LITERATURA: TRIFLES (1916)

Este texto contém spoilers.

Quando pensamos em peças teatrais somos, imediatamente, guiados pelo percurso shakespeariano que domina agendas culturais desde muito antes do período vitoriano. Dramaturgos como Sófocles e Eurípedes, há mais de 2400 anos, já haviam estabelecido o teatro como parte do mundo dos homens. Esse corpo social ganhava destaque não apenas em relação ao enredo, mas, também, em relação à encenação nas arenas gregas: não era permitido que mulheres atuassem, portanto, homens as representavam em cena. Susan Glaspell, em 1916, nos entrega Trifles, uma peça sobre empatia feminina e ajuda a quebrar esse cenário com uma obra digna de muitas adaptações.

O enredo da obra gira em torno do assassinato de John Wright, que ocorreu em sua própria casa. Após um vizinho, Sr. Hale, encontrar a esposa de John, Minnie Foster, inexpressiva, ele recebe a notícia de que John fora assassinado durante a noite. No dia seguinte, uma busca por evidências é iniciada e somos introduzidos aos demais personagens. É possível dividi-los em dois grupos: o grupo dos homens e o grupo das mulheres. Enquanto os homens buscam por uma motivação raivosa na cena do crime e em todos os espaços da casa – exceto na cozinha – as mulheres, especialmente a Sra. Hale, ganham grande espaço na narrativa quando se prontificaram a defender o espaço de Minnie, viúva de Wright e principal suspeita.

TriflesÉ por meio das lembranças da Sra. Hale que conhecemos a fundo Minnie Foster. A partir de seus relatos no diálogo com a Sra. Peters, é possível estabelecer a imagem do que antes a viúva fora: uma animada cantora com roupas vívidas. Glaspell se apropria de uma simbologia muito forte para construir suas personagens. Com os anos de casamento, a personalidade de Minnie vai sendo tecida e ela se torna cada vez mais solitária e silenciosa. É importante perceber, além disso, como a obra é construída a partir de características sobre a casa em que os Wrights viviam; ela é fria, silenciosa, localizada em um vale fundo e distante da rodovia. Essas características podem funcionar, também, como uma representação da personalidade vigente de Minnie.

Como maneira de suprir sua solidão, Minnie, que não tinha filhos, compra um canário de um vendedor ambulante e estabelece laços com o pássaro. Entretanto, o animal é assassinado e, assim, atua como mais um dos símbolos da peça representando tanto a vida quanto a morte. A vida, um totem dos melhores momentos de Minnie e a morte, por aludir à mortificação da personalidade da viúva, que deixou de ser Minnie Foster para ser Sra. Wright, então amargurada com os rumos de sua vida de casada.

O clímax da história é atingido quando descobrimos que esse canário fora morto nas mesmas condições em que John Wright foi. É aqui que Sra. Peters e Sra. Hale compreendem o que aconteceu e, por compreender a situação vivida por Minnie, as duas mulheres escolhem esconder as evidências por elas encontradas e deixar que os homens continuem a busca.  

Evidentemente, um dos assuntos mais significativos da peça é o próprio título já que Trifles significa ninharia, algo que não tem muita importância. Diante dessa definição, é possível levantar a questão sobre o que de fato não tem importância aqui. Se utilizando do deboche, o Sr. Hale afirma que “women are used to worrying over trifles” (mulheres estão acostumadas a se preocupar com trivialidades – tradução livre) e, enfim, podemos dizer que trifles, na obra, não são entidades sem importâncias, são elementos constantemente silenciados, como a personalidade de uma mulher, como o canto de um pássaro, aspectos emocionais que homens geralmente não se preocupam, talvez por existir uma separação social entre razão e emoção, sendo essa uma característica não pertencente ao masculino.

Grande parte das cenas enunciativas da obra são desenvolvidas por meio das lembranças da Sra. Hale, lembranças que não se concentram apenas em uma data específica ou apresentam uma forma sequencial, ou seja, não existe uma linearidade na peça, existe a construção da Sra. Hale desenvolvendo seu sentimento por Minnie e se arrependendo de não ter sido mais presente. É por pura habilidade de se colocar no lugar de Minnie que Sra. Hale a acoberta. É imprescindível que exista certo tipo de identificação do leitor para com as personagens e o contexto em que elas estão inseridas. A escrita feminina de Glaspell tem grande impacto sobre a questão do não dito, nessa peça, em específico, sobre o silenciamento da mulher.

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