RESENHA: O SOL É PARA TODOS (1960)

Ítalo Calvino, importante escritor italiano, apresenta em seu livro Por que ler os clássicos, várias tentativas de definições do que são livros clássicos e uma delas chama atenção:

“Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer.”

Nesse sentido, uma literatura clássica é aquela que, mesmo depois de anos, permanece tão atual quanto era na época de sua publicação. Ainda que o texto retrate uma época histórica diferente da nossa, os conflitos ali apresentados, as características marcantes dos personagens e até mesmo a mensagem que o autor pretende passar, explicita ou implicitamente, permanecem, se não inalterados, adaptáveis a nossa atualidade. E é exatamente o que vemos em O sol é para todos, clássico da literatura estadunidense, escrito por Harper Lee e publicado em 1960.

oseptNo início dos anos 30, a cidade de Maycomb, pequeno município do Alabama, sul dos Estados Unidos, é o cenário perfeito para uma infância repleta de aventuras e descobertas. Lá conhecemos Jeremy Atticus Finch e Jean Louise Finch ou, respectivamente, Jem e Scout, filhos de Atticus Finch advogado e respeitável membro da comunidade de Maycomb. A história narrada por Scout, nos apresenta a rotina dos moradores de uma cidade pacata, as férias de verão dos irmão com o melhor amigo deles, Dill, e as aventuras vividas por eles ao tentar desvendar os mistérios da Residência Radley. Porém, toda essa suposta tranquilidade é posta à prova quando Atticus decide ser responsável pela defesa de um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca.

A história nos é narrada por Scout, principal personagem feminina da trama e que contrasta diretamente com tudo o que é esperado de uma menina daquela época. Com seu temperamento forte e atitudes que beiram a brutalidade, Jean Louise é o elemento conflituoso que desafia os padrões impostos por uma sociedade marcadamente machista e preconceituosa. Ela se veste como um menino, brinca e briga como um menino e se enfurece com a possibilidade de um dia vir a ser como todas as outras mulheres de sua cidade. Além disso, sua curiosidade pelo novo a leva a enxergar o mundo atrás de um olhar atendo e acolhedor, pois tudo que representa o novo ou o diferente é considerado por ela uma empolgante possibilidade de conhecimento.

A construção dos personagens dentro de O sol é para todos é realmente algo admirável, pois refletem uma sociedade marcada pela presença masculina e pelo assombro que tudo o que é novo e diferente podem trazer a uma cidade que preza pela tradição. É a partir do contraste da construção dos personagens que os conflitos vividos na época vão sendo explorados na narrativa. Dois bons exemplos disso são Jem e Dill.

Jem é o arquétipo do filho primogênito que sonha seguir os passos do pai e que, por ocupar a posição de irmão mais velho, se sente superior e por vezes mais inteligente que a irmã. Por diversas vezes nos deparamos com Scout sendo chantageada e coagida pelo irmão, que se vale do fato de ser menino e mais velho, para controlar as atitudes da irmã. Porém, é justamente essa última característica que faz de Jem o principal protetor da irmã nos momentos em que a sensibilidade e o medo da menina são expostos.

Já Dill, um menino que vem de uma cidade maior que Maycomb e que se vangloria por sempre ir ao cinema, representa a primeira chegada do novo. A partir do encontro dos três vemos um triângulo ser formado na narrativa. Ao mesmo tempo que Dill representa para Jem a figura masculina que o menino tenta encontrar na irmã, para Scout, o estranhamento com a presença de uma figura masculina não ligada a ela por meio de laços familiares, representa o primeiro elo com o mundo feminino que ela não consegue ignorar.

A partir da amizade formada entre as três personagens somos levados a nos aventurar juntos com eles na tentativa de desvendar o mistério da Residência Radley, uma das casas da vizinhança. A residência Radley assombra o imaginário das crianças que acreditam que dentro dela está Boo Radley, um rapaz tido como problemático e que, após cometer um ato que “manchou” o renomado nome da família Radley, nunca mais foi visto por ninguém.

“A velha casa estava igual, sombria e feia, mas enquanto olhávamos para ela, tivemos a impressão de ver um movimento em uma das cortinas. Um movimento, leve, quase imperceptível, e a casa continuou quieta”. P25

Somos conduzidos por esse mundo de aventuras e descobertas até nos depararmos com o momento mais emblemático da narrativa: o julgamento de Tom Robinson, homem negro acusado de estuprar uma mulher branca em uma cidade e época em que os negros eram vistos como indesejados. E é a partir desse acontecimento e dos eventos que o seguem (a ida das crianças a igreja dos negros, a reação das pessoas perante o posicionamento de Atticus e o julgamento em si), que as crianças e, principalmente, Jean Louise são confrontadas a perceber e a compreender como as diferenças são vistas dentro daquela sociedade tão conservadora.

O sol é para todos é um livro que trata do amadurecimento e de um assunto tão denso quanto o racismo de uma forma sensível e madura. A obra nos apresenta uma proposta de pensar o outro a partir do nosso olhar, seja esse outro um igual que apresente características não compreendidas (Boo Ridley) ou alguém diferente, mas que representa uma luta que no fim é a mesma que todos lutamos (Tom Robinson). A busca por sermos vistos como humanos. E é justamente lançando mão do olhar inocente de uma criança, que a autora nos conduz por um caminho de amadurecimento e de humanização que serviu aos anos 60 e que nos é tão caro ainda hoje.

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