SÉRIE: COMMUNITY (2009 – 2015)

O mundo das sitcons é, no mínimo, um lugar injusto. Um lugar onde a repetição e imbecilidades são recompensadas com milhões e milhões e milhões de dólares além das várias e incansáveis renovações de séries que, na melhor das hipóteses, tiveram duas ou três temporadas medianas, seguidas por muitas outras engessadas na fórmula bem-sucedida moldada por produtores-empresários nos primeiros anos de exibição. Dito isso, é evidente que o problema não está na conquista de sucesso dessas séries, mas sim na zona de conforto criada por esse sucesso. Chuck Lorre, criador de “Two and a Half Men” e “The Big Bang Theory”, entre outras atrocidades semelhantes, sabe muito bem disso, uma vez que suas produções são, muito provavelmente, inspiradas no Dia da Marmota. E Bill Murray desaprovaria.

Entretanto, em um canto obscuro qualquer, pouco explorado e reconhecido dos confins da TV norte-americana, residem produções criativas e inovadoras, cuja qualidade é grande demais para o pequeno público que possui ou possuiu. Uma dessas é Community, criada por Dan Harmon e que enfrentou diversas peripécias em sua trajetória de renovação e cancelamento no decorrer das temporadas. Community, nesse aspecto, foi consistentemente uma série emocionante, sempre na berlinda dos possíveis cancelamentos até que, de fato, na quinta temporada, fora cancelada pela NBC, para pouco tempo depois ser resgatada pelo serviço de streaming do Yahoo para sua última temporada.

CommunityNo entanto, essa consistência no emocional dos fãs da série causado pelo medo de cancelamento não permanece quando analisada a qualidade das temporadas. A, até hoje, maior criação de Harmon (me desculpem fãs de Ricky and Morty, mas você leu corretamente), estreou na televisão em 2009 com um piloto que pouca novidade trazia, entretanto já havia ali pistas da série que se tornaria com o tempo. As personagens, naquele momento, ainda não possuíam as características que as fizeram tão emblemáticas no passar dos anos. Troy (Donald Glover – também conhecido no mundo da música como Childish Gambino), por exemplo, ainda não possuía a bem-sucedida química com Abed (Danny Pudi), que foi responsável pelos momentos mais memoráveis da série. Mais ainda que esses, Britta Perry (Gillians Jacobs) era apenas um protótipo do que viria a ser. Essa personagem é, definitivamente, a que mais sofreu alterações. No piloto, Britta é a bússola de sobriedade em meio a toda a esquisitice dos demais. A personagem foi apresentada como sagaz, debochada e inteligente, para depois se tornar uma sátira de si mesma. Essa descrição pode parecer negativa, mas por incrível que pareça, não é. Ambas as abordagens da personagem fazem sentido nos contextos dos episódios e são complementares. Britta nunca perde a sagacidade da primeira temporada, mas ganha outros traços que a tornam, em alguns episódios, o foco das piadas e, por consequência, a parte mais engraçada de muitos episódios.

Além de Troy, Abed e Britta, a formação original do elenco principal da série conta ainda com Jeff Winger (Joel McHale), o protagonista falho, mentiroso e egoísta que se passa por fluente em Espanhol e inventa um grupo de estudos para impressionar seu interesse romântico, Britta. Porém, essa mentira se espalha e chega aos ouvidos de Abed e Troy, mas também de Pierce Hawthorne (Chavy Chase), um velho preconceituoso e multimilionário que está na faculdade há anos sem conseguir (ou querer) se formar, Shirley Bennett (Yvette Nicole Brown), uma mãe extremamente religiosa que decidiu voltar aos estudos para abrir seu próprio negócio e, por fim, Annie Edison (Alison Brie), uma boa aluna, aparentemente certinha, mas controladora que se viciou em Adderall para conseguir estudar melhor no Ensino Médio.

O grupo de estudos é o coração da série. A interação entre essas pessoas tão diferentes é o que cria um leque tão grande de piadas. Cada personagem traz, em suas características, um assunto para que os roteiristas possam fazer humor: Shirley traz a religião (cristã), Pierce traz o preconceito, Troy a ingenuidade, Britta a problematização desmedida, Jeff a falta de caráter, Annie a falta de experiência e também a religião (judaica), e Abed a metalinguagem, o maior charme de Community.

Metalinguagem, na TV e no Cinema, é uma técnica capaz de fazer comentários sobre e na própria linguagem usando ela mesma, por exemplo: Abed, em diversas ocasiões, tem consciência de que é uma personagem em um programa de TV e verbaliza comentários em forma de piadas sobre isso. Entretanto, os roteiristas não se limitam apenas a fazer comentários verbais sobre metalinguagem, há também – e é aqui que a série se torna grandiosa – marcas não verbalizadas dessa técnica, e sim audiovisuais. Community é capaz de fazer isso, principalmente, por meio de seus (muitos) episódios de gênero, como os especiais de Paintball, inclusive com um deles fazendo uma mistura de elementos de faroeste com os de ficção científica. Uma cena que descreve bem essa ideia é quando Shirley é eliminada da competição de Paintball depois de tomar um tiro e, deitada no chão, diz para Britta que “é hora de ir para casa”. Nesse momento, a câmera, que a enquadra de cima, começa a subir, sugerindo a morte, a alma saindo do corpo e ascendendo aos céus. Entretanto, esse clima é logo quebrado com outra fala em que Shirley diz que precisa de ajuda para se levantar e ir para casa porque já está tarde e ela tem que cuidar dos filhos. A direção dessa cena demonstra um refinamento dificílimo de se encontrar em sitcons, o que diferencia Community das demais, colocando-a em um lugar de destaque perante as suas concorrentes.

O impressionante é que esses momentos de direção de cena não são exceções na série, mas sim a regra principal. Community não é pensada estilisticamente como uma sitcom preguiçosa filmada com diversas câmeras simultâneas sem nenhuma preocupação com a linguagem do audiovisual, muito pelo contrário, a série explora a linguagem cinematográfica melhor do que muitos filmes lançados para o Cinema. E a linguagem não é o único aspecto narrativo explorado a fundo, são também os diversos gêneros cinematográficos. Além da ficção científica e do faroeste já citados, há diversos outros gêneros e subgêneros satirizados por Community, como o terror, nos episódios de Halloween; mistério, no episódio em que Jeff finge estar matriculado em uma aula de conspirações americanas; a ação e a aventura, como no episódio de despedida de Troy no qual as personagens não podem pisar ou tocar no chão devido ao jogo de crianças “O Chão é Lava” e diversos outros. Há inclusive um excelente episódio de estudo de personagens em que Abed finge não gostar mais de TV, Cinema ou qualquer tipo de cultura pop, para ter uma conversa, a primeira conversa real de sua vida com Jeff. Ambas as personagens se desenvolvem de uma forma completamente inusitada e cativante para no final do episódio voltarem à estaca zero, quebrando a expectativa do público com a revelação de que era outra tentativa de metalinguagem realizada por Abed ao reencenar um filme pouco conhecido dos anos 80.

Community foi uma série sólida até metade de sua primeira temporada e genial até o final da terceira. Com a saída de Dan Harmon da equipe criativa, a quarta temporada sofreu um forte baque, perdendo muito do que a fazia diferente das demais. Mesmo com a volta do showrunner para as duas últimas, a série nunca conseguiu se reerguer completamente. As saídas de Donald Glober, Chevy Chase e Yvette Nicole Brown foram também muito sentidas, as novas personagens não foram capazes de substituir o carisma das que deixaram o programa, deixando uma sensação falta em alguns momentos. Mesmo com todos esses problemas nas duas últimas, há sim excelentes episódios que trazem de volta o sentimento dos tempos áureos da série, servindo como a quantidade exata de combustível que nos faz chegar até o fim… Ou será que ainda não vimos o fim, Reggie?

#andamovie.

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