CRÍTICA: PANTERA NEGRA (2018)

Uma das grandes surpresas das indicações para o Oscar de 2019 foi “Pantera Negra”. Pela primeira vez, um filme baseado em um super-herói de quadrinhos não se limitou apenas às categorias técnicas e foi indicado ao prêmio de Melhor Filme. Além de ser um marco importante para a união Marvel-Disney, o fato de o elenco ser majoritariamente composto por atores negros, uma novidade no mundo das adaptações de quadrinhos, tornou essa indicação ainda mais histórica.

Na tela, acompanhamos a história de T’Challa (Chadwick Boseman), o monarca do altamente rico e tecnológico reino de Wakanda, um país africano fictício que fica oculto e isolado do resto do mundo. Ele, munido de superpoderes concedidos por uma planta e o traje de Pantera Negra, se vê obrigado a entrar em conflito com Killmonger (Michael B. Jordan), uma ameaça à paz e aos segredos do reino.

O diretor e roteirista Ryan Coogler (que dirigiu “Creed” em 2015), é primeiro ponto a se destacar aqui. O modo como o roteiro nos apresenta os detalhes convida o espectador a mergulhar naquele universo, despertando nosso interesse pelo modo como aquela sociedade se organiza. Outro ponto forte de Coogler é como ele consegue dar profundidade e motivações plausíveis para os personagens, ninguém, herói ou vilão, é cartunesco ou unidimensional. Há um compromisso da direção em, mesmo em um ambiente fantasioso, trazer características bastante realistas e convincentes.

bl - cBoa parte do sucesso desta construção de personagens está na ótima escolha de elenco. Boseman abraça o personagem principal com unhas e dentes, conseguindo evocar não somente a figura heroica como também o peso de ter que lidar com as responsabilidades do governo de um país. Jordan é grande destaque na atuação, seu personagem tem várias camadas e é bastante complexo, mas o ator consegue administrar todos os elementos da personalidade de Killmonger de uma forma com que consigamos até sentir empatia pelo vilão. Lupita Nyong’o, como é de se esperar, está excelente de novo. Mesmo não tempo tanto tempo de tela, a atriz ainda conseguir fazer sua personagem brilhar. Danai Gurira, que interpreta a líder das Dora Milaje (grupo de guerreiras protetoras do rei), traz a força e lealdade necessárias em suas cenas. Letitia Wright, como Shuri (irmã de T’Challa) é a surpresa mais agradável do filme, trazendo um humor e leveza que, ao invés de contrastar, equilibram o tom da a trama. Angella Basset, Daniel Kaluuya, Forest Whitaker, Winston Duke, Martin Freeman e Andy Serkis também são destaques positivos na atuação.

Entretanto, o maior destaque do filme aparece no design de produção e no figurino, ambas categorias nas quais “Pantera Negra” foi justamente indicado ao Oscar. A questão da representatividade negra não aparece somente no roteiro e na escolha do elenco, toda a construção de Wakanda reflete isso. A mistura de tecnologia avançada com elementos tradicionais africanos, pontos que a princípio imaginaríamos serem opostos, são maravilhosamente harmonizados, desde os maiores arranha-céus até as vestimentas e acessórios dos personagens. Em nenhum momento há a impressão que estamos em uma metrópole europeia ou americana, mesmo com toda a modernidade e grandiosidade a direção de arte faz questão de deixar bem explicito que estamos na África.

Ainda há que se destacar a trilha sonora e a música original “All the Stars” de Kendrick Lamar e SZA (mais indicações ao prêmio da Academia), que complementam muito bem a experiência. O filme só erra em alguns efeitos especiais que ficaram aquém do padrão Marvel-Disney atual, principalmente no terceiro ato. No entanto, esses problemas não atrapalham o resultado final, que evidencia toda seriedade, criatividade, inteligência e dedicação colocadas no filme.

O sucesso de crítica e público, e agora as indicações ao Oscar, não foram por acaso. Uma representatividade vazia e fraca não geraria toda essa identificação, um roteiro bem construído dentro de um contexto interessante, trazendo personagens humanos e bem trabalhados sim. “Pantera Negra” prova que um filme de herói não precisa se render a estrutura formuláicas, engessadas e sem profundidade, e que é possível trazer, sim, uma história com várias camadas, representatividade e fortes impactos no público. O filme de Coogler não só merece as indicações como, também, todos os prêmios que ganhou e possivelmente ganhará.

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