipulação midiática e a influência da mão invisível do capital estrangeiro. Assim, ao criar um jogo de referências que, para um espectador brasileiro, parece extremamente próximo e local, mas também vagamente estrangeiro (especialmente na nomeação de personagens e lugares), Terra em Transe faz do país El Dorado não só uma metonímia de América Latina, mas, também, uma grande alegoria.

terra em transeÉ consensual, ou quase, a concepção de roteiro como primeiro passo para o nascimento de um filme, mas, ainda mais importante que a visualização de um roteiro como documento que abarca o que será contado (deixando o “como” para o olhar da direção), é a construção da storyline. A storyline é a síntese da história que o roteirista gostaria de contar e é constituída em um parágrafo com poucas orações. Nesse parágrafo, é estabelecido, de acordo com Rodrigues (2014), “um protagonista, um objetivo do protagonista e um obstáculo entre o personagem e o que deseja alcançar”. A storyline do filme Terra em Transe pode ser definida como: a jornada de Paulo Martins (Jardel Filho), e seu conflito interno que flutua entre os extremos na política brasileira, representada pelo conservadorismo de Porfírio Diaz (Paulo Autran) e o populismo de Felipe Vieira (José Lewgoy), e a manipulação sofrida pelos eleitores, ou seja, é por meio da narração do poeta e jornalista Paulo, em sua performance teatral, que acompanhamos os acontecimentos do filme que retrata a alegoria política mencionada no parágrafo anterior.

Tendo sua origem nos palcos de teatros, a teoria da quarta parede, sustentada pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, estabelece uma barreira não visível que separa o mundo fictício do mundo real, personagens e espectadores. Uma ferramenta constantemente utilizada no cinema, inclusive por diretores como Martin Scorsese, David Fincher, Woody Allen e John Hughes, é a quebra dessa barreira, estabelecendo, portanto, uma conexão entre fictício e real, fazendo uma interseção dialógica entre esses dois mundos. Rocha testa a percepção do espectador quando apresenta em Terra em Transe uma falsa quebra da quarta parede com personagens olhando diretamente para a câmera, dialogando como se estivessem tomando como receptor o próprio espectador.

Essa tática de Rocha faz parte da composição estética do filme e correlaciona-se com a forma poético teatral com que Paulo Martins é caracterizado. Paulo e seu conflito interno, pairando entre extremos que fazem a correlação entre sua vida política e sua vida romântica, é, para Santiago (2014), um observador “dos fatos que ele julgava ter algum controle sobre. Seu ego e talvez fé extrema nas mudanças sociais o fizeram-no apoiar e trair, difamar e promover campanhas políticas e representantes que um dia desprezara”. Uma possível leitura sobre o revezamento entre ideologias de Martins é uma provável tomada de consciência. Para Lukács (2003, p. 103), “o caminho da consciência no processo histórico não se aplana, pelo contrário, torna-se sempre mais árduo e apela a uma responsabilidade sempre maior”. Isto é, o conflito é o resultado de questionamentos e caos que habitam o personagem vivido por Jardel Filho.

O caos narrativo reflete na estilização visual, pois, ao invés de seguir uma ordenação cronológica usual característica aos filmes hollywoodianos, as memórias de Paulo e das outras personagens dos eventos que precederam o golpe de Diaz misturam-se umas nas outras em uma espécie de estupor delirante – ou a “ópera metralhadora” (NEXO JORNAL, 2017), como ficou conhecido o filme pelo público francês. Historicamente, essa não linearidade foi central para a exibição do filme sem cortes pela censura, sendo considerado confuso ou até ininteligível. No entanto, é possível perceber uma outra motivação por trás desse tratamento, além da aproximação interna com o fluxo de consciência de Paulo ao relatar o seu entorno e para caracterizar imageticamente como se dá esse cenário político: trata-se de um projeto artístico de Glauber Rocha, que buscava criar um cinema do Terceiro Mundo, ou seja, a desenvolver uma estética propriamente nacional, que retratasse vidas nacionais. O filme também pode ser visto como um despertar do tropicalismo no Brasil pela mistura carnavalesca entre erudito (com o uso de músicas de Villa Lobos, por exemplo) e popular (com a presença de figuras marcantes da época como a modelo Danuza Leão e o carnavalesco Clóvis Bornay), pela linguagem não direta, caracteristicamente codificada, presente em especial pela forma como a narrativa se constrói internamente e externamente – afinal, é possível encarar o filme como uma grande alegoria.

Não é por acaso que Diaz e Vieira são colocados como as pontas do cabo de guerra mental de Paulo: estabelecendo-os como opostos, aproxima-se da realidade de discrepâncias ideológicas. O curioso, porém, é retratar que, mesmo opostos, em alguns pontos, eles se igualam em sua visão do povo como uma massa de manobra que deve, acima de tudo, permanecer calada. Colocar Paulo no meio desses dois pontos de vista tão distintos, mas internamente tão semelhantes, retrata com alguma imparcialidade a culpa de ambos os lados no que consta da falta de cumprimento da função primordial do governante, que é governar para o povo.

Tomando de um enquadramento que é inseparável do retrato da política latino-americana, Terra em Transe é um filme que narra criticamente sobre a realidade política da época e, por meio do delírio e do espelhamento de extremos distintos, torna-se atual, um presságio correto da estagnação social e política brasileiras, uma terra estática em um transe que não parece capaz de mudar.

Referências

LUKÁCS, G. História e consciência de classe. Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

NEXO JORNAL. Os 50 anos de ‘Terra em Transe’. YouTube, 06 set. 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?time_continue=245&v=Y7ZqwzbdHkM>. Acesso em: 17 jun. 2018.

SANTIAGO, Luiz. Crítica Terra em Transe. Disponível em: <http://www.planocritico.com/critica-terra-em-transe/>. Acesso em: 08 jun. 2018

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