CRÍTICA: ROMA (2018)

O público mais popular de cinema tem a ilusão de que para uma história ser boa ela precisa ter muitos acontecimentos incríveis e situações inimagináveis. No entanto, muito pode ser dito em filmes que contam apenas um trecho da vida simples de uma ou mais pessoas e partir disso serem criadas grandes obras de arte. A maior prova disso foi o destaque que “Roma”, filme mexicano lançado em streaming pela Netflix, ganhou nos meios cinematográficos mais tradicionais.

A premissa é bastante simples. Acompanhamos um ponto da vida de Cleo (Yalitza Aparicio), que trabalha como doméstica junto com Adela (Nancy Garcia), na casa da família de Sofia (Marina de Tavira). A rotina da jovem empregada muda quando ela conhece e começa a se relacionar com Fermin (Jorge Antonio Guerrero) ao mesmo tempo que sua patroa começa a ter problemas conjugais. Apesar de simples, o diretor Alfonso Cuarón, que também assina o roteiro, consegue falar sobre muita coisa apenas representado o cotidiano. Há discussões sobre machismo, gênero, luta de classes, subserviência, abandono parental. Tudo isso com o plano de fundo do México dos anos 70, marcado por conflitos entre estudantes e o governo autoritário da época. Portanto, não há necessidade de superexposição, as metáforas visuais e o modo como os personagens lidam com os acontecimentos do dia a dia são o suficiente para deixar o espectador ciente de tudo àquilo que a obra pretende representar.

ROMAHá alguns planos detalhe que são bastante interessantes, e são usados principalmente quando o diretor quer representar algo de forma metafórica, seja em relação aos acontecimentos da trama ou ao estado de espirito dos personagens. Entretanto, são os planos sequência que chamam a atenção e dão uma sensação mais realista para o público. Cuarón conduz as cenas de forma de magistral, prendendo a atenção do espectador e criando tensão por meio dos movimentos de câmera e até mesmo deixando-a estática quando necessário. A fotografia, que também foi feita pelo diretor mexicano, é toda em preto e branco, o que também ajuda a criar o clima mais minimalista da cinematografia da obra. Entramos, então, no ponto mais genial da obra que é transformar algo tão simples em um mar de elementos políticos e catarses emocionais.

O elenco do filme é bem selecionado e tem uma grande surpresa. O grande destaque foi Aparicio, que fez sua estreia na atuação neste filme, ela nunca estudou teatro e trabalha como professora, no entanto foi tão bem que chegou a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. A maior parte da história gira em torno de sua interação com Tavira. O elenco de apoio, principalmente as crianças da família, são muito bem orientados e complementam muito bem as relações familiares que são importantes para o desenvolvimento da narrativa. Vale destacar também Verónica Garcia, que faz a mãe de Sofia, Tereza, que também tem um papel chave durante certo ponto da história.

Por fim, devemos salientar que o filme mereceu todo o destaque que a mídia e a crítica deram a ele. “Roma” é um filme simples, mas com muito a dizer, uma verdadeira obra prima do audiovisual que merece um lugar de destaque na história do cinema.

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