RESENHA: OBJETOS CORTANTES (2006)

Se o papel da literatura é trazer uma reflexão sobre a realidade, esse livro cumpre seu papel nos mostrando como as relações que vivemos na infância e com a família podem nos marcar e trazer problemas psicológicos que nos acompanharão em todas as relações e por toda a vida. Objetos Cortantes, primeiro livro de Gillian Flynn, publicado em 2006 e traduzido para o Português Brasileiro em 2015, é uma narrativa de mulheres intensas.

A narrativa tem início com o assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra em Wind Gap, distrito da Pensilvânia. Camille trabalha para um jornal em Chicago e não vai à sua cidade natal há muitos anos, mas, diante dos acontecimentos recentes, precisa voltar a pedido de seu editor para cobrir as investigações para o jornal. A partir de então, o enredo se desenrola de forma linear, mas é esporadicamente cortado por lembranças do passado. O livro traz a história das três personagens Camille, Adora e Amma que têm tudo para serem mulheres perfeitas para o padrão daquela cidadezinha: ricas, lindas e inteligentes, mas elas estão muito longe da “perfeição” e os problemas da família são peculiares.

canecasCamille, por mais doce que pareça por trás de suas roupas longas, esconde um segredo. Adora, mãe de Camille, Marian e Amma, aparenta ser a esposa e mãe perfeita que, após ser abalada pela morte de Marian, tornou-se uma mulher frágil e extremamente atenciosa com as crianças, porém não é capaz de amar a filha Camille. Amma tem 13 anos e é uma criança exemplar dentro de casa, se veste como uma princesa e passa o tempo brincando com sua casinha de bonecas, recebendo atenção e cuidados exagerados de sua mãe, mas quando sai de casa se comporta como uma mulher completamente maliciosa.

Adora, que achava não ser amada por sua mãe, idealizou sua primeira filha, Camille, mas, como suas expectativas não foram supridas, ela não conseguia a amar. Em seguida, sua segunda filha morre quando ainda era criança e nem ela e nem Camille conseguem superar a perda. Adora se torna excessivamente protetora de sua filha caçula Amma e tenta desesperadamente ajudar na vida de outras garotinhas que vivem na cidade, como uma forma de suprir a ausência de sua filha falecida Marian.

Camille, com seus problemas mentais e os traumas que a regulam, sempre busca um escape na dor física para suprir os problemas psicológicos que vivia no relacionamento conturbado que tinha com sua mãe. Tudo isso faz da narradora uma mulher infeliz e marcada por relacionamentos conturbados com homens e, principalmente, com bebidas alcoólicas. A narração em primeira pessoa nos deixa envolvidos com a repórter, nos permite compreender suas atitudes, como os problemas com o alcoolismo, que voltam depois de meses sóbria, servem para aliviar a pressão que sente por estar naquela cidade e, sobretudo, perto de sua mãe. A forma como a escrita é conduzida também nos permite sentir empatia pela personagem e tentamos compreender e entender até onde os traumas vividos na infância e na adolescência podem afetar a vida de uma pessoa.

Quando Camille retorna à cidade para a investigação do assassinato e desaparecimento da garotinha, ela precisa relembrar momentos de sua infância e adolescência. Todos os momentos em que ela se encontra com suas colegas de escola é sempre desconcertante, elas falam sobre seus filhos e maridos em todo o tempo, o que sempre a deixa constrangida, pois ela percebe que não pertence mais àquele lugar. A presença de Adora é sempre indelicada, pois todas as vezes que aparece ela pede à filha que não faça o seu papel de repórter, isso a deixa envergonhada diante das outras pessoas. Todas as vezes em que sua mãe tenta impedir as investigações desperta no leitor a vontade de acompanhar cada vez mais o desfecho dos fatos. Além de Adora, muitas pessoas atrapalham os depoimentos e outras fazem comentários maldosos sobre as garotinha, proporcionando que cada hora imaginemos um suspeito diferente.

Amma vai pelo mesmo caminho de sua mãe e irmã, desenvolvendo transtornos mentais. Observamos como uma adolescente problemática pode ser cruel e manipular as pessoas. Enquanto Camille sempre foi a abusada na maioria dos seus relacionamentos, Amma com apenas treze anos consegue impor suas vontades a todos que a cercam e faz isso da forma mais cruel possível, como pode-se observar no trecho a seguir:

“— Algumas vezes, se você deixa as pessoas fazerem coisas a você, na verdade você que está fazendo a elas — disse Amma, tirando o outro pirulito do bolso. Cereja. — Entende o que quero dizer? Se alguém quer fazer coisas esquisitas com você, e você permite, você as torna mais perturbadas. Então você tem o controle. Desde que não enlouqueça.” P186

Atenção! Os trechos a seguir contém spoilers.

As palavras e a escrita aparecem fortemente na obra de Flynn diante de uma construção elaborada. Camille, desde muito nova, gosta de registrar momentos e sentimentos por meio da escrita. Sempre andava com um bloquinho a mão, com o passar do tempo começou a escrever em seus braços, pernas, e por cima das roupas em que usava. O que era uma mania começa a alcançar uma proporção mais séria e, aos treze anos, ela começa a escrever em seu próprio corpo com objetos cortantes. Palavras como vadia, lixo, bomba, pequena marcam o corpo de Camille fazendo com que ela nunca se esqueça dos momentos sombrios. No decorrer da narrativa, quando a narradora nos conta situações em que está vivendo e que está pensando, algumas palavras aparecem em destaque no texto, nos levando a perceber que estão em destaque não só nas emoções, mas em seu corpo.

Outro ponto a ser notado é que a narrativa só tem começo porque uma jornalista precisa escrever sobre um fato ocorrido, tudo o que vem de impactante depois disso está escrito. Escrito na carne de Camille, nas reportagens do jornal, em documentos sigilosos, em diários secretos. Envenenamentos são escritos, suspeitas são escritas, nomes de pessoas que a marcam de forma positiva e negativa, tudo está escrito, assim como a história que nos é contada.

A investigação que inicia a história funciona como um ponto de partida do enredo e, rapidamente, nós sentimos interesse e empatia à personagem de Camille do que a qualquer outra personagem, mas, ao longo da narrativa, todas as pistas vão se cruzando, as suspeitas são perturbadoras, e o final é realmente surpreendente. A obra aponta assuntos complexos, como as relações na adolescência, sexo e drogas, mas também delicados, como a falta de amor entre mãe e filha. Temas reais, como mulheres sendo comparadas a outras todo o tempo, e tristes, ao abordar a origem familiar dos distúrbios mentais também são abordados. Objetos Cortantes é uma obra sobre mulheres intensas e frágeis construídas por meio de uma narrativa forte e sensível.

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