CRÍTICA: ALITA: ANJO DE COMBATE (2019)

Adaptações cinematográficas de obras japonesas feitas pelo ocidente sempre são alvo de muita polêmica. A maioria dos casos são desastrosos, como “Dragon Ball Evolution” de 2009 e “Death Note” de 2017, fazendo com que público fique com um pé atrás toda vez que algo do gênero é anunciado. No entanto, James Cameron, um dos cineastas mais bem sucedidos de Hollywood, resolveu assumir a produção da versão cinematográfica de “Gunnm”, mangá de Yukito Kishiro lançado em 1990, tentando quebrar esse estigma.

A história começa quando o Dr. Ido (Christoph Waltz), um cirurgião de próteses mecânicas, encontra em um lixão a cabeça e o tronco de um robô humanoide. Ao perceber que dentro daquela carcaça havia um cérebro humano ainda vivo, ele resolve reconstruir o copo da ciborgue. Alita (Rosa Salazar), como ele a nomeia, não tem lembranças da sua vida anterior, mas descobre, durante um confronto com assassinos, que tem habilidades instintivas de artes marciais e vai usar isso para ir atrás do seu passado e dos criminosos daquela cidade.

AlitaA trama não chega a ser profunda e filosófica da forma que são as tradicionais ficções científicas cyberpunks japonesas como “Akira” e “Ghost In The Shell” (outra obra equivocadamente adaptada pelo ocidente), e segue um caminho muito mais genérico, focado na ação e no mistério envolvendo o passado da personagem título. Talvez isso tenha facilitado a criação do roteiro, escrito por Cameron, Laeta Kalogrids e pelo diretor do filme Robert Rodriguez, tornando o filme mais palatável ao público ocidental sem perder a essência da obra original.

Quanto ao exercício de adaptação, as mudanças em relação ao mangá foram positivas se levarmos em conta o resultado final. A relação entre Ido e Alita, por exemplo, no filme a construção tem um teor mais familiar entre pai e filha, parecido com o que foi feito em “Astro Boy”, mangá de 1952 escrito e desenhado por Osamu Tezuka. Já obra original, a relação entre os personagens é de criador e criatura. Isso é refletido na justificativa da escolha do nome Alita para a ciborgue, na obra original, Ido escolhe esse nome em referência ao seu gato de estimação que havia morrido um ano antes, enquanto na adaptação o motivo é que este era o nome de sua filha que foi assassinada. Tal mudança mostra que os envolvidos se preocuparam em fazer com que a história tivesse um apelo emocional mais estabelecido, o que ressoa melhor com o público ocidental.

Já os aspectos visuais são o ponto alto do filme. Cameron não dá ponto sem nó quando se trata de uma produção deslumbrante. A trama se passa em mundo futurístico que foi devastado por uma guerra há 300 anos, tudo o que restou foi uma cidade flutuante chamada Zalem, onde mora a elite daquele universo, e a Cidade de Ferro, lugar onde os trabalhadores residem e onde a história é ambientada. A construção do cenário, que mistura ruinas e modernidade, além da opção por tons terrosos no esquema de cores, contrasta perfeitamente com a magnitude e imponência com que Zalem é vista, de baixo para cima, pelos habitantes terrenos. A ideia de uma opressão e disparidade de classes se tornam bem autoexplicativas por meio dessa ambientação, o que por um lado é bom, mas também acabou tornando alguns diálogos demasiadamente expositivos.

A maioria das obras nipônicas que chegam ao ocidente geralmente equilibram ação violenta com um clima juvenil. Robert Rodriguez já andou por esses dois caminhos, fazendo filmes infanto-juvenis como “Pequenos Espiões” (2001) e de ação sanguinária como “Um Drink no Inferno” (1996). Talvez por isso ele tenha sido a melhor escolha para direção do filme uma vez que consegue trazer com maestria essa dualidade que também está presente no mangá. O diretor também capricha nas cenas de luta. Além de bonitas visualmente, são emocionantes e engajantes e também ditam o ritmo do filme fazendo com que nenhum dos três atos seja entediante. Algo que ajuda bastante nessas cenas é o CGI bem feito dos personagens ciborgues, todos feitos por captura de movimentos.

            Já o elenco se divide em boas e más atuações, porém as boas não chegam a ser impressionantes. Apesar de não aparecer em carne e osso no filme, e sim por voz e captura de movimentos, Rosa Salazar consegue transmitir a jovialidade inocente e a força da personagem principal com destreza. Waltz tem uma atuação contida, mas bastante competente, o ator sabe conduzir muito bem a ideia de um personagem traumatizado e ao mesmo tempo paternal. Ed Skein e Jackie Earle Haley interpretam ciborgues vilões e ambos se saem muito bem nos papeis ameaçadores e raivosos. Esses personagens funcionam bem e são o principal eixo moto da trama.

 Por outro lado, o mais fraco das atuações, começa com Jennifer Connelly, que faz Chiren, a ex-esposa de Ido, que não está mal, mas tem dificuldade em transmitir as motivações da personagem através de suas emoções. Jorge Lendenborg Jr, que é o interesse amoroso de Alita, Hugo, e Marhershala Ali, como Vector, o vilão da história, não se esforçam muito pra fugir do genérico.

Apesar de Cameron e Rodriguez terem conseguido adaptar bem o mangá original para o ocidente, esse ainda não é o filme que vai abrir a porta para boas versões hollywoodianas de obras japonesas. No entanto, mesmo com seus deslizes, “Alita: Anjo de Combate” é um filme divertido de se assistir além de possuir uma cinematografia de encher os olhos.

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