LITERATURA: COMO PARAR O TEMPO (2017)

Escrito por Matt Haig e publicado no Brasil pela Harper Collins, em 2017, Como parar o tempo é o tipo de livro que tem a capacidade de deixar o leitor envolvido do início ao fim, sem perder o ritmo e sem se tornar clichê, embora apresente temas que constantemente são trabalhados e apresentados a partir dessa visão em outras obras.

Com 400 anos de idade e aparência física de 40 anos, Tom não é um imortal, só não envelhece da mesma forma que o resto de nós. Desde muito cedo, ele aprendeu que manter sua condição em segredo era a chave para salvar a própria vida e a das pessoas que ama. Isso o leva a conhecer e começar a trabalhar para uma organização que possui um único objetivo: recrutar pessoas como ele e fazer com que permaneçam no anonimato. Mesmo com uma vida razoavelmente boa, Tom não consegue esquecer a filha perdida e muito menos deixar de procurá-la, mas, ao se tornar professor de história em Londres, ele conhece Camille e seu mundo pode não ser mais o mesmo, mas é importante antecipar que, embora esse encontro pressuponha um romance, o amor romântico está longe de ser o foco narrativo da obra, embora esteja lá.

O amor, assim como o tempo, aparece como tema recorrente na narrativa de Haig. Seja o amor entre Tom e Rose, primeiro envolvimento amoroso de sua vida e cujo contato acaba por desencadear quase todos os eventos apresentados na trama; seja o amor entre Tom e Camille, que surge como um ponto de leveza na vida de Tom; seja o amor que Tom nutre por sua filha, Marion, e que o impulsiona a fazer o que for preciso tê-la de volta. A abordagem que o autor faz sobre o amor se preocupa em apresentar as facetas obscuras desse sentimento, como o fato de que, quando se experimenta o tempo de uma forma diferente das pessoas a sua volta, amar pode estar mais ligado a solidão e a dor do que ao prazer de dividir a vida com alguém.

“A ideia de que se tenha apenas um amor verdadeiro, ao qual ninguém se comparará é uma ideia bonita, mas a realidade é puro terror.” P.23

A partir de reflexões sobre como seria poder apreciar o presente sem se preocupar com o futuro, não temer a passagem do tempo e a perda de pessoas importantes, entre outras trabalhadas na obra, o autor nos convida a repensar os modos como enxergamos e experimentamos a dimensão do tempo. Na verdade, somos levados, repetidamente, a questionar o conceito de tempo, como o vivenciamos e o que faríamos se estivéssemos na mesma condição que Tom. Seria o tempo o melhor remédio para as dores da vida ou o fator que às acentua de forma tão incômoda que até mesmo as memórias felizes passam a ser tomadas de tristeza e melancolia?

A organização do livro também brinca com as noções de tempo e espaço, já que acontece uma mescla de capítulos que vão do passado ao presente em diferentes lugares do mundo. É assim que somos convidados a conhecer as memórias de Tom e sua principal motivação: encontrar sua filha. O empenho de Tom em encontrar o único elo vivo entre ele e seu passado é instigador e revela traços que ajudam a construir sua identidade. Ao mesmo tempo em que tenta lidar com o fato de que talvez não reencontre a filha, ele não mede esforços para que isso aconteça, chegando até mesmo a matar. Fato que o perturba, pois a violência não é algo recorrente em suas atitudes.

Outro ponto a ser destacado é a forma como a condição do envelhecimento de Tom e a busca do personagem por respostas é trabalhada. Desde o início ficamos curiosos para descobrir como a lentidão no envelhecimento se dá e, como Tom, queremos entender os mistérios por traz dessa condição. Para isso o autor se vale de explicações cientificas e biológicas como a ideia de que as pessoas com a condição de Tom se assemelhavam aos albatrozes, dada a sua longevidade, que mesmo apresentando algumas lacunas nos fazem acreditar e, até mesmo, validar as informações apresentadas.

Assim, ao misturar ação, drama, romance e, até mesmo, linguagem científica, em um enredo que passeia por períodos históricos e por lugares tão distintos, era de se esperar que Haig acabasse perdendo o fio da meada em algum momento, mas não é o que acontece. O autor nos envolve em uma trama leve e com algumas reflexões que nos permite repensar a nossa forma de ver a vida, o tempo, a dor e o amor.

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