LITERATURA: O OLHO MAIS AZUL (1970)

O olho mais azul conta a história de uma menina negra que foi humilhada e inferiorizada por todos que a cercaram durante toda a sua vida. Pecola, a personagem principal, cresceu observando meninas brancas de olhos azuis recebendo o amor e o carinho que tanto lhe foi negado e, por isso, acreditava que se tivesse tais características o mundo a veria de outra forma e todos os seus problemas seriam resolvidos. A narrativa é fragmentada e em cada momento é apresentado ao leitor a história de um personagem até o momento em que sua vida cruza com a de Pecola.

O preconceito racial é o assunto que norteia a narrativa. A maneira como os negros são vistos e tratados na sociedade como um todo faz com que as crianças reproduzam atos discriminatórios entre si, principalmente no ambiente escolar. Um exemplo disso no livro é que se o padrão de beleza é de uma criança branca, loira e de olhos azuis, as que não são assim se sentem inferiores, e quanto mais as crianças se distanciam desse padrão, mais as outras se acham no direito de inferiorizá-las. Exemplos como esses levam a narrativa de Toni Morrison a nos fazer refletir como a inferiorização do outro, seja ela em quaisquer aspectos, tendem a fazer as pessoas se sentirem melhores, é como uma máscara para esconder quem elas realmente são.

Outro assunto que é destacado de forma delicada pela autora é que em situações de repressão, miséria e humilhação, que um determinado grupo sofre, as crianças e mulheres são as que mais sentem as consequências. Nos ciclos familiares dos personagens, as mulheres precisam se reafirmar todo o tempo como boas mães, donas de casa, precisam mostrar feminilidade para seus maridos, mas, também, precisam ser firmes, principalmente com seus filhos que devem aprender sobre os problemas da vida.

A história, que é narrada por uma menina que conheceu Pecola, traz em seus relatos a visão de quando ainda era uma criança, mesclando com reflexões mais profundas sobre o comportamento das personagens e sobre como eram influenciadas por determinadas situações. Um ponto peculiar é que, em alguns momentos em que a narradora apresenta tais reflexões sobre as ações de certos personagens, não fica claro quem está falando.

Toni Morrison escolhe trazer à narrativa questões delicadas e que estão presentes no cotidiano de muitos, um exemplo é o olhar da sociedade para com as mulheres prostitutas e para as mulheres mais velhas que são solteiras e moram sozinhas. Além disso, o autor também traz para a narrativa problemas relacionados ao ambiente familiar, como agressões físicas, relacionamentos saudáveis e que com o tempo se tornam extremamente abusivos ou a falta de amor entre parentes. A barreira entre realidade e ficção é frágil, o que torna a narrativa forte o bastante para causar desconforto no leitor. Há um momento em que a narradora coloca o poder da arte em questionamento, especificamente o cinema, ao contar que para obter um momento de alívio para a vida difícil que levava, uma das personagens busca nas telas o seu escape, mas, além de consolo, a personagem encontra os padrões de beleza mais reafirmados que nunca, padrões que não se aproximam nada do que ela é, o que causa na personagem um sentimento de inferioridade. Cada história contada na obra, aparentemente, é única, mas vai muito além e segue com uma representatividade impecável.

O olho mais azul não é um livro que explica porque tantas coisas ruins acontecem à pequenas crianças como Pecola e sim nos faz entender como sua vida se cruza à de outras pessoas. Não podemos justificar o porquê de uma mãe maltratar sua filha e tratar com delicadeza e afeto a filha de sua patroa, o porquê de homens baterem em suas esposas ou abusarem fisicamente e moralmente de menininhas indefesas. Não é um livro que justifica, mas, sim, que explica, explica ao proporcionar que conheçamos as histórias de alguns dos personagens, como suas vidas foram vividas e como chegaram onde estão. O olho mais azul é uma narrativa que traz humanização, acima de tudo, para aqueles que nunca foram vistos como seres humanos por muitos de nós.

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