CRÍTICA: NO PORTAL DA ETERNIDADE (2018)

No universo cinematográfico, e, aqui, tomo a liberdade de incluir as séries, há diversas abordagens que tentam contar e recontar a história do pintor holandês Vincent van Gogh. Uma das primeiras abordagens já feitas é o curta “Van Gogh”, de 1948, dirigido por Alain Resnais. Entre as mais recentes, temos o longa “Van Gogh: Pintando com Palavras”, de 2010, dirigido por Andrew Hutton e estrelado por Benedict Cumberbatch; o excelente episódio “Vincent and the Doctor”, décimo episódio da quinta temporada de Doctor Who, transmitido pela BBC em 2010; e a animação “Loving Vincent”, feita com pinturas de quadros que imitam as obras de van Gogh. Agora, temos “No Portal da Eternidade”, filme que Julian Schnabel assume a direção e é estrelado pelo veterano Willem Dafoe. A enorme quantidade de produções que tomam a mesma figura como elemento central reforça a importância do holandês para o mundo da arte até hoje.

Situando-se, durante a maior parte do tempo, em Arles, cidade localizada no sul da França, o longa não apresenta um enredo sofisticado e Schnabel não toma “No Portal da Eternidade” como uma biografia. O diretor optou por nos mostrar os últimos anos da vida de Vincent van Gogh, ou pelo menos a leitura que ele fez do artista como uma personagem – não apenas como uma persona histórica. É possível perceber essa interpretação nos momentos finais da narrativa, em que assistimos a morte de Vincent. Há uma ambiguidade na cena, o que gera um embate entre a realidade e a ficção: no longa, não fica claro se van Gogh deu um tiro em seu próprio estômago ou se foi morto por duas crianças que portavam armas no local em que Vincent pintava. Grande parte das referências apontam que van Gogh atirou em si mesmo e morreu por infecções causadas pelo ferimento.

At Eternity's GateHá, no filme, um jogo de perspectivas feito pela direção. Em algumas cenas, um filtro amarelo ou cinza é utilizado para representar a visão de van Gogh. Essas variações estão em cena para demonstrar os sentimentos do pintor com o mundo: suas emoções estão diretamente ligadas às cores que ele enxerga e, posteriormente, as insere em suas obras. É fácil associar o filtro amarelo às obras de van Gogh. Essa cor é encontrada em quadros como “A Noite Estrelada”, “Lírios”, “Os Girassóis”, “Terraço do Café na Praça do Fórum”, “Campo de Trigo com Corvos” e “A Casa Amarela”, sendo este último um retrato de onde viveu em Arles. O filtro cinza representa a visão depreciativa do pintor francês Paul Gauguin (Oscar Isaac) sobre as obras de van Gogh.

Um dos aspectos mais importantes no filme é a relação entre van Gogh e Gauguin, que acreditava que o trabalho de Vincent era mais uma escultura do que uma pintura em si – isso não foi um elogio. É evidente que os dois não têm ideias, inspirações e temperamentos parecidos, mas Gauguin é uma das poucas conexões que van Gogh conseguira manter durante sua vida, além de seu irmão Theo. As diferenças entre eles são reforçadas na cena em que Gauguin aconselha van Gogh a mudar seu estilo de pintura: para o francês, van Gogh deveria começar a pintar dentro de casa, para ganhar uma nova perspectiva. Imediatamente, ele discorda e o alerta sobre necessidade de pintar em espaços abertos – explicando que passou boa parte de sua vida em um quarto fechado e pintar em ambientes externos é tanto um ato de perdão quanto um ato de captar a realidade da natureza e a libertá-la.

O atrito entre os dois se intensifica quando Gauguin decide voltar para Paris. Ele alega que sua motivação é se tornar uma figura pública e construir sua carreira, mas van Gogh se sente culpado e, então, elabora o melhor pedido de desculpas que alguém poderia elaborar: ele corta sua própria orelha e a embrulha como um presente para Paul. É inegável que o impulso de Vincent foi genuíno, mas, é também inegável que este fora um ato de desespero, de alguém que não queria mais ficar sozinho.

Além disso, Schnabel, tentando nos fazer experienciar os sentidos de Vincent, exagera nos múltiplos enquadramentos. Logo no início do longa, a câmera acompanha a perspectiva do protagonista em um plano subjetivo. Inicialmente, a escolha do diretor pode ter sido feita para provocar empatia, como foi feito nas cenas em que Van Gogh sentia-se atordoado: as frases ouvidas por ele eram repetidas, como se fosse um eco, para nos deixar simultaneamente atordoados. Entretanto, o diretor escorrega ao repetir e alternar os planos de forma aleatória em outras cenas. Dessa forma, a empatia outrora construída, entra em pause e o filme se arrasta em enquadramentos inconsistentes.

“No Portal da Eternidade” é uma narrativa sem muitas extravagâncias sobre um pintor, em seus últimos anos de vida, que tenta se manter vivo por meio de suas obras. A partir do título, é possível sumarizar o que nos foi mostrado em tela. Ainda que oscile, em uma espécie de portal entre a vida e a morte por comportar transtornos mentais e sua dependência química, van Gogh tinha noção de que suas obras não seriam apreciadas por aquela geração, mas, sim, pelas próximas. A quantidade de conteúdo produzidos a respeito de sua vida e de suas obras atestam que o pintor estava certo: suas produções pertencentes ao período artístico pós-impressionismo são, até hoje, uma das mais influentes na história da arte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s