CRÍTICA: FIGHTING WITH MY FAMILY (2019)

Todos sabemos que o primeiro semestre do ano é para onde os filmes vão para morrer. É claro, existem exceções, mas a regra é clara: quanto mais cedo no ano, piores são os lançamentos ou menor é a expectativa do estúdio em relação a elas. Então, um filme lançado em fevereiro pelo desastroso estúdio da WWE (luta livre na tevê) só pode ser o pior que a indústria tem a oferecer. Na teoria, está certo, mas, na prática, o que temos é “Fighting with My Family”, filme produzido por Dwayne “The Rock” Johnson e que conta história de Paige (Florence Pugh), lutadora profissional vinda de uma família que vive de pro-wrestling que ascendeu do circuito independe inglês até os ringues da principal companhia de luta livre do mundo. E sim, esse é um exemplo de exceção.

O filme, baseado em fatos reais, tem como protagonista uma das principais lutadoras femininas da história da WWE. Mas antes de prosseguir, é necessário contextualizar algumas coisas.

Paige heeeereA WWE é, de fato, o que há de maior no ramo da luta livre mundial e é também o sonho da maioria dos wrestlers profissional do mundo, mas a empresa deveria pagar alguns adicionais de insalubridade para seus empregados, e eu não digo isso apenas pensando nos perigos de lesões que acontecem dentro do ringue. A companhia tem um grande histórico que vem desde os anos noventa até ontem (literalmente, olhe a data) de todos os tipos de abusos contra seus funcionários. Alguns casos mais notórios são: incitação, nos anos 90, para que os lutadores usassem esteroides; demissão de um lutador no dia de seu casamento como uma forma de vingança; renovação de contrato de lutadores que pediram demissão para não os usarem na televisão até o fim do contrato como forma de retaliação; e assinatura contratos de exclusividade com todos os lutadores sem que esses sejam, de fato, empregados da empresa, tendo inclusive que arcarem com suas próprias despesas médicas e viagens à trabalho, assunto que foi inclusive trazido para um público maior por John Oliver em seu programa.

Mas não é apenas isso. A WWE, há alguns anos, colocava suas lutadoras, e aqui há uma relação temática com o filme, em situações no mínimo humilhantes. O caso mais famoso é o de Trish Stratus, que em meados dos anos 2000, no auge de sua carreira como principal campeã feminina, teve que ficar seminua no ringue e imitar um cachorro porque o dono da empresa, Vince McMahon, a ordenou. Luta livre, para aqueles que não conhecem o produto, é roteirizado, portanto há histórias entre as lutas, que por sua vez são ensaiadas. É possível perceber, então, o tratamento que a empresa e seus roteiristas tinham para com as lutadoras, que eram, em sua maioria modelos, líderes de torcida e dançarinas contratadas unicamente pela aparência física. O talento no ringue pouco importava, pois a última coisa que elas faziam era lutar, literalmente.

Hoje o quadro mudou. Houve, em 2016, a Women’s Revolution, que introduziu o conceito inovador de boas lutas e histórias envolvendo a divisão feminina, além roupas funcionais e adequadas para um evento de Wrestling, ao contrário das lingeries usadas anteriormente – parece que é piada, mas essa era a realidade. –  Ah, um detalhe curioso, as lutadoras, antes de 2016, eram chamadas de Divas… É.

Depois dessa breve introdução sobre o magnífico mundo da luta livre, falemos, então, sobre o filme. “Fighting with My Family”, finalmente, propõe-se a mostrar como foi o caminho de Paige até chegar na WWE em um cenário antes do Women’s Revolution, assim, permitindo que o roteiro brinque com as diferenças da protagonista em relação as demais lutadoras.

Diferenças essas que são físicas e psicológicas, Paige possui um estilo visual influenciado pelo punk, enquanto as outras lutadoras seguem um padrão de beleza contemporâneo. O que poderia facilmente se pautar o clichê da garota diferente que é excluída pelas mulheres bonitas e malvadas, prefere subverter o conceito apresentando Paige como alguém que se vê melhor do que as colegas por ter uma origem profissional no meio do Wrestling, enquanto as outras eram dançarinas ou modelos, profissões menos dignas na perspectiva da protagonista. Esse caminho do roteiro se mostra acertadíssimo, pois faz com que a personagem tenha que crescer dentro da narrativa, ela aprende e muda sua visão de mundo, o que implica em uma sensação de movimento dentro da história, as ações possuem consequências e as consequências geram desenvolvimento.

Ainda sobre o roteiro, é interessante destacar o paralelismo que há entre a história de Paige, que foi para os Estados Unidos para se juntar ao NXT, divisão de desenvolvimento da WWE, e de seu irmão, Zak Knight (Jack Lowden), também lutador, mas que não foi aceito na triagem da empresa americana e teve que ficar no velho continente. Dentro da narrativa, Zak é o responsável por trazer os momentos dramáticos. Sua história é construída para ter um desfecho trágico, depois de não conseguir realizar seu sonho de ir para a WWE, mas há um arco de crescimento também para Zak. Ainda, o ressentimento que sente pela irmã é muito bem explorado pelo roteiro, que tem o difícil trabalho de construir uma relação crível entre os dois com eles estando em continentes diferentes pela maior parte do filme, e faz isso de maneira muito eficiente.

A respeito das personagens, é preciso ainda falar sobre o treinador Hutch, interpretado por Vince Vaughn. É engraçado pensar o quanto o ator funciona neste filme, sendo como personagem ou como um rosto conhecido. É evidente que Vaughn não é um ator brilhante ou um nome forte dentro da indústria, mas, neste caso, sua atuação se destaca entre as demais e ele surge como uma presença forte e reconhecível, que ajuda a dar legitimidade ao longa que trata de um assunto marginalizado e tido como entretenimento inferior, se é que existe algo do gênero.

Outra presença reconhecível é a de Dwayne Johnson, que interpreta a ele mesmo. Ele é usado no longa para duas finalidades: 1) atrair público, pois The Rock é, talvez, o que há de mais lucrativo hoje no cinema, e 2) atrair público, pois The Rock, antes de ser o que há de mais lucrativo hoje no cinema, foi um famoso lutador da WWE. E ele, junto a Vince Vaughn, funciona bem na função, pois tiram o filme do nicho dos fãs da luta livre e o colocam no mainstream.

A trilha sonora, por outro lado, não é tão bem-sucedida. No primeiro ato, principalmente, a trilha é extremamente redundante. Em cenas cômicas a música beira o satírico de tão óbvia e em momentos tristes idem. Ela é ainda invasiva e inconveniente, pois entra em momentos em que não há necessidade, é desnecessariamente alta e traz aquele sentimento doloroso de se estar assistindo um filme feito para TV. Mas justiça seja feita, no segundo e terceiro ato, apesar do problema ainda persistir, ele está presente em uma  escala muito menor.

Enfim, “Fighting With My Family” é uma grata surpresa que aborda, em um de seus subtemas, a péssima relação entre mulheres e WWE em sua história. Embora essa abordagem seja feita de modo a não prejudicar a imagem pública da empresa, ela não é ignorada. O longa tem inúmeros méritos no roteiro e na forma como a história foi conduzida por Merchant, que tem um excelente timing cômico devido à sua carreira no humor. É um filme sobre Luta Livre que agradará não apenas os fãs do esporte, mas também o público em geral, um verdadeiro feel good movie.

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