CRÍTICA: NASCE UMA ESTRELA (2018)

“A Star Is Born” (Nasce Uma Estrela, 2017), primeiro filme de Bradley Cooper como diretor, conta a história do músico de country Jack (Cooper), que conhece Ally (Lady Gaga) em uma performance musical amadora em um bar qualquer. Jack vê em Ally uma estrela em potencial. Dessa dinâmica, os roteiristas Eric Roth e o próprio Bradley Cooper tentam contar uma história de ascensão e declínio profissional, porém a ideia acaba sendo melhor do que o resultado.

O roteiro não consegue sustentar de maneira satisfatória a trajetória de ascensão de Ally por um simples motivo: não há tempo de tela o suficiente para nos importarmos com seu arco dramático. Esse é um problema grave, pois muitos dos momentos chave da trajetória da personagem acontecem fora da projeção e são contados para o espectador em forma de exposição, e às vezes nem isso. O caminho de Ally do anonimato ao sucesso deveria ser um dos focos narrativos, mas é apresentado de maneira fragmentada e, por vezes, aleatória, cabendo ao espectador preencher as lacunas, o que não seria um problema se as informações necessárias estivessem em tela.

A Star is BornPor outro lado, a trajetória narrativa de Jack é bem construída. Sua primeira cena é em um concerto lotado, representando todo o sucesso profissional da personagem. São apresentados também, logo após esse concerto, os problemas que ele possui com o álcool, razão pela qual, ironicamente, ele conhece Ally. É irônico porque há um exercício interessante feito no filme, em que o alcoolismo de Jack o leva para o abismo, mas, ao mesmo tempo é, de certa forma, responsável pelo descobrimento de Ally. É devido à vontade de beber de Jack que ele acaba parando naquele bar qualquer logo na noite em que ela se apresentaria. Há inclusive, logo antes dessa cena, quando Jack ainda está em seu carro, um prenúncio visual na mise-en-scène sobre o desfecho do arco narrativo de Jack.

Essa cena é, inclusive, um ponto importante a se discutir sobre o filme. A construção da narrativa visual de Cooper é, ao mesmo tempo, um ponto positivo e negativo. Há cenas em que o estilo empregado pelo diretor é fundamental para a imersão do espectador na história. Um exemplo é a cena final de Jack, em que o diretor escolhe retratar a personagem apenas da cintura para baixo, para enfatizar os objetos simbólicos presentes na cena sem fazer uso de planos detalhe. Essa foi uma escolha inteligente e criativa do diretor, que em contrapartida, seguiu em frente com a cena da apresentação de Ally no Saturday Night Live, que, em vez de funcionar como uma sátira aos “artistas” pop, funciona mais como uma sátira de si mesmo, pois não há construção na trajetória de Ally para culminar naquele momento, fazendo o tom discrepar do restante do filme. O resultado é uma cena de comédia involuntária jogada no segundo ato sem a devida construção que levaria a esse resultado.

A montagem do filme é outro quesito que não se decide se é genial ou estúpida. Como discutido anteriormente, os saltos temporais acontecem em momentos chave para a história, deixando-a cheia de lacunas e incoerente. Entretanto, há um corte da última apresentação de Ally no filme que é arrebatador, sendo responsável pelo único momento genuinamente emocionante do filme em relação ao casal.

Casal esse que, por sua vez, mesmo com a evidente química entre Cooper e Gaga, não ressoa em um nível emocional com o espectador por não haver cenas o suficiente entre ambos. Dessa forma, o relacionamento parece sem explicação e empurrado goela abaixo para quem assiste.

Outra cena em que não há uma justificativa plausível é primeira performance de Ally ao lado de Jack. Essa acontece logo no dia seguinte depois da primeira vez que eles se viram e, principalmente, logo depois da primeira vez que Jack ouviu Ally cantar uma música autoral (em um estacionamento no meio da madrugada), ambos bêbados e – provavelmente – cansados. Contudo, esse não é um problema para que Jack suba no palco, junto a sua banda e, posteriormente a Ally, para apresentar a canção autoral da moça sem ensaio ou qualquer tipo de preparação. Não é necessário ser um gênio ou grande conhecedor do meio musical para saber que seria impossível alcançar uma boa performance nessas condições. Essa cena, logo no início e tão importante para o desenrolar da narrativa, quebra o pacto ficcional estabelecido com o espectador devido à falta de verossimilhança.

Enfim, Nasce Uma Estrela, é um filme que fica no meio do caminho em vários aspectos. O roteiro não convence e a montagem, com exceção de duas cenas, não é boa. O que se salva são as atuações, nesse quesito Bradley Cooper mostrou-se um excelente diretor. Lady Gaga e Sam Eliot estão excelentes em seus papéis, mas o destaque ainda fica para Cooper, que entrega uma atuação real, forte e, inclusive, diminui o tom de sua voz para entrar de vez no personagem. Bradley Cooper, por conta de todo seu envolvimento e paixão pelo projeto, merece todo o reconhecimento. É a real estrela do longa.

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