HERÓIS DOS QUADRINHOS: JEREY SIEGEL E JOE SHUSTER

Desde o tempo das cavernas, a humanidade expressa suas histórias por meio de desenhos. De hieróglifos e pinturas rupestres, passando pelo escudo de Aquiles e tapeçarias, até chegarmos, no final do século XIX, às histórias em quadrinhos que conhecemos hoje. A arte sequencial sempre foi importante para espalhar os mitos e narrativas fantásticas. Nessa série de textos, iremos explorar a vida e obra daqueles que foram responsáveis por reviver o arquétipo heroico grego com os Super-Heróis. Portanto, nada mais justo que começar do início: os criadores do Superman.

Nascido em 1914, em Ohio, nos Estados Unidos, Jerome “Jerey” Siegel recebeu bastante influência artística de seu pai, Mitchell, que era pintor de placas. No entanto, como fã dos quadrinhos do início do século XX e de ficção científica, Siegel não se ingressou na pintura comercial, como seu falecido pai, nem nas artes clássicas. Em 1929, publicou de forma independente sua primeira fanzine (publicação de quadrinho não profissional) chamada Cosmic Stories. Ainda nessa época, ele conheceu, durante o colégio, seu melhor amigo e colega de profissão.

Joseph “Joe” Shuster, nascido no Canadá, também em 1914, e filho de imigrantes holandeses também era um grande amante das HQ’s e da ficção científica. Apesar disso, começou a publicar histórias apenas depois de conhecer Jerey, quando juntos escreveram e desenharam a fanzine Science Fiction. Após se formarem, foram trabalhar juntos na National Allied Publication, futura DC Comics, que publicaria a revista que mudaria a história desses dois amigos para sempre, a Action Comics.

Antes de começaram a trabalhar para a editora, Shuster e Siegel continuaram seu projeto independente. Na edição #3 de Science Fiction, publicada em 1933, a dupla criou a história ilustrada chamada “The Reign of The Superman” (em tradução livre, O Reino do Super-Homem). Nessa história, o cientista Ernest Smalley faz experimentos científicos com um indigente chamado Bill Dunn, que acaba ganhando poderes telepáticos e se torna um poderoso criminoso. Sim, a primeira versão do Superman era um vilão que se parecia muito mais com Lex Luthor do que com Clark Kent. Somente no final daquele mesmo ano que começaram a reformular a ideia do personagem. Dunn passou a ser um detetive, e a história mudou de nome para “The Superman”. No entanto, a obra foi rejeitada por diversos jornais e revistas da época. A frustração foi tanta que Shuster chegou a queimar as páginas da nova história e, até por isso, pouco se sabe sobre a essa versão do Homem de Aço.

Porém, tudo isso mudaria com a chegada a National Allied na vida dos dois. A editora já fazia sucesso com a revista New Fun, a qual Joe e Jerey trabalharam no início, em 1936. Pouco tempo depois, em um momento delicado financeiramente da empresa, eles resolveram apostar em uma nova publicação. Para isso, Shuster e Siegel foram chamados para encabeçar o novo projeto. Em 1938, estava nas bancas de todo o país algo que mudaria não só a vida dos dois amigos, mas também todo o cenário de quadrinhos do mundo dali pra frente. Action Comics #1, na capa, um homem de roupa azul e capa vermelha segurando um carro acima de sua cabeça para salvar um jovem em perigo, era a primeira aparição do atual Superman.

Não é exagero dizer que o Homem de Aço revolucionou os quadrinhos. Depois que Clark Kent vestiu a capa o arquétipo do Super-herói foi criado. Não apenas se tratava de uma pessoa com superpoderes, além disso ele também se valia de uma moral elevada perante aos outros. Esse tipo de herói nos remete aos heróis gregos, geralmente colocados como semideuses, cujo os feitos eram inconcebíveis para os humanos comuns. Em outras culturas, narrativas que contavam histórias fantásticas sobre a vida desses seres superiores e índole incólume também eram comuns. Portanto, o que Siegel e Shuster fizeram foi trazer esse tipo de personagem de volta ao imaginário coletivo da humanidade. O conceito da versão final do Superman se remete muito mais a ideia o Übermensch, teorizada por Nietzsche, que não só supera o ser humano comum em habilidade, mas também em vontade e valores. Esse conceito passou a ser aplicado em todos os protagonistas de quadrinhos e estreou a Era de Ouro das HQ’s. Não é à toa que Superman sempre é posicionado em um papel de liderança quando os super-heróis se juntam em equipe nas obras ligadas a DC Comics

No fim de sua vida, Siegel seguiu um caminho mais editorial, chegando a trabalhar como editor-chefe e inclusive a colaborar com a rival Marvel Comics nos anos 70. Já Shuster, seguiu por um lado alternativo, produzindo quadrinhos independentes sem o mesmo sucesso. A dupla se uniu de novo, mas não para fazer histórias, e sim em um processo contra a Time Warner por direitos autorais, em 1975, que nunca chegou a ser concluído. Joe, já cego e hipertenso, vivia em uma casa de repouso quando veio a falecer em 1992, aos 78 anos. Poucos anos depois Jerey também faleceu em 1996, aos 81 anos.

Apesar do fim de vida pouco glamouroso, a dupla ficou eternizada em sua obra. Hoje, os Super-heróis estão em tudo, desenhos, quadrinhos e principalmente faturando enorme bilheterias e, agora, até mesmo a sendo indicados ao Oscar. A volta do arquétipo heroico por meio da mente e das mãos da dupla com o Superman, sem dúvida se tornou um marco cultural americano que se espalhou pelo mundo. Se hoje esses personagens são tão relevantes é graças a eles: Jerey Siegel e Joe Shuster, dois amigos de escola, fãs de ficção científica que mudaram para sempre a cultura pop mundial.

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