CRÍTICA: “VINGADORES: ULTIMATO” (2019) – UM FILME HISTÓRICO

O texto não possui spoilers. 

Na maioria das vezes, é difícil posicionar um filme na história do Cinema e medir seu impacto na sociedade sem o tão necessário distanciamento histórico. Mesmo aqueles primores em qualidade de enredo e estrutura não possuem garantia de ficarem marcados como clássicos definidores de uma era. Entretanto, alguns casos são tão evidentes, devido às inovações no modelo de produção da indústria e no impacto causado na cultura pop, que não há escolha a não ser afirmar que são marcados em uma época. “Vingadores: Ultimato”, resultado de onze anos de um competente desenvolvimento de personagens que é responsável por trazer os quadrinhos de super-heróis de volta ao main stream, é o ponto de culminação do, talvez, maior fenômeno da cultura pop desde Star Wars. E sim, é também um excelente filme.

EndgameA história de “Ultimato” segue diretamente os acontecimentos de “Guerra Infinita”, mostrando como está a vida na terra depois do estalar de dedos de Thanos. Um dos primeiros dos muitos desafios enfrentados pelos roteiristas era de fazer o filme deste ano parecer diferente do anterior, tanto em escala quanto no tom. E a primeira cena já estabelece, muito bem, o tom melancólico que é presente em todo o filme, com ênfase na primeira hora, já superando o primeiro desafio. Uma decisão acertada da produção foi começar “Ultimato” sem nenhum tipo de preparação. Esse é – se não me engano – o primeiro filme do universo cinematográfico da Marvel (MCU) que se inicia sem que haja nenhuma introdução com créditos. Inclusive o logo da Marvel, que precede todos os filmes da produtora, é postergado para depois da primeira cena, separando-a da segunda. Essa escolha por si só se mostra eficiente, pois, primeiro, tira o espectador de seu lugar de conforto, já que a cena se mistura com os trailers que foram exibidos anteriormente e, segundo, traz um sentimento de emergência caracterizado pelo corte seco; não há ao menos uma transição em fade que amenizaria o efeito de começar. Em um piscar de olhos a cena já está na tela e o filme começa, sem muitas cerimônias.

Outra decisão que contribuiu ainda mais para o tom que diferencia “Ultimato” dos demais filmes do MCU foi trocar a música padrão que acompanha o logo da Marvel, com batidas fortes e crescentes que trazem a ideia do heroísmo e da grandeza, pela música “Dear Mr. Fantasy” do Traffic, que traz em sua letra o pedido do eu lírico para que o Senhor Fantasia, do título, traga novamente a felicidade e o tire da melancolia, pois ele é o único capaz de tal feito. A letra é muito simbólica e ganha ainda mais sentido quando colocada frente ao filme. Ela traz um prenúncio – que não é surpresa para ninguém – de que mesmo ao final do filme, quando tudo estiver resolvido, persistirá de alguma forma o sentimento de tristeza e melancolia, pois o Sr. Fantasia é o único capaz de acabar com esse sentimento, e ele não é real.

O que é real, por outro lado, é a evolução dos irmãos Russo em suas habilidades atrás das câmeras. Se em “Guerra Civil” a cena da batalha final parece pouco inspirada tecnicamente o que resulta em um baixo engajamento por parte do público, em “Ultimato” a história é completamente diferente. A cena da batalha final é a definição exata de catarse. As pausas e entradas da trilha nos momentos exatos, os enquadramentos e movimentos de câmera bem pensados, o ritmo, que sabe muito bem a hora de desacelerar para construir a tensão e acelerar para potencializar os impactos dramáticos, tudo é primorosamente executado resultando em umas das cenas mais empolgantes da história do cinema de blockbusters.  E vale ressaltar que é uma batalha de grandíssima escala, responsável por mostrar uma quantidade enorme de personagens, o que dificulta ainda mais acertar o ritmo e manter a referência geográfica razoavelmente clara. Razoavelmente porque, é claro, em alguns momentos ela é minimamente perdida, o que não atrapalha em nada a experiência. A cena, em geral, possui uma organização espacial funcional que faz o necessário para situar o espectador e não o desengajar emocionalmente da cena por estar confusa – ao contrário do caos geográfico que são as cenas de ação do Michael Bay. Ofensa gratuita? Talvez. – A montagem, não só nessa cena, mas também no restante do filme, cumpre bem sua função no gênero em questão e passa despercebida, apesar de ser uma das grandes responsáveis pelo sucesso da batalha final.

As atuações são outro ponto a parte. Apesar de não serem nada fora do comum do ofício, elas demonstram um entendimento das personagens e desenvolvimento ao longo dos anos tornando impossível ficar indiferente frente à forma como as personagens reagem aos acontecimentos da trama, sejam os mais explosivos ou os mais intimistas. É perceptível, para quem acompanha O MCU desde o início, o crescimento dos atores e de seus personagens em “Ultimato”. Todos, aqui, estão no auge de suas criações e, por isso, conseguem transmitir tão bem ao público os sentimentos almejados pelo roteiro, tudo de forma muito fluida e orgânica. Os momentos de humor também seguem essa fluidez, há uma cena em especial – e não, não é spoiler, – em que a personagem de Paul Rudd está preparando um taco mexicano, mas é interrompido pelo pouso de uma aeronave o fazendo perder o taco. Em seguida, a personagem de Mark Ruffallo surge com dois tacos e entrega para o Homem Formiga com um sorriso e uma música animada ao fundo. Esse é um momento que funciona perfeitamente como um símbolo para toda a construção de personagens ao longo dos anos que, não importa qual combinação de personagens em cena, haverá química.

E quanto aos defeitos? Eles existem, é lógico. Por exemplo: algumas cenas se alongam mais do que o necessário, há o já citado problema geográfico na batalha final e mesmo com as três horas, o final parece um pouco apressado com algumas personagens. Mas quando se analisa isso perante à grandeza que foi o MCU e ao que significa “Ultimato”, esses problemas se tornam muito menores do que seriam em outro contexto. A história contada aqui é o fim de uma era, o fim da formação original dos Vingadores apresentados há onze anos constituída por Homem de Ferro, Viúva Negra, Capitão América, Thor, Hulk, e Gavião Arqueiro. “Ultimato” é um filme que volta ao o passado para construir o futuro do Universo, encerrando os longos arcos de suas personagens principais de forma extremamente satisfatória, porém igualmente melancólica, deixando aberta aquela ponta de esperança que a próxima geração de heróis consiga criar algo tão grandioso quanto essa.

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