RESENHA: VÁ, COLOQUE UM VIGIA (1960)

Nada pode deixar o fã de uma obra (filme, série ou livro) mais animado do que o anúncio da continuação de uma história que conquistou o seu carinho e admiração. E não foi diferente com Vá, coloque um vigia. Segundo livro de Harper Lee, a obra, publicada 50 anos após a publicação do primeiro livro da autora, surge com a proposta de ser a continuação de O sol é para todos (já resenhado aqui). Em meio a várias polêmicas envolvendo sua publicação, como o estado de saúde da autora e até mesmo controvérsias quanto a sua autoria, Vá, coloque um vigia é um livro que dividiu e continua dividindo opiniões.

20 anos após viver as aventuras narradas em O sol é para todos, Jean Louise, agora vivendo em Nova York, retorna à Maycomb para visitar seu velho pai, Atticus Finch. Porém, o que deveria ser uma agradável viagem de férias, permeada pela nostalgia das lembranças vividas por Jean Loiuse e seus amigos de infância, se torna uma impactante viagem ao passado. Descobertas importantes sobre sua família e cidade irão ajudar a desconstruir imagens antes idolatras pela jovem e, ao mesmo tempo que um presente conflituoso se apresenta diante de Jean Louise, são as lembranças do passado e os diálogos importantes com seu querido tio Jack que ajudam a jovem a encarar uma dura realidade: todos estamos sujeitos a escolhas erradas.

0e51315c-c3a2-4429-8562-1d8e8e43cec9Diferente da obra que o antecede, a narrativa construída em Vá, coloque um vigia nos é apresentada a partir de um olhar desenvolvido em terceira pessoa. Essa estratégia narrativa, em particular, tende a nos afastar um pouco da subjetividade de Jean Louise e nos força a ver o mundo dela e as mudanças que acontecem a sua volta, a partir de uma outra perspectiva. Perspectiva essa que nos permite experimentar os sentimentos e pensamentos de todos os personagens da obra e assim encontrar meios de entender as escolhas feitas por eles.

Novamente, assim como aconteceu em O sol é para todos, vale destacar a construção dos personagens e o impacto disso na narrativa como um todo. O principal movimento que podemos perceber é a desconstrução de imagens antes estabelecidas e mais uma vez um reforço de estereótipos que demarcam bem a época e o lugar de onde a história é contada. Ainda que Jean Louise permaneça com suas características marcantes como a sensibilidade e a subversão do padrão feminino da época (aos 26 anos ela mora sozinha em Nova York para estudar e se recusa a casar e se tornar uma dona de casa), outros personagens sofrem mudanças muito significativas.

O principal deles é Atticus Finch, pai de Jean Louise e Jem. Atticus, uma imagem marcante na infância de seus filhos e principal motivo das mudanças no modo como eles viam o mundo. Vem dele a principal e mais triste surpresa de Jean Louise, que vê o herói de sua infância ser reduzido a um mero ser humano, com seus defeitos e escolhas que fogem a compreensão da jovem.

“o único ser humano no qual ela confiava completamente, com toda sua alma, a decepcionara.”. p105

Outros personagens são introduzidos na narrativa e alguns recebem um desenvolvimento mais aprofundado. Caso de tia Tia Alexandra que, em decorrência do estado de saúde do irmão, Atticus, passa a viver na casa dele e a educar as crianças. Calpúrnia, uma negra, descendente de escravos e que trabalhava para a família Finch há muitos anos, é mais uma personagem com maior desenvolvimento na trama. Porém, o mesmo não acontece com outros de extrema importância na infância de Jean Louise, como Dill, que é trazido a essa nova narrativa apenas por meio de lembranças da infância.

Tio Jack é o maior destaque. Excêntrico e conhecido por sua erudição, o personagem se mostra essencial no caminho de buscar por respostas traçado por Jean Louise. A partir das desconstruções de imagens e valores que vão sendo feitas ao longo da história, tio Jack funciona como uma espécie de mentor. Ele confronta Jean Louise o tempo todo, seja por meio de alusões históricas, literárias ou até mesmo políticas, tudo com o intuito de mostrar à garota a importância de entender o passado para compreender o presente em que se encontra.

Ainda que tenha uma construção agradável à leitura e conte com elementos reflexivos importantes, Vá, coloque um vigia possui detalhes que tendem a decepcionar muitos fãs que aguardaram ansiosamente pelo retorno das crianças de Maycomb. Retomadas de questões que já haviam ficado bem esclarecidas no primeiro livro podem fazer a leitura ser um pouco cansativa no começo, além da introdução de personagens situados em momentos que não condizem com a linearidade da história. Esses e outros detalhes nos fazem perceber uma incômoda incoerência entre Vá, coloque um vigia e o clássico que cativou e ainda cativa milhares de leitores ao redor do mundo.

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