CRÍTICA: GAME OF THRONES (2011 – 2019)

De tempos em tempos surgem séries que ganham popularidade e se tornam discutidas e referenciadas por uma infinidade de pessoas, como foi o caso de Friends (1994-2004), Lost (2004-2010), Breaking Bad (2008-2013), entre outras. Com a internet cada vez mais democrática isso se potencializou e grande aposta da HBO surfou com maestria essa onda. Apesar de todas a polêmicas e revoltas de fãs, é inegável que Game Of Thrones foi a série mais popular desta década.

Baseado na série de livros ainda não finalizada de George R. R. Martin, “As Crônicas de Gelo e Fogo”, a série conta uma história épica que, inicialmente, se divide em três núcleos. Primeiro temos Eddard “Ned” Stark, o Lorde responsável por governar o Norte do reino de Westeros, que recebe a comitiva do Rei Robert, seu amigo e companheiro de guerra, em suas terras. Robert quer que Ned se torne sua Mão, ou seja, o principal conselheiro do rei e quem governa em sua ausência. O lorde reluta, mas ao saber que o antigo detentor do cargo pode ter sido assassinado pela família da rainha Cersei, ele resolve aceitar para poder investigar o ocorrido. Ele então parte para o Sul com suas filhas, Arya e Sansa, deixa seu filho Robb cuidando do Norte, e sua esposa Catelyn cuidando dos outros filhos, Bran, que “acidentalmente” caiu de uma janela e está em coma, e de Rickon, que ainda é muito jovem.

GOTEm outro ponto, temos Jon Snow, o filho bastardo de Ned, que resolve se juntar a Patrulha da Noite, um grupo de guerreiros celibatários que protegem a Muralha, uma grande parede de gelo que separa Westeros do extremo norte do continente, onde selvagens e criaturas monstruosas o aguardam. Ele, então, inicia sua jornada ao lado de Tyrion, irmão anão da rainha, que quer visitar o local e do seu tio, membro da Patrulha, Benjen Stark. Por fim, temos Daenerys Targaryen, filha do rei que foi destronado e morto para que Robert assumisse o trono, que está exilada em outro continente. No entanto, seu irmão Viserys quer tomar a coroa de seu pai de volta e, para isso, é capaz de vender a própria irmã em troca de um exército.

Apesar de essas serem a três histórias iniciais, em certo ponto elas começam a se dividir em diversos núcleos. Cada um deles tem personagens diferentes no centro e essas narrativas ora correm em paralelo ora se cruzam. Essa dinâmica faz com que coadjuvantes sejam alçados a protagonistas e vice-versa. Apesar da primeira temporada não ser exatamente brilhante e ter um começo mais lento, a série começa a chamar a atenção do público pelo fato de que personagens importantes morrem logo no início da trama. Devido a esse esquema de núcleos, tanto nos livros originais quanto na série, é possível que algum protagonista morra e ainda sim a história prossiga nas diversas outras narrativas.

É na segunda e terceira temporada que a série começa a se estabelecer, sair do nicho e ganhar público. Os complôs políticos aumentam, as guerras e batalha se intensificam e mais mortes cruas e inesperadas acontecem. Diálogos tirados diretamente dos livros e encenados de forma maestral são os pontos mais emocionantes e cativantes da trama. Lobos gigantes, dragões e zumbis de gelo começam a aparecer e o realismo das relações sócio-políticas entra em perfeito equilíbrio com a fantasia colocando na tela das televisões algo que jamais havia sido feito. Obviamente que com o sucesso o orçamento da série também começa a aumentar e, nesse ponto, os showrunners, David Benioff e D. B. Weiss, souberam bem como aproveitar. Cada episódio a partir de então tem a qualidade cinematográfica de um filme hollywoodiano de alto orçamento.

Tudo isso culmina na quarta temporada, que tem seu tom épico e começa a estabelecer novas jornadas para os diversos personagens. Algumas das cenas mais memoráveis e dos diálogos mais relevantes são vistos nessa temporada, parecia que tudo caminhava para que Game Of Thrones fosse uma das melhores séries da história da TV mundial, inclusive sendo bastante reconhecida nas premiações especializadas. No entanto, a partir da quinta temporada, algo parece mudar nos bastidores da produção e começa a afetar os rumos da trama.

À medida que o material-fonte vai ficando cada vez mais escasso, uma vez que os dois últimos livros da série não foram lançados, George R. R. Martin, o autor, se distancia da produção da série. Assim, os show runners tomam liberdades e decisões para além da obra original, o que não seria um problema se fosse feito com mais cuidado e trato na qualidade. A partir de então os diálogos passam a ser menos realistas, as mortes parecem servir mais como choque gratuito do que realmente ser algo imprevisível, porém pensado, que muda os rumos da trama.

A parte técnica, principalmente a direção de arte e a cinematografia, no entanto, continuam impecáveis e cada vez melhores. Apesar da notável queda na qualidade do roteiro e algumas polêmicas envolvendo a jornada de alguns personagens, a quinta e a sexta temporada apresentam um desenvolvimento satisfatório e mantêm a produção com uma qualidade ainda muito alta.

Os principais problemas se iniciam na sétima temporada, quando é anunciado que aquela seria a penúltima. A falta de bons diálogos e a trama política enfraquecida e simplificada afeta a empatia do público pelos personagens. Ainda que a batalhas continuem bem dirigidas, o desenvolvimento da narrativa, que tornaria a guerra ainda mais imersiva, é bastante fraco. Isso se deve ao fato de que vários personagens têm mudanças significativas em seus arcos, e diversos pontos de virada acontecem. Entretanto, o roteiro não dá tempo necessário para absorção dos acontecimentos e as mudanças chegam de forma abrupta e pouco justificadas para o espectador. Há diálogos bregas e casais sem química que parecem advindos de uma novela ruim e sem criatividade. A última temporada, apesar de ter se iniciado bem, termina de forma desastrada, o final é fraco, sem emoção, cheio de furos de roteiro e decepcionante.

É difícil falar de atuação em Game Of Thrones, uma vez que o elenco é gigantesco. Além de Sean Bean (Ned Stark), que fez Boromir em Senhor dos Anéis, nenhum ator, ou atriz, era muito conhecido pelo grande público e, ainda sim, a trama não tem grandes problemas nesse ponto. Mesmo os atores mais fracos, como Kit Harrington (Jon Snow) e Emilia Clarke (Daenerys) são, na maioria dos episódios, bem dirigidos, poucos dos problemas de interpretação deles são perceptíveis para o grande público. Mas alguns destaques precisam ser mencionados. Grande parte do elenco infantil/adolescente, composto por Sophie Turner (Sansa), Maise Willians (Arya), Alfie Allen (Theon) e, principalmente, Jack Gleeson (Joffrey), está excelente do início ao fim, todos eles são grandes revelações da atuação. Lena Headey (Cersei) é a melhor atriz de toda a série e possui cenas memoráveis principalmente ao lado de Natalie Dormer (Margaery), que também está excelente. Peter Dinklage (Tyrion) tem o melhor discurso de toda a série durante o julgamento de seu personagem. Aidan Gillen (Mindinho) e Conleth Hill (Varys) tem os melhores diálogos das primeiras temporadas e merecem destaque também.

De fato, a série poderia ter sido uma das melhores, se não, a melhor da história, tanto em produção quando em roteiro. Mas a falta de material fonte nas últimas temporadas acabou prejudicando o desfecho. Mesmo assim podemos que dizer que nada tão grandioso, em escala, havia sido feito antes na televisão. Apesar do final desastroso e apressado, Game Of Thrones, como um todo, ainda merece ser assistida e seus momentos épicos e marcantes estarão sempre na memória daqueles que assistiram. Foi uma jornada incrível e sentiremos saudades.

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