CRÍTICA: GREEN BOOK (2018)

Em qualquer forma de narração, o ponto de vista é fundamental para o sucesso ou não da história. Esse ponto de vista é nada mais do que o narrador, o filtro que transmite os acontecimentos para o espectador. No cinema, a questão do narrador é mais complexa pois funciona em dois níveis, a narração de uma personagem, protagonista ou não, e a narração da câmera, responsabilidade dos diretores e das pessoas que trabalham nos bastidores. Em outras palavras, podemos entender que há, no cinema, uma narração diegética e uma narração extra-diegética. “Green Book”, filme dirigido por Peter Farrelly, é um ótimo exemplo para mostrar como a escolha do narrador pode afetar, positiva ou negativamente, a história como um todo.

A história é contada, na diegése, majoritariamente por Tony Lip (Viggo Mortensen), um estereótipo de italiano casca grossa que trabalha como segurança e motorista. Ele é convidado para uma entrevista de emprego com Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um talentoso pianista negro que irá fazer um tour no sul dos Estados Unidos dos anos 60. O espaço e tempo nos quais acontece a história é extremamente opressor para um homem negro, o que já estabelece o conflito da trama. No entanto, esse conflito é expandido quando se analisa a construção da personagem de Shirley. A personagem é um homem muito rico e de alta erudição que perdeu contato com sua família. O conceito de família, neste caso, pode ser entendido também como a sua identidade cultural. Shirley não se identifica com cultura alguma, o que gera, além do conflito temporal e espacial que ele enfrenta, um interno.

Green BookLevando em consideração a temática da obra em conjunto com suas duas personagens protagonistas, seria natural inferir que o foco narrativo estaria em Dr. Don Shirley, correto? Sim, seria natural, mas a resposta, aqui, é não. A história de “Green Book” é filtrada pelo olhar de Tony, a personagem mais desinteressante do longa, restringindo as possibilidades de desenvolvimento do arco dramático de Shirley. O resultado disso é um filme que não alcança o potencial que ele mesmo estabelece.

Por outro lado, seria injusto dizer que a história não funciona, pois de fato funciona. A interação entre ambas personagens é feita de maneira harmônica e natural pelo ritmo do filme, que é muito bem passado, permitindo que o espectador não sinta as duas horas e dez minutos de projeção. Não há excesso nas cenas de desenvolvimento de personagens, que são feitas na hora certa, sem haver, no roteiro, momentos apressados ou demorados, há, dessa forma, uma fluidez que torna a experiência de se assistir “Green Book” muito agradável.

Entretanto, fica o sentimento de que, por mais agradável que seja assistir a essa história, não estamos assistindo a história que deveria ser contada. Transferir o ponto de vista narrativo de Tony para Shirley resultaria em um filme mais complexo com mais tempo de tela para se desenvolverem os conflitos externos e internos de Shirley. A abordagem, leve e descompromissada, poderia se tornar um estudo de personagens com mais engajamento por parte do espectador.

Todavia, esse exercício de “o que poderia ser” é desonesto, pois leva em consideração a expectativa de quem assiste e não a obra em si, que possui sim seus méritos estilísticos mesmo na escolha do narrador. Faz sentido que o narrador, a pessoa que conduz a história, seja o motorista. Simbolicamente, a figura do condutor e a do passageiro é respeitada no campo da narração: quem conta a história é o sujeito ativo – o que conduz – e o passageiro é o sujeito passivo, que é conduzido, ou seja, que tem sua história contada.

Um dos aspectos que permite que essa simbologia funcione é a caracterização das personagens, que passa muito pela performance de Mortensen e Ali. Os dois possuem uma boa dinâmica em suas cenas conjuntas e se destacam também quando interagem com outras personagens, sendo Ali, definitivamente, o destaque com sua atuação irretocável. Já Mortensen é muitas vezes convincente, mas ameaça, em algumas cenas, atravessar a tênue linha que separa a boa atuação da canastrice pura. O que o impede de se tornar uma sátira estereotipada são os diálogos com Shirley, os quais são responsáveis pelo amadurecimento de Tony.

Em suma, “Green Book” decepciona devido ao que poderia ser, mas agrada pelo o que é. É uma obra incoerente que consegue ser decepcionante e agradável ao mesmo tempo, e se isso não é um elogio, eu não sei o que é. Eu não sei o que é.

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