HERÓIS DOS QUADRINHOS: BILL FINGER E BOB KANE

Em 1939, o personagem da Action Comics, Superman, já estava bem estabelecido e com um sucesso estrondoso. Tal acontecimento começou a inspirar outros quadrinistas a criarem e publicarem seus próprios super-heróis. Na continuação da série de textos sobre os mais importantes autores de HQ’s, exploraremos o primeiro grande sucesso após a criação do krypitoniano: Batman, o Cavaleiro das Trevas.

Em Denver, Colorado, no ano 1914 nascia o primeiro filho de dois imigrantes austríacos, Milton “Bill” Finger. Poucos anos depois, a família de Bill foi atingida pela Grande Depressão. Seu pai, Louis, foi obrigado a fechar sua alfaiataria e se mudar para Nova Iorque. Lá, vivendo no Bronx, Bill ganhava a vida e ajudava sua família vendendo sapatos em um emprego de meio período enquanto perseguia seu sonho de se tornar escritor. Ele teve sua primeira oportunidade quando encontrou um antigo colega de escola com quem então passaria a trabalhar e colaborar. Esse colega era Bob Kane.

Kane, por sua vez, era um nova-iorquino nato. Nascido com o nome de Robert Kanh e filho de imigrantes judeus, Bob sempre foi um artista talentoso e sabia desenhar muito bem. Não foi por acaso que conseguiu um emprego como trainee na Fleischer Studios, empresa de animação responsável pela criação de personagens como Betty Boop e Marinheiro Popeye. Dois anos depois, em 1936, o autor resolveu ir para o mundo dos quadrinhos, primeiro fazendo trabalhos para o editor Jerry Iger, que na época trabalha com Will Eisner, para depois abrir sua própria editora. Foi então, em 1938, que Kane chamou Finger para trabalhar como escritor fantasma em algumas tiras que eles produziam para jornais.

Enxergando o sucesso do Superman, Kane teve a ideia de criar seu próprio super-herói. Inspirado pelo Zorro e por um diagrama de Leonardo da Vinci que apresentava um projeto de uma máquina voadora com asas de morcego, ele mostrou para Finger o conceito de um herói chamado Batman. Na ocasião, o homem morcego usava roupas vermelhas, botas, sem luvas e apenas uma máscara estilo domino, preta e que cobre apenas os olhos usadas por muitos outros heróis, e uma capa que imitava asas de morcego. Já Bill, influenciado pelo visual do Fantasma, personagem de Lee Falk, sugeriu mudar a máscara para um capuz e mudar as cores para tons de preto e cinza. Apesar da ideia ter sido de Kane, Finger foi quem escreveu o roteiro dando a personalidade que marca o Homem Morcego até hoje.

A ideia foi apresentada a National Comics, que aprovou o projeto e Batman foi incluído em um dos periódicos de maior sucesso da editora. Em maio de 1939, a “Detective Comics #27” apresentava em sua capa seu mais novo personagem: um homem de roupas cinza, vestido com asas de morcego e um capuz preto, pendurando por uma corda segurando um bandido pelo cangote. Era ele, “The Batman”. Diferentemente de Superman, que era um ser todo poderoso vindo de outro planeta, o homem morcego era um ser humano, Bruce Wayne um jovem milionário que perdeu os pais para o crime na cidade de Gotham, e, por isso, resolveu fazer justiça com as próprias mãos.

Mais tarde, a dupla Finger e Kane colocou o menino prodígio Dick Grayson, como Robin, um adolescente que perdeu os pais em um incêndio no circo da família, e foi adotado por Bruce. Além disso, também foi acrescentado uma respeitável galeria de vilões. Bill criou o palhaço criminoso Coringa, inspirado no ator Conrad Veidt, que interpretou o personagem principal de “O Homem Que Ri” (1928), filme de Paul Leni inspirado na obra de Victor Hugo. Também, a Mulher Gato, uma ladra extremamente habilidosa cuja aparência foi inspirada na prima de Kane, Ruth Steel. Ainda existem muitas discussões sobre qual dos dois teria criado os inimigos do Batman, mas é fato que os mais icônicos vilões foram criados ainda na época que a dupla comandava as histórias do herói.

Como foi Bob quem apresentou o personagem a National Comics, ele acabou levando todos os créditos pela criação do Batman. Mas na verdade, foi Finger quem criou a maioria dos conceitos que levaram o super-herói ao estrelato. Bill ainda escreveu muitas outras histórias para a DC Comics, além de ajudar Martin Nodell a criar o Lanterna Verde. Ele foi ainda roteirista de alguns filmes e séries de televisão, inclusive tendo escrito dois episódios da série live action do Batman em 1966. No entanto, foi somente em 1989, quinze anos após a morte do colega, que Bob Kane veio a público dar os devidos créditos para Finger, o reconhecendo como não apenas um mero colaborador, mas como co-criador do Cavaleiro das Trevas. Mesmo assim, a filha de Bill teve que vencer uma briga jurídica com a Warner Bros para que o nome de seu pai fosse incluído nos créditos dos filmes do herói. Em 2005, foi criado o Bill Finger Awards, uma premiação por excelência em escrita de quadrinhos focada em premiar artistas que não receberam o devido reconhecimento por suas obras.

Já Kane se manteve na DC, produzindo e desenhando histórias. Dentre elas, a animação “Gato Corajoso e o Rato Minuto”, como foi lançada no Brasil, em 1960. Em 1966, ele resolveu sair da editora para se dedicar as artes plásticas, inclusive tendo seus trabalhos exibidos em diversas galerias. Bob também foi consultor no filme “Batman”, de 1989 dirigido por Tim Burton, e todas suas sequencias, inclusive as dirigidas por Joel Schumacher. No mesmo ano ele lançou sua autobiografia “Batman and Me”. Bob Kane veio a falecer em 1998 de causas naturais em Los Angeles, aos 83 anos de idade.

Apesar de todas as polêmicas envolvendo a criação do Homem Morcego, é impossível deixar de considerá-lo como um marco na história dos quadrinhos de super-herói. Pela primeira vez, tivemos um personagem humano, com traumas e defeitos. Pode-se dizer que a partir disso, o conceito dos super-heróis se dividiu em dois: de um lado o herói épico, um ser sem defeitos, com poderes e moral superiores, assim como o Superman. E do outro lado, o herói trágico, humano, sombrio e cheio de questionamentos, como o Batman.

Ao longo do tempo, o Cavaleiro das Trevas passou por diversas mudanças, algumas o deixaram mais cômico, como a serie de TV dos anos 60 enquanto outras o deixaram mais realista e violento como os quadrinhos de Frank Miller e os filmes de Christopher Nolan. Porém, a essência do personagem, seu poder de dedução, sua inteligência e seu caráter, se manteve a mesma, pelo menos nas mais versões mais bem feitas. Aquele mesmo conceito criado por Finger e Kane há 80 anos ainda ecoa nos dias de hoje, e é isso que torna o Batman um dos heróis mais importantes e queridos da história da ficção.

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