CRÍTICA: CAPITÃ MARVEL (2019)

O Cinema e as demais artes têm, por meio de suas obras, a função de – também – representar a realidade social e política de um determinado ponto no espaço tempo. Engana-se quem pensa que apenas os filmes mais filosóficos ou complexos, ditos “de arte” (expressão pedante dos cinéfilos de boina) exercem essa importante função. A recepção dos blackbusters, filmes cuja produção é mais voltada para o mercado, é um ótimo indicativo de como pensa um povo.  “Capitã Marvel”, novo filme do MCU, antes mesmo do apagar das luzes da sala do cinema, mostra que estamos cercados por idiotas.

Antes de entrar nas questões narrativas, é importante constatar o óbvio. “Capitã Marvel” é o primeiro filme do MCU em que qual o protagonismo é de uma personagem feminina, isso depois de mais de 10 anos e 21 filmes no Universo Expandido. E, novamente, este é o primeiro sobre uma heroína. E qual é o motivo disso? Kevin Feig, produtor e principal pensador por trás do MCU, quando perguntado sobre o porquê de nunca ter puxado o gatilho no filme solo da Viúva Negra, confessou que não tinha certeza se era a vontade do público assistir a um filme de super-heróis protagonizado por uma mulher, apesar da excelente recepção que Scarlett Johansson teve no papel. Essa incerteza do produtor foi alimentada ainda mais quando uma boa parcela do público iniciou um boicote que visava sabotar a nota do filme nos sites especializados. Felizmente, o boicote foi contornado pelos ótimos números de bilheteria, entretanto, o que deveria ser uma página importantíssima para representatividade na história da Marvel, como foi “Pantera Negra”, fica um pouco manchada pela ignorância de muitos…

Captain MarvelMas não só por ignorância. “Capitã Marvel” não alcança as expectativas criadas pelo próprio contexto estabelecido e pelos demais filmes lançados. Diversos fatores trabalharam contra o sucesso do filme, um deles é o momento de seu lançamento. “Capitã Marvel” foi lançado entre as duas partes do maior evento dos filmes de adaptação de quadrinhos de todos os tempos, “Guerra Infinita” e “Ultimato”, portanto, a expectativa do público era algo inatingível para um filme de origem de uma nova super-heroína até então desconhecida pelo público.

Avançando para além das questões contextuais que foram problemas para o filme, é importante, também, destacar algumas de teor estrutural. A primeira e mais gritante delas é o roteiro. A sequência de cenas que chegou ao corte final atenua o tema discutido pelo filme, que é queda e ascensão. O filme se inicia em um momento em que Carol Danvers (Brie Larson), ainda sem se lembrar de sua identidade passada, é treinada por Yon-Rogg (Jude Law) em outro planeta. A partir daí, a história vai e volta no tempo para costurar a jornada de Danvers. Isso se configura como um sério problema, pois cabe ao espectador montar a trajetória cronológica da personagem à medida que o filme progride, o que tira a atenção da trajetória emotiva, da batalha interna que a personagem enfrenta – discutivelmente o mais importante em filmes que tratam desse tema. É evidente que é possível cultivar empatia por uma ou mais personagens usando da montagem não cronológica e “Pulp Fiction” não me deixa mentir. O problema é a forma com que essa estruturação é feita, sua qualidade técnica exige que o roteirista tenha completo conhecimento e controle da história para que ela seja coesa e não afete o arco emocional das personagens em função da ação externa. E controle criativo é uma coisa que os criadores não têm quando trabalham na Marvel, quando o tem é limitado a algumas fases da produção apenas.

Com efeito, “Capitã Marvel” ressoa muito pouco em um nível emocional com o espectador. Uma montagem cronológica, que mostrasse Carol Danvers falhando quando criança, depois como jovem da aeronáutica, e ainda como membro dos Kree, tornaria o momento que ela se levanta, no clímax do filme, algo muito mais memorável e carregado de emoção e significado. Esse estilo de estruturação do roteiro, obviamente, tiraria do espectador o enigma da identidade de Danvers, o que não seria um problema, uma vez que privilegiaria o tema abordado sem precisar perder o conflito da falta de identidade, a única diferença é que o público já saberia a resposta desse enigma desde o início.

É nesse ponto que entra um interessantíssimo raciocínio que Alfred Hitchcock fez a respeito de suspense e mistério. Hitchcock dizia que suspense é um processo emocional atingido por meio da revelação de informações para o espectador. Já mistério é um processo intelectual de teor mais pragmático. Sendo assim, em “Capitã Marvel”, o suspense, para o espectador, seria ter a informação sobre a identidade de Danvers para poder se deixar ser guiado pelo caminho de descoberta e superação da personagem, se surpreendendo com as curvas desse caminho, e assim, mantendo o foco no emocional da história. Da forma como foi feito e entregue pelos diretores, temos o processo do mistério, que enfatiza a ação: quem é essa mulher e qual é sua história? O objetivo aqui é bem semelhante com a montagem de um quebra-cabeça, algo mais árido e menos emocional. Sendo assim, dado o tema de superação e o fato de ser uma nova personagem no MCU, seria um caminho mais assertivo uma abordagem mais voltada para o processo emocional de Hitchcock. É evidente que não questiono o gênero do filme e não penso que o suspense, como gênero narrativo, fosse um caminho melhor. Falo da filosofia por trás das palavras de Hitchcock, que, adaptadas para a realidade de “Capitã Marvel”, resultaria em um produto mais eficiente.

Outro ponto que merece ser apontado é um problema que se tornou recorrente em quase todos os filmes da Marvel: a direção sem inspiração e estupidamente heterogênea. O vocabulário cinematográfico da dupla diretora, Anna Boden Ryan Fleck, é limitadíssimo e pouco inventivo, e muito disso cai no colo da própria Marvel, que mira um visual sem personalidade que perpassa por todos os filmes a partir da segunda fase, deixando-os sem valor estético algum.

Esses problemas precisam ser apontados, mas é preciso ressaltar também que os demais filmes do MCU, em sua grande maioria, possuem desvios de natureza semelhante e esses desvios não afetaram a recepção de maneira geral como afetaram aqui. Dessa forma, pode-se dizer que “Capitã Marvel” é apenas mais um filme nesse volumoso universo que possui erros e acertos mais ou menos na mesma proporção que seus antecessores. E como eles, os acertos acabam falando mais alto.

Brie Larson encarna a personagem como se deve: demonstrando força, segurança e sim, senso de humor. A atriz foi muito criticada injustamente por “sorrir pouco” ou ser “sem graça” durante o filme. A primeira crítica é de uma ignorância ímpar e a segunda é simplesmente mentirosa. O humor da personagem é entregue com eficiência por Larson, porém de maneira sutil, respeitando a construção da personagem e seu arco emocional. Danvers é uma pessoa fechada, desconfiada e que não se lembra de seu passado, portanto, faria pouco sentido se ela fosse toda sorrisos e piadinhas descontraídas com qualquer estranho que cruzasse seu caminho. Seu senso de humor, em contrapartida ao de Thor, vem de sua inadequação ao ambiente em que é inserida além de sua falta de interesse por esse lugar e seus habitantes. Quando Danvers chega à Terra, ela não se importa com o lugar ou pessoas, ela está lá para cumprir uma missão, e cumprir uma missão ela irá, interagindo com pessoas e situações no caminho. E assim surge a comicidade do filme, de maneira discreta, porém efetiva.

“Capitã Marvel”  não é e nem precisa ser igual ao texto fonte já que estamos lidando com públicos e linguagens diferentes. No filme, as duas raças alienígenas são usadas para tecer uma crítica e posicionar “Capitã Marvel” como sendo além do cinema puramente escapista. Os Kree, logo no início da projeção, quando decidem ir à Terra, chamam o nosso planeta de “shithole planet” (em tradução livre: planeta de merda), alusão clara à infeliz frase do infeliz Donald Trump ao se referir ao Haiti e a outros países protagonistas da crise dos refugiados. Essa crítica é estendida quando revelada a motivação dos Skrulls, que nada mais são do que imigrantes pacíficos procurando por condições melhores de enquanto são caçados por vilões ignorantes no poder. Alusões.

Enfim, “Capitã Marvel” é um filme divertido que foi prejudicado por um contexto social burro e um momento de lançamento sabotador. Apesar disso, consegue apresentar uma boa personagem de maneira eficiente para interagir com o universo maior. Além disso, é representativamente importante e é um passo no caminho certo, tanto socialmente, quanto para o futuro da personagem.

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