SÉRIE: THE HANDMAID’S TALE (2017 – )

Totalitarismo, queda da Constituição, controle opressivo da sociedade por meio do discurso religioso são algumas das características que compõe uma distopia, e, não por coincidência, são características que marcam a construção de “Handmaid’s Tale”. Sabe-se que a distopia está presente na literatura há pelo menos 94 anos. Opondo-se às construções utópicas, em que tudo é sistematicamente civilizado e igualitário, livros como “O Processo” (1925), de Franz Kafka, “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley e “1984” (1949), de George Orwell nos fazem refletir sobre modelos de sociedades e suas devidas organizações nada ideais para boa parte das camadas sociais. Exibida pelo serviço de streaming Hulu e criada por Bruce Miller, “Handmaid’s Tale” é uma adaptação de obra homônima da autora canadense Margaret Atwood.

O enredo da série gira em torno de dois grandes momentos. O primeiro deles, contado a partir de flashbacks de June Osborne, impecavelmente interpretada por Elisabeth Moss, nos mostra como a República de Gilead surgiu: um golpe de Estado que teve seu início com o assassinato do Presidente dos Estados Unidos, a suspensão da Constituição e, por fim, a instauração de um regime totalitário – e militar – que tem como premissa as leis do antigo testamento. É importante salientar que o grupo arquiteto do golpe se apropriou de argumentos como a infertilidade mundial, poluição e infecções sexualmente transmissíveis para atrair fanáticos assim como apoio financeiro e publicitário. Como um bom e velho regime totalitário, os direitos das mulheres foram revogados e uma nova organização social é ordenada.

The HandmandisNo segundo momento da narrativa, já percebemos essa nova sociedade em execução. June, passa a ser Offred – literalmente “de Fred” – e tem a finalidade de servir como aia na casa do Comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes) e de sua esposa Serena Joy Waterford (Yvonne Strahovski). Em Gilead, não é permitido que mulheres leiam e tenham profissões. Grande parte de suas funções em sociedade são voltadas para a contribuição do crescimento demográfico. Para que esse objetivo seja alcançado, as mulheres foram divididas em esposas, mulheres inférteis da classe alta – as esposas de classe média baixa são chamadas de “econoesposas”; tias, responsáveis por treinar e vigiar as aias para que estas cumpram sua função; Marthas, mulheres inférteis que realizam serviços domésticos; aias, mulheres férteis que são propriedades incubadoras de comandantes e homens influentes da sociedade.

Em relação à divisão dos papéis em sociedade por parte dos homens, a organização política nos parece, no mínimo, questionável. Embora suas ações perante outros sejam fiéis ao texto bíblico, suas ações à noite representam a hipocrisia escondida pelo discurso religioso. Há, na República de Gilead, um bordel nomeado Jezebel’s, onde prostituição, drogas e consumo de álcool são permitidos e incitados. Além disso, se fora daquele território a homossexualidade é considerada traição de gênero, dentro do bordel a relação entre mulheres é estimulada para o prazer masculino. É perceptível, então, que mesmo com tantas regras e retiradas de direitos para mulheres – inclusive o direito ao sexo, já que de acordo com a interpretação literal do antigo testamento, as relações sexuais devem ser feitas somente com o intuito de reproduzir e as esposas não são férteis, nada incômodo mudou para os homens.

Um dos aspectos mais importantes da série é o pacto de verossimilhança, que nada mais é que um contrato entre a narrativa e o espectador. A partir desse acordo, o universo construído pela série é real e o que acontece nele é possível. Há um episódio em específico na segunda temporada que cruza a fronteira entre o imaginário do espectador e a linha narrativa. Em um determinado momento, June consegue fugir da casa dos Waterfords e é mantida na sede do The Boston Globe, um dos jornais mais significativos dos Estados Unidos. Lá, ela encontra um DVD da série Friends e assiste ao episódio “The One With Phoebe’s Uterus”. Engana-se quem pensa que a cena apenas serve de alívio cômico após toda a exaustiva jornada de June para chegar ali. O episódio de Friends mostra mulheres ensinando um homem sobre o prazer feminino, o que não existe com a teocracia de Gilead. O impacto do telespectador é construído pelo contraste entre essas duas séries e, também, para àqueles que assistem Friends na hora do almoço: fica fácil nos imaginar no lugar de June justamente por aquela ação ser algo tão corriqueira em nossas vidas.

“Handmaid’s Tale” é, portanto, uma narrativa que pode funcionar como um lembrete: as mulheres sempre serão um dos primeiros alvos subjugados em regimes totalitários e teocráticos. A série nos prova isso com a trajetória de June e raramente nos oferece um momento de alívio. A atuação de Moss, aqui, deve ser enaltecida como um dos pontos principais, assim como a de Strahovski, que entrega uma personagem de muitas facetas ao demonstrar compromisso com as leis de Gilead e, ao mesmo tempo, ter suas motivações pessoais para apoiar um sistema tão bruto. Miller, que, além de criador, é produtor da série, anunciou que o tema da terceira temporada, com a data de estreia marcada para o dia 5 de junho de 2019, é resistência, e torcemos para que assim seja. Praised be, bitch.

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