LITERATURA: A OUTRA FACE (2012)

Ao longo da história, tivemos acesso a vários relatos sobre a luta das mulheres em sua busca por direitos iguais aos desfrutados pelos homens. Do direito a exercer o papel de cidadania concedido pelo voto ao direito de ser legalmente responsável pelo próprio corpo, a mulher enfrentou e enfrenta, ainda hoje, lutas diárias contra o silenciamento e a subjugação. Em alguns contextos, como o que nos é apresentado na obra de Deborah Ellis, a primeira e principal luta que a mulher irá enfrentar será a de continuar existindo. Escrito por Ellis e publicado pela primeira vez no Brasil em 2012, A outra face – história de uma garota afegã nos transporta para um país devastado pela guerra e que encontra em suas personagens femininas a força para sobreviver um dia após o outro.

Parvana é uma menina vivendo em um país em que ser menina é o mesmo que não ter direitos. Aos 11 anos, ela e sua família lutam para sobreviver em um país que, há duas décadas, vive a destruição da guerra. Sob o domínio do talibã, milícia islâmica radical, o Afeganistão é um lugar em estado de terror permanente, onde o mínimo necessário para viver representa uma luta diária. Em decorrência do regime radical, as mulheres afegãs sofrem com as imposições feitas a elas, que vão desde suas vestimentas ao fato de não poderem sair de casa sem a companhia de um homem. Por esses motivos, quando o pai de Parvana é preso, e o único homem restante em sua cada é um bebê, resta a ela lutar pela sobrevivência de sua família.

Ao narrar a história de Parvana, Ellis opta por uma construção heroica da jovem garota. Assim como prevê o modelo da jornada do herói proposto por Campbell, a menina passa por vários estágios em sua trajetória, alguns deles: a recusa da condição imposta a ela; o encontro com o mentor (representado pela lembrança dos ensinamentos do pai e pelo encontro real com uma antiga professora); o momento de transformação em que ela começa a entender esse “novo” mundo em que precisa viver e acima de tudo sobreviver, e, até mesmo, a recusa de voltar a ser o que era antes da prisão do pai.

É interessante observar como a nova condição de Parvana contribui para o seu amadurecimento, o que fica evidente se comparamos a reação de alivio experimenta por ela ao ser avisada que, por causa da guerra, não teriam aula, logo não teriam prova, à reação perturbadora de precisar juntar ossos humanos para vender e assim ter dinheiro para alimentar sua família. A inocência do início da lugar a reflexões perturbadoras e que soam um tanto avançadas para uma menina de apenas 11 anos.

“– Vamos nos lembrar disto – disse Parvana. – Quando tudo melhorar e estivermos crescidas, vamos lembrar que um dia estivemos num cemitério desenterrando ossos para alimentar nossa família.” p.83

A construção narrativa da prisão  do pai é algo problemático dentro da trama. Um dos eventos mais importantes para o desenvolvimento da história não recebe uma explicação  que convence. Tanto a prisão do pai quanto o desfecho do personagem ficam em aberto oque parece mais uma forma preguiçosa de solucionar um dos muitos problemas que a família passa a enfrentar com sua saída.

Existe, ainda, em A outra face uma certa sutileza ao abordar a cultura afegã e os impactos do domínio talibã no cotidiano das famílias. As vestimentas, os alimentos e os rituais cotidianos descritos por Parvana nos apresentam uma cultura rica e que se orgulha de sua luta para sobreviver aos horrores da guerra. Ao mesmo tempo em que, a alusão ao caminhar da mãe e da irmã de Parvana em um dia ensolarado com os rostos banhados pela luz do sol, nos conecta as mudanças impostas às mulheres afegãs. Além disso podemos perceber como, não apenas os direitos de pessoas tidas como minorias são completamente ignorados, como o acesso a informação, a educação igualitária entre meninos e meninas e qualquer forma de prazer lúdico, como a música, são vistos como desnecessários e perigosos.

A história de Parvana e das mulheres afegãs afetadas pelas regras impostas pelo regime fundamentalista que governou o Afeganistão por cerca de 9 anos, nos faz refletir sobre dois conceitos: prisão e liberdade, estritamente ligados ao fato de ser homem ou mulher dentro daquela sociedade. A mulher, tida como propriedade do marido, deveria se sujeitar as regras impostas por ele sem direito a voz ou ajuda externa, logo estava presa a ele física e psicologicamete. Uma bela metáfora que a narrativa apresenta dessa prisão está na descrição das janelas das casas, pois nas que haviam mulheres, as janelas deveriam ter os vidros pintados de preto para que ninguém as pudesse ver. Já o fato de ser homem estava ligado a liberdade de ir e vir, de poder fazer suas próprias escolhas e de decidir o futuro das mulheres ligadas a ele.

A outra face – história de uma garota afegã nos apresenta um relato leve e comovente de um cenário que, embora fictício, se baseia em histórias de milhares de meninas e mulheres que viram todos os seus direitos serem retirados e ignorados, que sofreram punições físicas pelo simples fato de caminhar desacompanhada de uma figura masculina, e que mesmo com o fim do regime talibã se viram diante de um futuro de incertezas e traumas deixados pelos anos de guerra.

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